sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

disse adeus aquela tarde

Você veio, ficou, depois partiu. Posso contar esta história mil vezes e nunca será a mesma: acrescento uma palavra, às vezes uma frase inteira, conversas que não tivemos daquela maneira. Fui buscar você na estação, anos depois daríamos o mesmo beijo? Sua boca ainda é como me lembro? Achei melhor não pensar nisso, deixemos que as coisas sejam como sempre foram e mesmo que daqui para a frente sejam diferentes, o que sabemos do que passou permanecerá o mesmo. Peguei sua bagagem, coloquei no porta-malas do carro, pouca coisa, são apenas três dias e um deles nem é inteiro. Você se lembra da cidade e enquanto percorremos suas ruas se lembra de nós nesta cidade, as mesas do fundo, nossas preferidas, a luz da noite, o som dos nossos passos, faz perguntas sobre os bares que íamos, respondo como todos fecharam, como não tocam mais a nossa música, as paredes são de outra cor agora, os nomes dos drinques, o gosto da comida – vejo todo o filme, um pouco da nossa juventude, cabelos mais compridos, o seu mais castanho que vermelho; mas eu gostei dele vermelho, você fica mais real desta maneira, não é mais como me lembro, mas é como a vejo. Você tirou da bolsa um livro que tinha levado, nem tinha dado falta, você podia ter levado a casa inteira, cada papel rabiscado, cada canto coberto de poeira, que eu não daria falta, era você que eu não achava sem saber o que procurava, mas agora você me pede cabides para as suas roupas e eu me espanto que tenha um armário no meu quarto, onde estava ele que eu não enxergava; me pede algo para beber e eu descubro onde guardo os copos, as taças, foram anos bebendo tudo da garrafa, é como se cada coisa aqui voltasse a ter cheiro, forma, utilidade. Você veio para me lembrar que nome teria nosso primeiro filho, veio porque tinha saudade de como se lembrava que éramos, gostou da barba, me dá um certo um charme, mas se dissesse eu a teria feito. O que a gente quer não é o que vem depois que acaba, mas o que nunca deveria ter terminado. É como o livro que eu disse que faria, você cochilava enquanto eu o descrevia, eu apagava a luz e na noite seguinte continuava da mesma página. Agora não me lembro onde eu estava, nem você dos personagens, eu mudo o começo da história e você nem percebe que não é da mesma que se trata. Você veio para me lembrar como fazíamos, que significado tinha seu corpo para mim e o que ele agora significa, a gente não fez como se lembrava, fez como aprendeu nos anos seguintes com outros corpos, por isso a sensação de que algo não se encaixava por mais que se gozava. Você veio para me dizer que seu ônibus já estava saindo, beijei quem você é de verdade, sua boca está ainda melhor, eu me apaixonaria fácil pela mulher que você se tornou, mas é de outra que tenho saudade. Depois que você acenou, disse adeus aquela tarde, percebi que tudo voltou, não como me lembrava, mas como sempre esteve, percebi que nenhum bar fechou, que as paredes não têm outra cor, os drinques outros nomes, nem a comida novo sabor. Percebi que o que eu sentia por você ainda existia, apenas que não havia mais necessidade nenhuma, que nossa música ainda tocava, só que eu a ouvia como se fosse qualquer uma. Foto dela: Aline Monique.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

não nos conhecemos

Não nos conhecemos assim tão bem, apenas escutamos o que o outro está sentindo, o que ele acha que sabe sobre si mesmo e nem a isso nos prendemos. Elas me falam de suas vidas e eu imagino. E eu imagino como seriam enquanto adoço o café, acendo um cigarro, passo por uma rua da minha infância. E todo mundo têm histórias ótimas – mesmo que doam nelas aquelas histórias, ainda assim são ótimas, por causa delas não nos sentimos sozinhos, lembro do que me contaram enquanto volto para casa de carro, desligo o rádio para poder ouvi-las melhor na minha cabeça e enquanto me lembro acrescento pequenos detalhes que faltaram e as histórias que eram só delas se tornam minhas também enquanto faço a barba, passo uma camisa, olho como fiquei no espelho do armário. E você fica feliz delas terem sido reais em sua vida, delas terem gritado, exorcizado demônios bem ali na sua frente, delas terem chorado, delas terem se debatido, delas terem querido ficar contigo, delas terem existido. Você se sente culpado por não tê-las prendido tempo o suficiente entre os seus braços, a gente sempre acha que podia ter sido diferente do que foi e faz disso um álbum de fotografias que não tiraram – o qual folheia como se as visse. Mas por mais que eu me aventure dentro delas, apenas me distraem, no fundo eu não as conheço, nem a mulher que se ajeita ao meu lado na cama, nem a que se levantou para que esta ocupasse seu lugar e mesmo não as conhecendo posso falar delas por dias e posso dizer que música combina mais com o jeito com que se aproximam de mim e dançar com elas sem que saibam que tenho pernas, braços, coração prontos para isso e posso até me apaixonar por elas enquanto espero o elevador, o filme começar, a chuva passar. Foto dela: Quel.

domingo, 7 de dezembro de 2008

do seu castelo de cartas

“... não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins...”
(Carlos Drummond de Andrade)


Você procura, encontra, depois procura de novo, nunca me preocupei se isto teria um fim, não me parece ser disso que se trata, mas de quem vamos nos tornando ao longo dos anos: antes você queria se soltar, hoje ter onde se agarrar – quem fez de tudo para ser expulsa do paraíso agora vem pedir para voltar. Isto não lhe soa engraçado? O que antes era a melhor coisa a se fazer agora parecer errado?

A gente só percebe que está vivo quando algo dói. A maior parte do tempo nem sabe se tem fome no mundo. E bebes e comes e ris. Mas aí quando se dá conta de que não é superior a porra nenhuma, que também sente as intempéries do tempo, seu castelo de cartas desmorona e você corre pedir colo com o rabo entre as pernas como se antes não fosse a primeira a negá-lo. Se quer fazer uma revolução comece pelo seu coração. Não coloque a culpa nos vizinhos da frente: você também já gostou de fazer com a cortina aberta pouco se importando com o que iam pensar. Não é estranho quando é você quem fala em regras? Fica se sentindo uma velha: sua mãe, seu pai, sua tia. Se eu lhe disser a minha idade você vai dizer ‘não parece’ como se eu fosse um menino de tão desobediente.

O fim disso tudo, creio, está na gente mesmo, no nosso próprio cansaço, não naquela de ontem ou nesta que acabou de sair. Elas representam horizontes, possibilidades, noites inteiras assim, muita saudade. Como saber o que me espera? Se o que ela diz é só um jogo de palavras para me confundir? Eu sei que uma contou para a outra quais eram os meus pontos fracos, eu sei ao mesmo tempo que não sei como reagir de outra forma, vou acabar por sucumbir, tenho compromisso somente com a minha pele, caso contrário, seria o mesmo que me trair, não teria o que escrever e você iria dormir; o que parece ser uma grande verdade, só serve para mim, não peço a ninguém que tente me acompanhar, que cada um cometa os seus próprios erros, chegue você a algum lugar: hoje na minha cama, amanhã na sua, não dá para saber como esta nem história alguma continua, metade do que faz brilhar os olhos é algo que a gente imagina. Se é amor o que você quer, podemos até tentar, mas desde quando isso é uma garantia? Você fala como se tivesse sido sempre honesta com o que sentia – responde uma coisa para mim, my dear: se lembra de alguma vez em que foi cruel com quem não queria? Amor não é só aquilo que você sente, como você sente, como você entende. Para você será de um jeito, para mim será diferente. O mesmo se aplica aos vizinhos aí da frente.
Foto dela: Stella.

domingo, 23 de novembro de 2008

sobre ontem a noite

“... há sempre uma estória infeliz esperando uma atriz e um ator...”
(Humberto Gessinger)

Eu vou deixar a chave bem aqui, mostrei a ela onde fica, para quando você quiser sair, nem precisar se despedir, pode ser que de manhã acorde assim sem entender o que faz nesta cama, quem sou eu ou que importância isso possa ter, lembre-se da festa onde a gente se conheceu, do nome do drinque que bebia mas não do meu – tudo bem, já que eu nem perguntei o seu, achei que diria, mas se entendeu que não era necessário quem sou eu para dizer o contrário.

Ali naquela gaveta tenho papel e caneta, mas você não precisa me escrever bilhete algum, não me interessa se sua letra é bonita, nem se as marcas das suas garras nas minhas costas vão desaparecer daqui dois, três dias. Eu já gastei saliva demais com poesia, eu já fui ao fundo e voltei sem saber se voltaria, não há nada mais que meu corpo meu coração precise saber, tudo já teve sentido agora não me importa mais que sentido possa ter, amar é sempre uma aposta, um risco para quem está disposto a correr, mas eu nem quero saber o quanto você está disposta a correr, eu só quero que você fique assim até que eu me canse desta posição.

Rabisquei num pedaço de papel o número do meu telefone e coloquei no bolso de trás da sua calça enquanto dormia, mas pode rasgar e jogar fora quando o achar, isto se o achar, mal sei como é a sua voz, não vou mesmo me lembrar dela se ligar e a noite de hoje é a noite de ontem já. Noite como todas as noites, o mundo dando voltas em torno do mesmo lugar.
Foto dela: Aline Monique.

sábado, 15 de novembro de 2008

para você

A verdade é que nem tudo é uma história da qual você se livra fácil. Fica o peso e o sentido que fazia. Aquilo que por menor que fosse tomava conta do seu mundo, colocava um pouco de ordem, vida dentro de você, justificava porque respirar. Aliás, ela me apareceu por aqui ontem no começo da noite, veio com a desculpa esfarrapada de que queria um livro emprestado. Era tão esfarrapada que ela foi embora de manhã e deixou o livro aqui. E eu nem sei por qual motivo (ou até sei mas não quero descobrir) fiquei ali horas folheando o que escolhera. Como se lesse para ela. O que nunca mais fiz.

É bastante silencioso aqui. Não havia reparado antes. Ainda pouco achei que era seu violão no jardim ou algo bonito que ela leu e correu vir me contar. Não, nada se moveu, tudo permanece onde está. O que ela tirou do lugar eu achei melhor arrumar. Não se usa mais escrever cartas, por isto comecei uma e parei, ela nem vai ficar sabendo, mas estava tudo lá, o que era real e o que era só poesia para ela se apaixonar.
Foto: Ricardo Pereira/modelo: Kel.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

a grande verdade

“... gosto de ser cruel pra chamar sua atenção...”
(Paula Toller)

Algumas mulheres são como poemas que eu gostaria de ter escrito. Outras rabiscado e jogado fora. Funciono assim, o que posso fazer? O mundo é vazio se você não se apaixona. Ou os dias são longos demais ou poderiam durar semanas que você não se importaria. Sou expert em contemplar mulheres saindo do banho e vindo para a cama. Eu vivo por isso, natural que escreva sobre isso. Não vou me casar com a sua filha, não se preocupe, estou apenas ‘esquentando’, ensinando para ela para que serve seus braços, seu colo, lábios, dentes e pernas e um pouco de amor, é claro, algo que ninguém mais sabe. Eu sou o último romântico, eu e a Nana, mas ela é personagem de outra história. De Paranóias, histerias e delírios.

Então ela apanhou o Bukowski que eu andei lendo. Achou um tanto vulgar o modo como ele descrevia sua vida, suas mulheres. Isso te excita? – perguntou mostrando-me o livro. Isso me excita – respondi apontando para o seu corpo. A gente não lê para substituir a vida, a gente lê para dar a vida algum sentido que preste. Ou você pensa que trabalhar e ter algum dinheiro é o suficiente? A cidade lá fora é praticamente um filme de George Romero. Os zumbis já são em maioria aos vivos. Alguns estão até escrevendo livros. Figuram entre os mais vendidos. A boa literatura precisa ter algo de repugnante. É como quando você olha para a sua própria vida e diz ‘não acredito que estou vivendo isso’ – dizer isto é a melhor forma de sacar se você é um dos zumbis ou um dos vivos. A maioria de nós já morreu, o problema é que inventaram excelentes perfumes para nos esconder isso. Da grande verdade que é a morte em vida. Ou sistema capitalista.

Algumas mulheres gostariam que eu simplesmente passasse a mão em suas cabeças. Ora por que não, eu também faço isso, só que cobro pelo serviço. Não há nada de indecoroso em ser um garoto de programa, a maioria dos homens e das mulheres que conheço hoje não passam disso, a diferença é que vão de graça. O que, imaginam, os colocam num nível superior de moral e decência. Como remédio para a solidão é perfeitamente justificável. Pelo menos por alguns minutos temos a sensação de que tudo é real, que somos imprescindíveis, nossos corpos insubstituíveis, mas é durante o café da manhã que não conseguimos disfarçar. Eu também tenho hora no dentista.
Foto: Ricardo/ modelo: Renata Punk.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

work in progress

Eu a peguei folheando meus rascunhos, parecia bastante interessada, sabe que eu não gosto que leiam quando as coisas ainda estão assim, incompletas, pedindo um fim, mas não me atrevi a interrompê-la, estava se apaixonando, e é um privilégio assistir a isso sem que o outro saiba da nossa presença, sentia uma pontinha de orgulho por ter escrito aquelas páginas, por prender sua atenção num dia de sol, aquela papelada já estava ali sobre a mesa há mais de uma semana, à espera dela me parece.

Vejo quando ela sorri ao final de uma página e antes de passar para a seguinte volta os olhos para a anterior como se quisesse gravar alguma frase, algo que talvez eu tenha ‘dito’ com outra intenção, mas da qual ela se apropriava como se ‘aquelas palavras’ a explicassem melhor para si mesma, estas perguntas que nos fazemos muitas vezes na vida e que deixamos no ar para mais tarde respondermos e que um poeta do século passado com uma vida completamente diferente da nossa parece saber direitinho o que significa e porque as fazemos. Naquele instante eu sou como um poeta do século passado com uma vida completamente diferente da dela, ou quem sabe o trecho destacado fosse apenas um comentário sobre mim mesmo, algo que às vezes revelo sem dar-me conta, sem pesar se deveria, como uma falha, um erro, um fraco que nos humaniza perante aquele que a princípio só nos admira, não sabe ainda se pode fazer parte de tudo aquilo, de que maneira pode contribuir.

Isto há muito deixou de ser um romance, não sei mais que direção vai tomar, não me importa mais, nele de tudo cabe, outra noite referi-me a ele como meu ‘dicionário de sentimentos’, tentei explicar o que aquilo significava, depois a conversa mudou de rumo, fomos para a cama mais cedo. Isto também há muito deixou de ser só da minha vida, daquilo que eu posso sentir e revelar, começo um novo parágrafo e não sei onde vou parar. Às vezes chego até você, dou voltas em torno de você, bagunço o seu cabelo, mudo o seu jeito de olhar, depois volto para a casa com uma nova história para contar. Meus personagens não são reais, quem dá vida à eles é que é: em outras palavras, você.
Foto: Ricardo/ela: Gabi L.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

luz natural

“... a falta de ar às vezes é um modo da gente lembrar que respira...”


Reconhece? Este é o meu corpo, aquele da noite passada, que você chamava de um nome índio, que você não acreditava que fosse possível, que eu mesmo não compreendo direito: apenas acato suas decisões, aceito o seu temperamento. Agora o seu papel nesta história é o de um cara se vestindo, personagem número dois deste teatro obsceno que interpretamos como podemos, não o culpo por ir embora, a gente se usa e se joga fora, mas não me olhe assim por cima como se tivesse me ensinado alguma coisa que eu ainda não sei, não combina com a sua expressão cansada de quem sabe que não tem mais nada para me oferecer, eu já fiz curvarem-se diante de mim muitos reis e você, convenhamos, não é rei de nada, só seguiu à risca o manual, a versão 2005 dele fui eu quem rabisquei, tão diferente da atual, naquela a gente se apaixonava, na de hoje entra e sai igual, não rola mais aquela coisa espiritual que sufocava – que sufocava mas era bom: a falta de ar às vezes é um modo da gente lembrar que respira. De que adianta gritar se ninguém vai escutar, você não veio até aqui para resolver todos os meus problemas, nem eu me interesso pelos seus, a vida não é linda? Preciso pagar uma conta, não tenho mais tempo para esta literatura barata que é o amor, esta invenção de cinco segundos, este perfume que me faz lembrar, estas taças abandonadas, este clichê do qual não se escapa, esta cara à tapa, esta luz natural – mas me dê licença que eu preciso atender o telefone, uma amiga quer saber sobre a noite de ontem, digo que me sinto viva, mas não faça essa cara, o que eu sinto está morto, enterrei enquanto você dormia, no quintal. E aproveitando que você está aí de pé me diz o que acha de um tribal aqui nas minhas costas? Foto dela: Aline Monique.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

a manhã

quem sou eu depois de você


Fui colocar um disco. Quando voltei ela estava em pé junto à janela, acendera um cigarro, observava a rua, o que acontecia, lá fora nada havia de mudado, pensava como tudo podia estar inundado, um tsunami ou algo assim enquanto dormíamos e aquele quarto e aquela música que escolhi e até mesmo aquele seu cigarro fizessem parte de uma cena, de um cenário, do qual ela não pudesse nem quisesse fugir. Ela era uma outra mulher, uma que eu acabara de conhecer e ela também. Fizemos amor e não fizemos, isto é, fizemos – mas fizemos aqui é mais um modo de dizer porque amor é algo que nunca saberemos se é o que estamos a fazer. Mas havíamos compartilhado ‘coisas’, bem maiores do que sexo, bem maiores do aquela cama desarrumada significava, queria dizer. Não é tanto pelo que ela me contou, mas pelo modo como me contou, não me refiro as palavras que usou mas como as disse, como pensou nelas, como me conheceu antes de dizer, o que ela me deu eu não tenho mais como devolver, ela sabe disso, a idéia lhe agrada. Outros a tocaram, falaram com ela, mexeram em seu cabelo mas era como se ela não se sentisse ali com eles, era como se ela tivesse assinado ‘no embalo’ um contrato que a obrigasse a agir assim como que para se sentir parte de algo maior do que ela, mais forte, algo que dizem ser a vida, a sua juventude, o tempo que se têm, era preciso viver a vida que é mais dos outros que dela para existir, para saber o que está rolando, para se ter onde ir, para escapar da própria vida que é o lugar onde ela se sente agora e onde por algumas horas estive: “... essa parte do meu corpo por exemplo nunca foi tocada, muitos homens passaram por aqui mas nunca a tocaram e você, o primeiro lugar em que me tocou foi justamente aqui...”, disse apontando onde seria. Existe a hora da festa e a hora de voltar para casa, o corpo também precisa descansar; nem sempre quem te convida para a festa volta contigo para a casa, espera o seu corpo descansar. Ela está ali como eu a desejo, queria pintar um quadro, tirar uma fotografia, mas prefiro guardar segredo de como a vejo, penso ‘é algo que nunca vão me roubar’: ela tem vinte-e-cinco anos, quatro meses, dezoito dias, seis horas, treze minutos, cinqüenta e quatro segundos de vida e daqui a um segundo não terá mais, além de mim ninguém tem como saber o que era. Escrever sobre isso não é nem dez porcento do que viver isso. Daqui a pouco o disco acaba, o cigarro apaga, a água começa a baixar. Foto: Alessandra Gi.

domingo, 26 de outubro de 2008

28

Em matéria de sexo os homens não passam de uns garotinhos. Eu tenho aqui um corpo cheio de possibilidades e eles só puseram a mão em metade. Ora, metade, estou sendo muito otimista, uns dez porcento, o resto eles nem sabem, nem fazem idéia, acho até que nem agüentam. Os delicados, os sensíveis, os poetas vêm cheios de bajulação, colocam você num pedestal, a maior parte do que dizem a seu respeito dizem porque gostam daquelas palavras, não se referem a você, mas a todas as mulheres que eles conheceram e ‘endeusaram’. Endeusaram a ponto de não conhecerem mulher nenhuma de verdade, só a imagem que projetaram dela na folha de papel em que a deitaram e fizeram amor. Os machões, os safados, os que se acham grande coisa, aprenderam sobre sexo vendo filmes pornográficos, não fizeram outra coisa na sua adolescência, ler um livro para eles era coisa de bichinha e aí você pede peloamordedeus que não abram a boca porque são uns tapados, tudo o que fazem é exibir seus bíceps, são uns tarados por si próprios, comeriam a si próprios se pudessem, meteriam seus ‘meninos mal-criados’ no próprio rabo se pudessem, mas na hora do ‘vamos ver’ negam fogo, isto nunca lhes aconteceu antes, vão dizer. As mulheres, ah as mulheres são uma irmandade secreta, elas entram em você por corredores pelos quais até você desconhecia, quando você se dá conta já estão decifrando todos os seus códigos, falando de deus no seu íntimo, não subestimam um centímetro do seu corpo que seja, tiram música de cada um deles. Imagem: Edward Hooper, A Woman In The Sun, 1961.

“28” – assim como “Meu café já está no fim”, “Amarelo fica muito bem em você”, “A Vida em três ou quatro linhas”, “Em Alguma Daquelas Janelas”, “No que estará pensando”, “O Velho Cinema” e “Às quatro da manhã”, publicados anteriormente aqui neste blogue – faz parte de uma série de pequenos textos que escrevi inspirados nas telas do pintor norte-americano Edward Hooper cuja influência sobre este blogue não se limita a estes textos mas espalha-se pelos demais com maior ou menor intensidade e também pelas fotos que ilustram muitos deles.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

para ler com todo o corpo

“... meu livro de cabeceira para ler com todo o corpo é aquele de que fala a elegia de Donne...”
(Em resposta a uma carta de fã, Belchior)


Tenho lido muita coisa, mas seu corpo ainda é o meu livro preferido. E é sobre ele que me debruço esta noite, que história me conta, que personagem desconheço, com qual trama me prenderá, pergunta se gosto de surpresas, sorri maliciosa quando respondo que sim, parece que tem tudo sob controle, não perco por esperar, penso ‘de novo uma mulher como você acontecendo na minha vida’, penso ‘duas vezes na mesma vida’, nem precisei morrer e retornar. Ou Deus está do meu lado ou o diabo é que está. Ou o diabo é que está.


Você não se parece em nada com o que só eu ‘vejo’. Entre suas amigas conversando sobre nada. Só eu sei quais palavras você é capaz de pronunciar, as loucuras em que pode pensar, o código com o qual gostamos de nos provocar. Quem poderia imaginar que uma pergunta inocente sobre o tempo junto à máquina de café quer saber que cor de calcinha está usando ou se está. Os cabelos soltos significando ‘siga meu carro à uns dez metros de distância para ninguém desconfiar’, o cabelo preso ‘naquela sala de reuniões do segundo andar que ninguém nunca usa em cinco minutos e que se dane se alguém desconfiar’.


Você me pede que eu escreva novos capítulos em você, aqui e aqui, diz apontando em si mesma por onde devo começar. Rabisco alguma coisa, você se arrepia toda, ‘escrever é uma forma de existir’, diz ela me ensinando literatura, toda a literatura que eu preciso saber, aquela que não me fará imortal, um clássico da literatura mundial, mas aquela pela qual vale a pena viver, é a esta Academia que eu quero concorrer.
Foto: Ricardo/ ela: Stella.

domingo, 19 de outubro de 2008

acharás entre as páginas de um livro...

... e não saberás se é a ti que me dirijo

Se eu morresse, como saberias da minha partida? Alguém te avisava, ou um telefonema não atendido faria as vezes de alguma voz. Os dias continuariam, iguais a tantos outros, mesmo que eu já não fizesse parte deles. A vida mostrava-te a sua não necessidade das minhas palavras. Talvez chorasses, mas não muito, porque sabes que prefiro quando sorris. E contrariavas-te, a tentar sorrir só porque me pensavas atento a ti, noutro lugar onde eu estivesse, que nem sabes que lugar é esse, nem isso interessa. Queria apenas que, por cima das minhas cinzas, porque quero ser cremado, plantasses uma árvore, uma qualquer. Podia ser uma amoreira, para que, em novembro, um pouco de mim te alimentasse. Foto: Penélope Charmosa.

domingo, 5 de outubro de 2008

meu café já está no fim

meus personagens têm dentes, eles mordem


Não, eu não sou ninguém, não tem que se lembrar de mim, de onde me conhece, você não me conhece, já devemos ter nos cruzado milhares de vezes pelas ruas, mas só isso, moramos na mesma cidade, mas toda cidade tem muitas outras cidades dentro de si, eu vivo em uma delas, você em outra, às vezes você nos visita, outras sou eu quem vem aqui, mas não me pergunte se eu venho sempre aqui, eu não vou responder do jeito que você quer ouvir. Eu tenho essa roupa e esse cabelo e tenho livros que nunca li, mas você não quer saber se eu respiro, se prefiro contra a parede do banheiro ou num hotel em que damos outra identidade, você não quer escrever sobre mim, isto pode levar horas, puxar uma cadeira, pedir algo, me ouvir. É mais fácil assim, você do outro lado do bar, imaginando se meu corpo é flexível, se falo obscenidades quando excitada, se meu pai se feriu na guerra e ganhou uma medalha. Meu café já está no fim, um gole e não tenho mais o que fazer aqui, eu queria aprender algumas gírias com aquela garçonete, como ser sexy mascando um chiclete, eu queria que um chicote estalasse em mim, mas não me pergunte no que eu estou pensando, ou vou começar a rir. Da última vez que olhei no relógio eram duas da manhã, daqui até meu prédio são três quarteirões, pode ser que eu seja assaltada no caminho, que eles tenham uma faca e que até me cortem se eu pedir, quem sabe se você desse uma de herói e aparecesse do nada, rasgasse sua roupa por mim, a gente faria ali mesmo, naquela viela pouco iluminada, a senhoria é uma velha mal amada que não deixa nenhum homem subir. Imagem: Edward Hooper, Automat, 1927.

“Meu café já está no fim" - assim como "Amarelo fica muito bem em você”, “A Vida em três ou quatro linhas”, "Em Alguma Daquelas Janelas", "No que estará pensando", "O Velho Cinema" e "Às quatro da manhã", publicados anteriormente aqui neste blogue – faz parte de uma série de pequenos textos que escrevi inspirados nas telas do pintor norte-americano Edward Hopper cuja influência sobre este blogue não se limita a estes textos mas espalha-se pelos demais com maior ou menor intensidade e também pelas fotos que ilustram muitos deles.

sábado, 27 de setembro de 2008

uma cidade no meio do nada.

“... não fazes favor nenhum em gostar de alguém...”
(Nem Eu, Dorival Caymmi)



Fiquei com a impressão de que você não queria que eu ligasse, de que me passou o seu número apenas para ser gentil, pelo que tivemos, dias em que quase não nos víamos, as poucas noites em que fizemos, acontece que querer saber como você está é apenas querer saber como você está, não confunda as coisas, eu sei que a gente acabaria se cansando um do outro dali a algumas semanas, mas não tivemos algumas semanas para se cansar, você precisava correr para pegar o avião, eu preparei as suas malas, enquanto você se despedia da família, dos amigos, dirigi como um louco, mas chegamos a tempo, deu para um último beijo, você estava feliz, eu também, gostei que terminasse assim: um homem, uma mulher, 1966. Na volta procurei uma estação que desse os resultados do brasileirão. Você dormiu enquanto lia o seu Carlos Castañeda, foi um vôo tranqüilo. Não era para Paris, mas para a vida: uma cidade no meio do nada.

Ontem vi meu primeiro filme sem você. Tentei me concentrar no filme que assistia, uma bobagem sobre mortos que andam. Você adorava essas bobagens, eu adorava você. Na chuva com cara de brava esperando eu aparecer, é como me lembro, eu tinha me atrasado, pensei que ouviria, mas você só me pediu um abraço por conta do frio que fazia. Estou escrevendo isso diretamente dos meus dezessete anos. Eu sei que não os tenho mais, eles ainda estão aqui, os meus dezessete, ajudaram a formar a minha personalidade, mas envelheci, passei da idade, você até arrancou o meu primeiro fio de cabelo branco. Apesar de lindo, não é mais a você que me dirijo, eis a grande verdade, quero atrair outra com o que digo e você sabe. É que é foda ser um poeta romântico vinte e quatro horas por dia, às vezes quero mandar o amor ir tomar naquele lugar. Você não?
Foto: Penélope charmosa.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

chama-se 'amor' ou algo assim

Fui até a sacada e examinei
o mundo e o que havia.
Olha só esta chuva
que não nos dá outra escolha.
Ela entendeu a mensagem
e me chamou de volta para a cama
onde ficamos o resto da manhã.
“Escuta no meu coração
que música mais linda” –
disse ela me convidando.
Reconheci a melodia,
acho que sou eu o compositor,
chama-se ‘amor’ ou algo assim.
Então ela me reclamou a co-autoria
daquele samba.
Mais uma dentre outras tantas parcerias.


Poema e foto: Ricardo.
Modelo: maria rita.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

hoje eu te vi na novela das seis

Finalmente fui vê-la. Há muito que ela cobrava minha presença. Tinha uma cena em que ela ficava praticamente nua e eu me lembrei dela caminhando só de calcinha pelo apartamento, ria de não sei o que. Quando nos conhecemos ela não era atriz ainda, embora já se sentisse uma. Um dia farei uma peça sua, dizia. Não que eu tivesse escrito alguma ou tivesse qualquer pretensão de escrever, apenas que aquilo fazia parte do nosso romance na época: imaginar onde estaríamos dalí há dez anos.

Não entendi bem o enredo da peça, por que gritavam tanto?, sempre acho que posso escrever algo melhor, mesmo assim disse que ela esteve esplêndida e esteve mesmo, toda vez que ela surgia em cena eu me desconcentrava por completo do que se passava ao meu redor e me lembrava de onde estávamos há dez anos atrás, isto explica minha confusão quanto ao que encenavam.

Disse que o teatro é sempre menos teatral que a vida, mas ela entendeu aquilo como uma crítica, então eu mudei de assunto, fiz um comentário sobre a nova cor do seu cabelo, mas ela também entendeu aquilo como uma crítica. Uns amigos dela invadiram o camarim fazendo festa, eu me afastei para que a abraçassem, beijassem, encostei num canto como se aguardasse a minha deixa, ela me procurou com os olhos querendo me apresentar, mas eu fiz um gesto de que não precisava, minha cena com ela acabara, há uns dez anos atrás, na saída do teatro risquei meu nome do cartaz.
Foto: Ricardo/modelo: Flora.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

os sobreviventes

“... se sobrevivemos não há mais nada para sabermos...”


Hoje é dia de recolher nossas coisas pelo chão: roupas, chaves, documentos. Estava aqui vendo sua foto do r.g., devia ter uns dez anos a menos, pensei ‘que bela mulher você vai ser’, já tinha como saber. Ontem não havia como se conter. Estávamos numa festa no Centro quando você me perguntou ‘no meu ou no seu apartamento?’. Abri a porta para ela que entrou e ficou à vontade. Conversamos sobre primeiras impressões, ouvimos Esperanza Spalding, ainda sobrou um restinho de vinho.

Estou me apaixonando enquanto você dorme, já tive duas namoradas com o mesmo nome, quatro com essa cor de cabelo, seis só este ano, estou anotando tudo num caderno para não me perder quando me perguntarem quem é você (‘quem era aquela da festa’), mas sei que estou louco por outra noite igual a esta, será que meu coração de segunda mão lhe interessa? Não precisa responder agora, não tenha pressa, deixei reservada esta sexta-feira para beijar você inteira, dos pés à cabeça.

Ainda não é a história que eu quero contar, pela qual já posso até morrer, apenas algo que rabisquei enquanto você não se decidia, tomando o seu café em pé na minha cozinha. Não falo de amor, nem você nem eu nos importamos mais com o que isto significa. Ou significou um dia. Se sobrevivemos não há mais nada para sabermos. Eu prefiro o lado esquerdo, a cor da minha escova é verde, quando escrevo gosto de silêncio.
Foto: Ricardo/ ela: Karen.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

do capítulo 'pendências amorosas'

para você nana

Eu estava com umas pendências amorosas para resolver. Sabe aquele restinho que fica entre ela e você que basta um olhar para a coisa inflamar? É bom ter para o que voltar. O mundo é feito das impressões que deixamos naqueles que tocamos: estive aqui, passei por ali, em alguns corpos até se pode ler. Mas agora acho que já rolamos na cama tudo o que restava. Definitivamente amor não era mais o assunto enquanto a gente se trocava. Eu ajudei ela com o lençol, depois esvaziei o cinzeiro, sei o lugar onde ela o guarda, vou sentir saudade do ‘lugar onde ela o guarda’, apanhei meu celular, meu relógio, dei uma última olhada. Devolvo a cópia da chave que ela me deu, não chego mais de madrugada. Da próxima vez que vier me visitar, tomaremos chá. A porta não está fechada, somente encostada, ela me mostra que é só empurrar. Faço o teste e ela ri. Da rua me viro e a vejo na janela. Ela estava lá e não está mais. Foi cuidar da sua vida, eu vim cuidar da minha: de você quero dizer. Por que estou contando isso? Você fez aquela cara de que não precisava. De certo que não precisava. É só para lembrar que o que começa também acaba. Prefiro que seja assim sem dor nem para mim nem para você. A gente começou amigo, depois é que o fogo pegou. Até quando é algo que não se pode prever, apenas viver para saber. Foto: Ricardo/ ela: Helena.

domingo, 10 de agosto de 2008

que se dane o amor que acaba

“... não há literatura, só há vida; não há vida, só há literatura; não há começo, não há fim...”

Dou milhões de voltas e acabo sempre aqui. Ensina-me a dançar?, pergunto e ela ri. Não precisamos carregar nada além do peso de nós mesmos. Eu digo a ela como se tivesse uma faca, quisesse sangue: tem uma criança morrendo de fome neste exato instante, no mundo, em algum lugar, já parou para pensar que essa sua vontade de chorar, de se descabelar, é uma grande bobagem diante de tanta injustiça que há. Que se dane o amor que acaba, que se dane. Prefiro quando acaba, abrem-se novas possibilidades. Há tantas pessoas interessantes pelo mundo, você só estava com preguiça de procurar. O amor é isso: uma grande preguiça de procurar. Por isso inventaram o controle remoto, o sofá, para a gente se acomodar. Eu já vivi tanto isso que tenho as respostas todas na ponta da língua, vem pegar. Não vim para passar a mão na sua cabeça, vim para lhe esquentar. Não sei de coisa melhor para o frio que está fazendo do que isto mesmo que você acabou de pensar. “Apenas bons amigos” escreveram sob a nossa foto. Mal sabem eles. Prefiro quando não se combina nada, na volta do cinema, prometo que vou me comportar, mas não posso jurar com essa sua língua dentro da minha orelha. Foto: Ricardo/ela: Kel.

sábado, 2 de agosto de 2008

a esta hora da noite

A esta hora da noite, a vida é o único lugar aberto. Pode parar de procurar. Não existem cafés como nos filmes, nem tortas de blueberry esperando. Estou ouvindo o último presente que me deu. A trilha do filme My Blueberry Nights – não me recordo o título em português*. Na verdade só estou ouvindo a faixa número um – acho que pela nona vez. Eu vi primeiro, disse que você se apaixonaria e você se apaixonou. “Gostei mais do que Closer”, comentou. Eu ainda prefiro aquele. Quis saber se eu já tinha experimentado blueberry. Respondi que sim. “E qual o gosto?”, perguntou. Lembra pitanga, framboesa. E você fez aquela cara de quem não parece convencida de que eu realmente provei blueberry. Só porque eu sou metido a profundo conhecedor de tudo não quer dizer que eu não saiba do que estou falando.

Você vai ficar fora por dois dias. Maldito congresso de odontologia. Será que você dormiu enquanto folheava o livro que levou? Ficou de me ligar e ainda não ligou. Nós temos uma espécie de código. Ela me liga, dá um toque só, para saber se estou acordado, para saber se não estou ‘ocupado’, para saber se estou interessado. Identifico o número e se quero ligo de volta e a gente conversa o que vier a cabeça, desde o que ela achou das palestras até o que ela está vestindo agora, minhas mãos subindo por entre suas pernas. Ela sabe que não estou dormindo. Conhece meus hábitos noturnos. Madrugada é a melhor hora do dia. Mesmo quando ela está aqui, dormir de conchinha só os dez primeiros minutos. A noite inteira é mito. Meu braço direito, embaixo dela, fica dolorido. Deixo a cama devagar, faço tudo para ela não acordar, a observo por algum tempo, depois vou escrever um pouco, ouvir uns velhos discos, a cidade lá embaixo.

Enquanto espero começo uma partida de sinuca. Você nunca joga comigo, diz que minha velha mesa não combina com ‘sua’ decoração. Depois de algumas jogadas desisto. Aprecio a formação que as bolas coloridas fazem espalhadas pelo pano verde. Gosto de imaginar todas as possibilidades, qual será a próxima a cair. Fiz pouquíssimas vezes sobre a mesa, nenhuma com você. Devo admitir que é um tanto desconfortável. Os filmes dão uma impressão errada da vida. As bolas espalhadas pelo pano verde lembram nossas roupas deixadas pelo caminho. Sou sempre eu a recolher, você reclama que não encontra a calcinha, que eu brinco de esconder. Gosto desta tua omnipresença, está na mesa em que nunca fizemos, na música que estou a ouvir, no livro que falta na estante, no telefonema que espero para o próximo instante.
Imagem: Norah Jones e Jude Law em cena do filme “My Blueberry Nights”(2007, Wong Kar-Wai).


*Um beijo roubado.

Clique no link abaixo e ouça “The Story” com Norah Jones. A música que estou ouvindo acho que pela nona vez.

domingo, 27 de julho de 2008

só mais cinco minutinhos

Não sei o que ainda faço deitado aqui ao seu lado, se já tínhamos decidido que isto tudo estava acabado. Lembro de você dizendo que não havia nada de errado em um último beijo, somos adultos, já chegamos até este ponto diversas vezes, quando me toquei o disco já tinha acabado, fiquei preocupado com você, dirigindo aquela hora da noite até em casa, sugeri que dormisse aqui, fosse embora pela manhã, você concordou, fui buscar um travesseiro e um cobertor, quando dei por mim já tínhamos feito amor no sofá da sala, a caminho do quarto, contra a parede do corredor. Pergunta se pode ficar mais alguns dias com o livro que está lendo, digo que não tem pressa, que me devolva quando terminar, é uma história como você gosta, dessas que a gente não consegue largar, sei como é, estou escrevendo sobre isso agora, quando percebo já deu a hora que você me pediu para lhe acordar, chamo seu nome baixinho e você me diz ‘só mais cinco minutinhos’. Foto: Ricardo/ ela: Karen.

sábado, 26 de julho de 2008

a máquina do tempo

“... mas a máquina do tempo não existe...”

Estamos em 2003, cinco anos atrás. É uma noite de terça. Ninguém sabe que estou de volta, nem eu sei direito o que estou fazendo aqui. A música devia ser esta mesma, não me lembro bem, talvez a memória tenha selecionado outra do playlist. Sei que está alta e não consigo entender sobre o que se conversa, apenas passo o tempo enquanto você não entra. Você só chegará daqui vinte minutos, pergunto que horas são e sua irmã confirma. Podia me levantar e ir embora, posso fazê-lo agora, mas não sei porque espero, não está atrasada porque não combinamos nada, eu não sabia que você viria, sabia que você existia mas não fazia a menor idéia de como seria, sua irmã não me disse que eram gêmeas e o quanto com ela se parecia. As duas resolveram me pregar uma peça, enquanto você fingia que era ela notei algo que até então desconhecia, não sei se tive esta mesma impressão há cinco anos atrás, a luz era pouca, havia bebido, só sei que agora que tudo ficou mais claro, que meu índice de álcool no sangue é baixo, que você sentou à mesa depois de ter trocado de jaqueta com sua irmã eu percebo que há algo errado, há algo diferente, mas não em você, digo em mim, é que agora eu sei, já estou perdido, já sei que você vai embora, quando e como, já sei que cada segundo contigo foi mágico, já sei porque vim ao mundo, já sei que não terei outra chance como esta, que a vida é uma e que a sua foi muito curta para mim. Se eu tivesse me levantado (como posso me levantar agora) e ido embora (mas não me movo um centímetro), não a teria conhecido e hoje nada sentiria, nem carregaria você comigo para tudo que é lado, mas se não o fiz, não o faço agora, porque daria tudo para repetir esta noite, terça-feira, cinco anos atrás, mesmo que não me fosse possível evitar nada do que aconteceu depois, mesmo que viesse a dor de quando você nos deixou, mesmo que eu tivesse de olhar para você pela última vez, eu olharia, ali em silêncio a me despedir, por isso deixo que você me engane, que você pense que eu não sei que é você na minha frente novamente, procurando imitar o jeito de sua irmã falar. foto: Ricardo/ modelo: Helena.

domingo, 20 de julho de 2008

amarelo fica muito bem em você

“... e a solidão das pessoas dessas capitais...” (Belchior, Alucinação)

Na volta para casa começou a ficar preocupado. Já eram quase sete horas e o trânsito não andava. No som do carro seu cd preferido o irritava profundamente, buzinavam atrás dele, ele buzinava, mas tudo era em vão, não chegaria a tempo, já se conformava. Mas quem sabe ela também estivesse presa no trânsito, era uma esperança na qual se agarrava. Ela costuma chegar sempre vinte minutos depois dele, o suficiente para uma ducha rápida. Ontem foi dormir cedo, algo parecia preocupá-la, gostaria de ter conversado com ela, dizer que podia se abrir com ele, todos precisamos de alguém que nos escute, hoje de manhã ela levantou apressada, esqueceu de colocar o relógio para despertar, o copo em que bebeu seu suco ficou em cima da pia, metade do croissant ainda no prato, escolheu um vestido curto, ele viu no jornal que o tempo mudaria, será que ela sentiu frio?, ele chegou a apanhar duas vezes o celular para ligar e perguntar como ela estava mas desistiu, o que será que ela pensaria se o fizesse: ficaria brava, assustada ou agradeceria sua preocupação. Um carro como o dela parou ao seu lado, seria engraçado encontrá-la ali, diria ‘você não morre mais, estava pensando justamente em você’, ela sorriria sem entender bem do que falava e ele explicaria. E se parássemos naquele bistrô do bairro e comêssemos algo, talvez chegasse a sugerir. Ela com certeza toparia, melhor do que aquela lasanha de microondas que tinha para o jantar. Esticou o braço e abaixou o vidro do passageiro para enxergar melhor seu motorista. Não era ela. Examinou mais uma vez o relógio, imaginou onde ela podia estar aquela hora, talvez subisse as escadas devagar, tivera um dia exaustivo na agência, só queria sua cama macia para se atirar, ele faria uma massagem nos seus pés, depois contaria uma piada que um colega de escritório enviou via e-mail, tinha rido muito dela, mas talvez ela não gostasse, acharia um pouco vulgar, quem sabe esperasse um momento mais apropriado para lhe contar, toda mulher gosta de um homem que a faça rir, ele leu numa revista feminina enquanto aguardava sua consulta, quando chegou em casa, olhou-se no espelho e achou que tinha uma cara muito séria, pensou que adiantaria se mudasse seu guarda-roupa, quem sabe com cores mais alegres, ‘amarelo fica muito bem em você’, ouvia-a dizer. Enfim, o trânsito começou a andar. Ele só pensava no que ela vestiria aquela noite: se a rosa ou a azul. Não era a noite da preta. Lembrou da camisola que vira numa loja. Em frente da tabacaria que costuma freqüentar. Quem sabe se lhe fizesse uma surpresa, num embrulho bem bonito, mandaria entregar com um cartão, chegou a rabiscar alguma coisa num papel, mas não era bom com as palavras, rimava sono com a incorrespondente palavra outono*, desistiu da compra quando a vendedora veio perguntar se desejava comprar alguma coisa para a sua esposa. Ele apressou-se em dizer que não tinha esposa no lugar de ‘não quero nada’. Depois ficou envergonhado por dizer aquilo. Afastou-se da vitrine sem olhar para trás. Certo de que a vendedora o achara estranho e comentaria minutos depois com sua colega sobre ele. Deixou cair o pacote com o fumo quando meteu a mão no bolso para apanhar a chave da porta. Entrou, acendeu as luzes, viu que horas eram, tarde, não tinha tempo para uma ducha rápida, foi até a janela, observou o prédio em frente, lá estava ela. Imagem: Edward Hopper, The Night Window, 1928.

* "Não rimarei a palavra sono/ com a incorrespondeente palavra outono./ Rimarei com a palavra carne/ ou qualquer outra, que todas me convém. (...) - do poema de Carlos Drummond de Andrade, "Consideração do Poema".


“Amarelo fica muito bem em você” – assim como “A Vida em três ou quatro linhas”, "Em Alguma Daquelas Janelas", "No que estará pensando", "O Velho Cinema" e "Às quatro da manhã", publicados anteriormente aqui neste blogue – faz parte de uma série de pequenos textos que escrevi inspirados nas telas do pintor norte-americano Edward Hopper cuja influência sobre este blogue não se limita a estes textos mas espalha-se pelos demais com maior ou menor intensidade e também pelas fotos que ilustram muitos deles.

domingo, 13 de julho de 2008

chegará o dia

Chegará o dia em que eu vou decepcioná-la. Não serei tão forte como você espera, nem parecerá que eu tenho aquela experiência toda que eu declaro, talvez tenha inventado os melhores anos da minha vida. Seu corpo então escapará dos meus braços e você aprenderá que só se caminha com as próprias pernas. Não sei como fará mas terá de apagar todos os vestígios de que me ama da sua pele e da sua voz. Eu telefonarei e você deixará tocar. É o que eu espero que você faça, foi por isso que disquei seu número, foi por isso que insisti em ‘chamar’ mesmo sabendo que você só precisava esticar o braço para atender, sei onde fica o telefone, ao lado da sua cama, conheço cada detalhe do seu quarto, posso descrevê-lo para você, sei que a parede é mais branca atrás do armário, sei onde acumula mais poeira, conheço cada rangido da sua cama, mas isto a esta hora os vizinhos também já devem saber, conheço cada centímetro de você, sei quando parece que uma serpente sobe por entre suas pernas, sei quando você não consegue disfarçar. Sei. O que posso fazer? Negar? Não dá. Chegará o dia em que não adiantará mais nada saber tudo isso sobre você. Nos encontraremos na sessão de laticínios e eu estranharei aquela ricota no seu carrinho.

Não é o futuro, isso já aconteceu, comigo, com você, com quem acabou de ler. É que a vida é disso que se trata e é justamente nisso que eu quero me concentrar, não nos grandes feitos, nos heróis que não há, mas ‘em que você está pensando quando está do outro lado da festa e me observa conversando, fazendo gestos, inflamado, me admirando’. Será que compreende que eu também deixo as coisas caírem, que às vezes não sei onde coloquei e preciso procurar, que erro como todo mundo, que posso ser justo mas também posso pensar só em mim mesmo, que quando você deita a cabeça no meu peito e começa a contar sobre o seu dia que metade do que me diz eu não vou guardar, que é porque você é linda que eu deixo o que estou fazendo só para lhe beijar. Será que entende que a maior parte do tempo já é ‘amor’ e não somente naqueles ‘momentos’. Chegará o dia em que não concordará comigo como faz agora com um sorriso.
Foto: Ricardo Pereira/modelo: Gi.

domingo, 6 de julho de 2008

segredo estridente

Eu discordo, disse a ela, a vida não é como dizem tão curta que precisemos fazer tudo com pressa como se esta fosse a última noite e ainda que fosse: como saber? – e ainda que soubéssemos porque rasgaria sua roupa se posso tirá-las para você porque eu quero você como se ainda não a conhecesse, como se ainda me surpreendesse a tatuagem que estou cansado de ver, quero você como se da primeira vez se tratasse e não da última, e não do fim, apesar de que o fim é uma fantasma que sempre ronda, devo lembrá-la, mas eu posso deixar a luz acesa se isto fizer com que você se sinta melhor e o fantasma vai embora, ou então volta outra hora. Posso escrever sobre você para que suas amigas sintam inveja de como eu a adoro, de como eu rastejo e posso escrever sobre você apenas para que eu saiba, apenas para que eu ‘sorria’ da nossa história e posso escrever para que nem você saiba que é de você que eu falo e você pode ser todas, nenhuma em especial, e ainda assim ser especial sem que o saiba porque se torna.

Estou escrevendo um livro. Já tenho o título e uma idéia para a capa, só não sei como termina, não sei se quero terminar, escrevo sobre a vida, mas talvez a vida seja algo que possa não interessar, por isso esses pequenos fragmentos, essas idéias que dou para você pensar, só o gostinho de como será, se é que será, mas se é sobre a vida não importa o que virá, importa o que se vive, escrever apenas corrige a vida, escrever traz você para perto não importa onde está, acho até que pode me ouvir se eu sussurrar, porque eu conheço o que arrepia sua nuca e você sabe como isso a deixa maluca.

Mas e se você não for um segredo que eu quero guardar? Mas for um nome que eu quero dizer alto. Você me diz que tem uma vida em que eu não posso entrar, apesar de que nela eu já entro quando você se pega distraída com algo que a faz se lembrar e alguém precisa perguntar onde você está com a cabeça que parece tão fora do ar. Você sabe onde está, mas não diz, acha melhor disfarçar. Não é porque alguém chegou antes de mim que eu não posso fazer você se questionar se fez a escolha certa, querer saber onde eu estava há alguns anos atrás que não nos víamos nas mesmas festas. Sabe que a porta estar aberta hoje não significa que amanhã ela também vai estar. O fim é um fantasma que sempre ronda, não custa lembrar.
Foto: Ricardo Pereira/modelo: Bruna S.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

tem uma aranha no seu braço

fiz para a mel

Tem uma aranha no seu braço
que arrepia só de pensar:
que carícia ela fará pelo seu corpo
quando se pôr a caminhar.
Será que sobe pelo seu pescoço
sem saber porque vai;
desconhecendo que é o gosto
dos seus lábios que a atrai.
Ou será que prefere outra direção:
circula em torno dos seus seios
como que buscando um meio
de penetrar seu coração.
Quem sabe toma o caminho
das suas costas
como um peregrino sozinho
em busca de respostas –
mal sabe ela o que a espera
se não desistir e seguir em frente:
encontrará a terra prometida –
privilégio de poucos penitentes.


Poema meu. Foto dela.

sábado, 21 de junho de 2008

ela não gosta de poesia


para natália


“...como se eu fosse o saudoso poeta e fosses a paraíba” (caetano veloso, terra)


Pergunta-me do que a gente é feito e eu respondo ‘das histórias que contamos sobre nós mesmos’. Estou falando de mim, deste quarto escuro aqui, ela eu não conheço, ela eu quis conhecer e o que conheci foi só até a pele, depois disso me perdi. Porque já me apaixonei duzentas vezes sempre acho que posso me apaixonar outras duzentas que tudo bem. Pelo menos não preciso sonhar como era o seu cheiro, nem imaginar o gosto que tinha seus lábios, o perfume em seus cabelos, porque tudo que me foi permitido, tudo que me foi confiado, dito ou sussurrado, ficará guardado aqui comigo, neste quarto escuro – que o sol ilumina quando dela me lembro. Será que ela volta em dezembro?


Porque não se vive muitas vidas é que a gente se agarra a única que tem. Comete erros querendo se manter vivo, não diz na hora o que quer dizer, ou até diz e não é compreendido, há quem não fale a mesma língua, há que se entender isto, nem todo mundo sente da mesma forma, nem se deixa influenciar por essa lua e esse conhaque que me botam comovido como o diabo. Pelo menos bebemos vinho. Nos embriagamos e foi bom. Será que conto para ela que não tirei os olhos dela enquanto dormia?

Estou sendo injusto com ela dizendo que ‘ela não gosta de poesia’, mas sorry my dear, o apelido ficou marcado. Estou sendo injusto com ela desde o dia em que soube que partiria porque devemos nos lançar no mundo: lançar-se no mundo é o maior dos aprendizados. Estou sendo injusto porque estou pensando só em mim, neste quarto escuro aqui, onde o cheiro da sua pele, o gosto dos seus lábios, o perfume em seus cabelos, tudo que me foi permitido, tudo que me foi confiado, dito, sussurrado, ficará guardado – não porque faz parte do passado mas porque não tem como ser esquecido. Será que eu vou sentir saudade até do seu cigarro fedido? Foto: Nelson Luis Abraao, Anjo fuma?, 2007.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

há quanto tempo

para três, quatro de dez anos atrás

Há quanto tempo, pensei quando a vi e você me disse que pensou a mesma coisa. E era verdade. E era saudade também. Não nos lembrávamos quando tinha sido a última vez, não queríamos lembrar era o mais provável, acho que depois daquela festa na casa de não sei quem em que fomos embora mais cedo sem nos despedirmos de ninguém e no caminho discutimos por causa de não sei quem e não discutíamos por causa de ninguém mas por culpa de nós mesmos, era só uma forma de colocar a culpa numa terceira pessoa que não existia sequer na cabeça da gente. Na semana seguinte você veio pegar suas coisas, sabia que eu não estaria em casa aquela hora do dia, deixou a cópia que tinha da chave com o porteiro e nunca mais apareceu, nem um bilhete escreveu (“não sou tão boa com as palavras como você”), queria lhe dizer que você ficou com um livro meu, talvez sem o saber que me pertencia, pensei em ligar pedindo ele de volta mas achei que você entenderia isso como uma desculpa minha para confundir sua cabeça outra vez. Alguns meses depois encontrei uma outra edição numa sebo que gosto e comprei. Mas não era a mesma coisa, não era o mesmo livro de certa forma, nem era a mesma idéia que eu fazia dele, perguntava para que me servia toda aquela poesia, desnessária, inútil, para certas conversas que tivemos, acho que nunca mais o folheei, vinha-me a cabeça quando o procurava na estante a idéia de que você ainda o lia e que quando o fazia pensava por alguns minutos em mim e em onde eu estaria naquelas noites em que lha faltava poesia, depois achava que aquilo era coisa só da minha cabeça, que você nem lembrava mais que aquele livro me pertencia ou que um dia você me pertencera também. Por isso não perguntei mais do livro, nem naquele dia, nem quando você me passou seu novo telefone eu liguei como não liguei para o número velho também, o velho que você achou que eu tinha mas fazia tanto tempo que a gente não se via que provavelmente o velho telefone a que você se referia eu nunca tive também. Mas foi bom. Foi bom lembrar que já tive vinte anos e que quando tive vinte anos você tinha vinte anos também. Foi bom lembrar toda a maluquice que a gente fazia e tudo o que a gente pretendia fazer. E como em certo momento eu já não tinha mais certeza se toda a maluquice que a gente dizia que fazia a gente realmente fez ou só disse que fazia ou será que fez mas com outras pessoas e que agora confundia. Como a viagem da qual me lembrei e que agora sei que a gente jamais a fez. Fui ver as fotos do que eu dizia e era outra que ao meu lado sorria. Mas algo naquela que me sorria me fazia se lembrar de você também. E nem era porque ambas se pareciam porque ambas não se pareciam nem um pouco. É porque me lembrar de você, dela, de quem mais seria, me devolve um pouco da poesia daqueles dias, da poesia que aquele livro dizia e que você acho nem sabe se ainda o tem. Foto: Ricardo Pereira/modelo: Duda.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

a cidade é enorme

A cidade é enorme. A gente é só uma janela iluminada. Será que apenas assistimos tevê ou fazemos amor no tapete da sala? A gente nem conhece os nossos vizinhos. Não sabemos em que ela trabalha, para onde vão todos os domingos, apenas a que hora sempre jantam porque podemos sentir o cheiro da sacada, você acende um cigarro, eu preparo um drinque, depois ficamos em silêncio enquanto eles discutem, aquilo nos deixa constrangidos, pensamos como é bom não ter os mesmos problemas, depois apagamos as luzes e vamos dormir.

Eu estou escrevendo um livro, a idéia de viver com um escritor costumava deixar você excitada, hoje você lê enciumada o que rabisco, a personagem principal lembra uma mulher do meu passado, dei o seu segundo nome à ela mas não adiantou nada, é como se eu buscasse corrigir uma parte da minha vida. Algumas alunas vieram fazer uma entrevista, um trabalho de faculdade. Eu disse que para mim ‘escrever é que é a vida, enquanto viver é só um rascunho, algo de onde partir’. Não queria dizer nada, você deu mais importância aquilo do que eu mesmo, acho que elas nem gravaram, só conseguia pensar que tinha a mesma idade das alunas que vieram me entrevistar quando me conheceu. Tinha lido alguns dos meus contos, a idéia de viver com um escritor costumava deixar você excitada, achava que nossos assuntos seriam outros, gostaria de ficar apenas sentada ao meu lado observando-me falar, imaginando como seriam quando aquelas palavras fossem para o papel, no formato das letras, na qualidade da impressão.

Mas a cidade é enorme, eu já disse, a gente não passa de uma janela iluminada. Nossos vizinhos não nos conhecem. Não sabem que a personagem principal do meu livro lembra uma mulher do meu passado, nem que você tinha a mesma idade das alunas que vieram me entrevistar quando me conheceu, apenas a que horas jantamos porque podem sentir o cheiro da sacada, ela acende um cigarro, ele prepara um drinque, depois ficam em silêncio perguntando-se porque nunca se ouve conversa no apartamento ao lado, aquilo os deixa intrigados, pensando como é bom não ter os mesmos problemas, depois apagam as luzes e vão dormir.
Foto: Nelson Abrahão Filho/ arte: Cris Maria.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

os pensamentos

“... porque todos vivemos a mesma vida só que de uma forma diferente...”


E de repente me lembro daquele dia, há muito tempo atrás, em que encontraria-me com ela só às nove da noite e em que ela me ligava de hora em hora – em ponto – até às oito da noite, apenas para dizer quanto tempo faltava até nos vermos: seis horas, cinco horas, quatro horas... Foi há tanto tempo, mas me peguei a pensar nesse dia, assim de repente como se precisasse escrever algo sobre ele urgente e estranhasse não o tê-lo feito ainda.

Surpreende-me que ainda lembre do vestido bege com pequenas flores vermelhas que ela usava nessa noite, do seu perfume fresco delicado jasmin, da pele morena mais morena que no dia anterior, do seu sorriso rasgado do outro lado da rua ao me ver se aproximar, do vermelho do semáforo que nunca que abria e da primeira coisa que ensaiava dizer-lhe e que acabou não saindo.


Essa recordação assalta-me os pensamentos e não percebo o porquê. Faz tanto tempo que não a vejo, que não a ouço, que nem sequer penso nela. Fomos ao cinema, rimos muito e andamos a pé pela cidade deserta, à procura de um último lugar aberto. Mas não me lembro do filme, nem das piadas que a fizeram rir e nem das ruas por onde passamos. Só do cheiro, da espera, das pequenas flores vermelhas.
Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Aretha.

domingo, 18 de maio de 2008

a vida em três ou quatro linhas

Comecei escrevendo obituários para um jornal da minha cidade. Foi meu primeiro emprego. Tinha pouco mais de dezoito anos de idade. Segundo meu editor, era muito bom no que fazia. Aprendi sobre a morte e mais do que isto que não importava como tinha sido a sua vida que ela sempre caberia em três, quatro linhas, às vezes em menos ainda, dependia do quanto sua família estivesse disposta a pagar por aquelas linhas. Às vezes era preciso florear um pouco, a maioria das pessoas só estuda, arranja um trabalho, casa e tem filhos, netos – é muito pouco para tornar uma vida interessante aos olhos de quem fica. Sobretudo quando se sabe que está se seguindo o mesmo caminho.

Eu tinha essa mania, diriam mórbida, de rascunhar como seria o meu. Eu tinha dezoito anos e havia tanta coisa que eu queria fazer que em três, quatro linhas, de certo, não caberia. Pensava em todas as mulheres, livros e viagens. Pensava de que forma seria o meu fim. Velho com sua jovem amante era a minha preferida: o coração pararia de tanto amor. Um amigo de longa data faria um discurso embriagado, lembraria as farras de juventude, algum sucesso, algum fracasso – ah a dignidade dos que partem, tudo pode ser ressignificado, contado diferente, feito de uma forma diferente, acho belo o modo como modificamos o nosso passado. O que me lembro da infância foi tudo inventado.

Foram quase dois anos naquele emprego, naquele jornal, apesar de cobrir outros assuntos que o cotidiano demandava, era na seção de obituários que eu me concentrava. Foi ali que descobri a poesia, seu poder de síntese, como era preciso resumir tudo ao estritamente necessário: a vida e tôdas as suas possibilidades à vida e tudo o que se pôde fazer dela – há uma diferença muito grande entre uma e outra. Esta ‘diferença’ entre elas era no que consistia o meu trabalho: pintar um quadro colorido somente com duas tintas – a preta e a branca. Segundo meu editor, era muito bom no que fazia. Aprendi sobre a morte e mais do que isto que não importa como você viva a sua vida desde que ela não caiba em três, quatro linhas.
Imagem: Edward Hopper, Excursion into philosophy, 1959.

"A Vida em três ou quatro linhas" – assim como "Em Alguma Daquelas Janelas", "No que estará pensando", "O Velho Cinema" e "Às quatro da manhã", publicados anteriormente aqui neste blogue – faz parte de uma série de pequenos textos que escrevi inspirados nas telas do pintor norte-americano Edward Hopper cuja influência sobre este blogue não se limita a estes textos mas espalha-se pelos demais com maior ou menor intensidade e também pelas fotos que ilustram muitos deles.


terça-feira, 13 de maio de 2008

a noite mais fria do ano

A marca de cigarro que ela fuma, o livro que tirou do lugar, a taça em que bebeu, o disco que colocou para tocar. O brinco que ela esqueceu, a promessa de que vai voltar, o nome que ela me deu, o perfume que deixou no ar. A atriz que ela me lembra, o filme que eu quis rodar, o telefone fora do gancho, a bagunça que ficou para contar. A noite mais fria do ano, nem chegamos a notar, a tatuagem que ela fez, nem queira saber o lugar.

Duas xícaras de café, ela toma o dela sem açúcar, na toalha que usou, alguns fios de sua cabeleira ruiva. Os segredos que não existem mais, entre o meu corpo e o dela, quem disse que para ser ‘romântico’ precisa luz de velas. O nome da sua rua, número do apartamento e andar, “quando quiser” – disse ela – “sabe onde me encontrar”. Essa coisa de pele que não tem como evitar, descubro onde sente cócegas, ela me conta o que a faz chorar.

Pego-me assobiando, a música que ela quis dançar, não encontro o outro pé do sapato, procuro embaixo do sofá. Na gola da camisa, marca de batom vermelho, não consigo decifrar o que escreveu no espelho. Posso colocar tudo em ordem, de volta no seu lugar, mas os vestígios da sua passagem não tem como apagar. É só um primeiro rascunho, da história que eu queria contar, mas publico assim mesmo, acho que ela vai gostar.
Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Gabi L.

domingo, 4 de maio de 2008

'algo que tivesse anjos'

para Gabi L.

Combinamos de dar uma volta. As ruas estavam vazias e tranqüilas, podíamos prestar atenção só um no outro, de certa forma a cidade ao nosso redor não existia mais ou quem sabe fosse apenas um cenário que se adaptasse aos nossos caprichos, não tínhamos pressa nem outra vida diferente planejada para mais tarde. Era somente isto que eu queria dizer para começar, o resto deixo por sua conta imaginar, que tom de céu prefere, como nos vestiamos e que desalinho o vento havia feito em nossos cabelos.

Ela perguntava do meu trabalho, como devia ser fascinante, coisa que eu não acho, mas deixei que falasse. Ela ainda estava na faculdade, o que na cabeça dela a colocava em desvantagem em relação a mim, quis saber sua opinião sobre o curso mais como quem se aproveita de um assunto que surgiu em meio a conversa do que por curiosidade, mas ela contou-me toda a história, dos amigos e de como se sentia a diferente da turma, o que estava lendo, o que a tinha impressionado, queria parecer mais adulta do que se sabia, fiquei lisonjeado que todo aquele esforço fosse para mim, nem precisava aquilo, mas mantive o jogo como ela queria, estava se saindo bem.

Sugeri que parássemos para um café. Ela concordou que era uma boa idéia, sentarmos um pouco, sairmos daquele frio. Entramos, minha mesa preferida estava vazia, fui na direção dela como quem disputa uma corrida que só você sabe contra todo mundo que freqüenta ou não aquele lugar, até acelerei um pouco o passo ridículo. Quando puxei a cadeira para que sentasse, perguntei por perguntar se preferia outra mesa, ‘esta está boa’ – respondeu. Recusei o cardápio que o garçom me trouxe, não conhecia aquele, ou era novo ou só fazia aquele horário, não costumo vir de dia, pedi meu café de sempre, mas ele teve de abrir o cardápio para descobrir qual era o número do pedido que fazia, ela ainda se entreteu um pouco mais com os vários tipos de café que o lugar servia até que por pura indecisão resolveu acompanhar-me. Então eu desatei a falar sobre café, sobre o que bebia, quando dei por mim já estava falando de filosofia, de cinema, política, economia e de todos os assuntos que o jornal cobria – uma grande bobagem, mas os olhos dela brilhavam para tudo o que eu dizia, acho que os olhos dela brilhavam, gosto de pensar que sim, a história é minha. O que eu sei é que ela parecia ter ficado sem texto para falar comigo, é como se tivesse se dado conta de que não tinha se preparado o suficiente, tinha aquela expressão de quem acha que não tem mais nada de interessante para mostrar que sabe – ah como eu queria convencê-la do contrário, fazer com que ela entendesse o quanto sou também comum, inexpressivo, que não sei metade do que aparento, mesmo sabendo o risco que era quebrar o encanto. Nem sei porque estou escrevendo tudo isto, ela só me pediu que lhe fizesse ‘algo que tivesse anjos’, depois de me perguntar como era isto de escrever (como se eu soubesse). Respondi o que podia, qual era o meu método e como é mais simples quando você não cria muita expectativa sobre o que vai colocar no papel. Depois de algumas xícaras, doces, beijos, balas, cigarro, pedimos a conta e fomos embora. Nas ruas, aquela hora, havia um movimento maior de carros, as pessoas voltavam do trabalho, buzinavam, aceleravam, tinham pressa, não nos deixavam prestar mais atenção só um no outro, a cidade ao nosso redor reclamava um papel maior do que ´árvore’ naquela história, ainda assim não nos interessávamos muito, a nossa vida era somente aquela, do jeito que a vivíamos, do jeito que eu sei contar. Era somente isto que eu queria dizer para terminar, o resto deixo por sua conta imaginar, que dia da semana era, que trilha-sonora combina, como deve continuar.
Foto: Ricardo/ modelo: Gabi L.

domingo, 27 de abril de 2008

cinco horas, quase seis

Sim, suponho que continuo (ainda) à espera que chegue. Que venha: e sorria. Dirá (talvez) que sentiu saudade e olhará para mim em silêncio, durante um instante; e depois? Um beijo, breve, na face ou na testa; e pegará o copo de água sobre a mesa, beberá um pouco. Depois, ficaremos em silêncio, olhando-nos sem pressa nem embaraço, confortáveis. Sem nada para dizer, para acrescentar.

Enquanto fixo o olhar no vazio, por momentos incapaz de controlar (de perceber) os pensamentos que me distraem e alienam, lembro abruptamente o que me explicaram: o carro permaneceu durante horas debaixo das árvores, imóvel e silencioso, invisível, enquanto outros carros passavam pela estrada, fulgurantes ou lentos, ruidosos (a noite avançava, escura e sombria, úmida); e você: morto; eu: desmaiada; é o que contam (vozes sussurradas e pesarosas, comovidas), por isso talvez seja mesmo verdade. Estivemos ali todo aquele tempo (cinco horas, quase seis), juntos; ambos mortos. Mas eu (dizem) decidi acordar (não sei bem porquê, para quê); e você: não.

Olho em frente, refugiada nos óculos escuros (que me deu de presente no meu último aniversário, lembra?) e envolvida pelo ruído matinal do café, enquanto vou pensando – uma vez mais – no que me contaram e explicaram, no que sou incapaz de recordar (pergunto-me como teria reagido se realmente tivesse acordado e visse você, a meu lado, morto). E o cigarro vai-se esfumando, lentamente; talvez beba um pouco da água, daqui há pouco. Passam pessoas perto de mim mas ninguém me olha. O chá deve ter esfriado: esqueci-me de bebê-lo. Continuo a olhar em frente, é tudo o que consigo fazer.
Foto de Nelson Luis Abrahão.

sábado, 19 de abril de 2008

"onde vamos esta noite?"

Esta noite? Esta noite eu ainda não sei. Talvez algo honesto para variar. Falemos de coisas que sabemos, que realmente importam, que achamos melhor adiar, cansei de evitar polêmicas, destas festas e lugares onde se está apenas por estar, apenas para que pareça tudo bem no mundo mesmo que ele esteja a ponto de desmoronar. Podemos descobrir o que queremos para o resto de nossas vidas num segundo e podemos, no segundo seguinte, dizermos a nós mesmos que tudo aquilo não passa de uma grande bobagem e que o melhor é esquecermos. Eu estava aqui observando você enquanto se vestia e meu desejo era que nada mais houvesse, o tempo principalmente, este disco giraria eternamente, mas que nem a sensação de que era para sempre houvesse, apenas que nada nos interrompesse, nada definitivamente. E não haveria mais onde vamos esta noite mas apenas esta noite.

Mas você quer ser feliz do seu jeito, diferente do que eu sinto e quero para mim, acho justo, não posso dizer tudo como deve ser, aqui eu só escrevo, ao meu redor o mundo existe acontece, é nele que você existe respira, é nele o seu cheiro, hoje não preciso acordar de nada disso, posso simplesmente esticar o braço e tocá-la – você se vira, pergunta o que foi. Temos tempo, me diz, acha que é só isso o que eu pretendia e que podemos fazer rapidinho.

O mundo é um lugar onde aprendemos a nos comportar, não é como quando não nos importamos com o que vão pensar. Tenho segredos guardados a meu respeito que não adianta você perguntar, nem eu mesmo sei, não são bem segredos, são sentimentos que ainda não chegamos a experimentar, reações que não temos como prever, quanto mais controlar, é por isto que não sabemos que é amor quando já é, queremos explicações, já vivemos muita coisa, demoramos a aceitar o que é novo em nós, fazemos comparações com o passado, com o que deu certo, com o que deu errado e acabamos tornando complexo aquilo que só deviamos aproveitar. Vamos a muitos lugares, conhecemos o mundo, pessoas, o que conversar; para no fim da noite voltarmos ao mesmo lugar: você, eu, quando não nos importamos com o que vão pensar.
Foto: Ricardo Pereira/ modelo: maíra.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

faz calor depois faz frio

“... posso fotografar o seu silêncio e imaginar o que está se passando...”

É por isso que eu não julgo. Porque eu não vivo a sua vida e você não vive a minha. Não tem como saber. Pode me parecer tolo o modo como você se entrega, o seu código de regras, as suas soluções e desculpas para o mundo mas eu não vou dizer como eu agiria se fosse comigo porque eu nem sei direito se o que considero o melhor para mim é realmente o melhor para mim e o que eu acabo fazendo no fim. Eu tento, às vezes consigo. Amanhã falaremos disso. Hoje estava pensando se não podíamos escapar um pouco, rir do que não sabemos, aprender novas músicas, o jeito como se dança.


Não, eu não vou salvar você de nada. Não tenho essa pretensão. A vida é muito maior do que eu posso ou sei, nela também só arrisco. Pode ser que eu faça sentido para você e por isto me queira por perto, na sua cama, nas suas idéias, aquelas que não acredita teria tido sozinha. Pode ser que não seja nada disso, me queira por muito menos, apenas para fumar um cigarro contigo do lado de fora da festa, quando parece que o tumulto interno está bem mais alto que a música – e um cigarro é só aqueles poucos minutos em que você deixa aquilo tudo esperando. É por isto que é tão difícil parar.


Tenho cometido erros e tenho escrito sobre isto. Parece-me o mais honesto a fazer. Não sei se conseguiria escrever só como as coisas dão certo, uma espécie de manual de como sobrevivi – a quem me dirigiria além de mim? Ninguém pode seguir passo a passo o que o outro sentiu para descobrir a melhor forma de agir, não existe receita, caminho a seguir, apenas tentativa e erro, eis toda a ciência. É por isto que você não precisa me explicar tudo, o que às vezes nem sabe como transformar em palavras, diga como quiser, não diga nada, posso fotografar o seu silêncio e imaginar o que está se passando. Gosto quando você me conta o que tem, gosto se isto lhe fizer bem. Por mais que precisemos um do outro, a gente é tudo o que nos resta, a gente é que sabe, a gente é que sente, para isso é que tem pele.
Foto: Renata Punk/modelo: maitê

terça-feira, 1 de abril de 2008

nostalgia de um minuto atrás

São tantas histórias acontecendo e a gente é só uma delas. O Tempo é um senhor implacável e viver tudo dura poucos segundos ‘dele’ por isto insistimos em transcendermos o instantâneo com fotografias de risos e festas, pequenos registros e farsas, se não podemos ser deuses pelo menos fingimos que temos algum controle, alguma resposta na ponta da língua para quando nos perguntam o que estamos fazendo da nossa vida. Eu estou mastigando a carne que consigo, enganando o estômago, fazendo poesia do que fica preso entre os dentes e assim quando olho para trás, restos de comida e ossos, não sinto que foi um desperdício, não cuspo no prato que como, tudo teve o seu sabor, lembro-me de todo o esforço da caça e relato em volta do fogo.

Entendo quando ela me pede que conte tudo de novo, que não a deixe fechar os olhos, acordar na manhã seguinte com a sensação de que não teve quando teve, teve e perdeu, teve e não soube dizer o que sentia, teve e não sabe que nome se usa hoje em dia, teve e parece que é só da poesia que eu deixei para ela como desculpa pela cama desarrumada, sua cabeça bagunçada. Eu sou muitas histórias, você outras tantas e quando a gente se cruza numa rua, numa noite, é só uma delas, podia ter passado direto e vivido outra mais adiante, mais fundamental menos insignificante, e não haveria esta nostalgia de um minuto atrás de quando se deixa algo cair e quebrar quando se acreditava com toda a força que o tinha em segurança apertado contra o peito.

É que nem tudo pode nem tem como caber na sua vida (no seu corpo e naquilo que ele sente, eu quero dizer) por isto você precisa de critérios, formas de selecionar aquilo que se ajusta perfeitamente a quem você é daquilo que não bate porque você prefere fazer uma idéia errada de si mesma para ter o que conversar de louco com os seus amigos, só que depois eles vão embora e ‘quem não é você’ fica sem ter para onde correr. Eu não sei de nada, desculpe se lhe passei esta impressão errada, não sei colocar ordem no mundo, tampouco o nome de metade do que você me pergunta, eu só sei que é madrugada, que você enfim conseguiu dormir e que amanhã quem sabe podiamos muito bem perder alguns minutinhos discutindo até onde pretendemos ir com isso.
Foto: Nelson Luís Abraão, Angela Noturna, 2006.

sexta-feira, 28 de março de 2008

vida e obra

“... nada que eu sei é mais honesto do que esticar o braço e tocar...”

A vida é isso: isso que você ‘tá vendo. Olha ao seu redor, não se surpreenda, hoje eu não vim com palavras mais bonitas do que 'isso', nada que eu sei é mais honesto do que esticar o braço e tocar, as explicações não nos pertencem, emprestamos aos livros, só queremos dar a impressão de que tudo sabemos, gostamos que pensem que é possível um abraço que tudo englobe, um olhar que nada deixa escapar, um livro no final que conte todas as nossas experiências: o gosto disso, a graça naquilo, o beijo desta.

Tem vezes que ela vem e só se deita ao meu lado, nada, quer conversar – quer conversar e não quer, ela se concentra, procura as palavras certas, eu digo que as palavras certas não existem, que não tem problema se gaguejar um pouco, fizer silêncio, mudar para um assunto mais fácil, a gente tem a noite inteira, não faz sentido uma pressa que extermine tudo, o sol nasce, o dia vem, o tumulto é igual, corre-se de um lado para o outro, encontra-se, perde-se. Quando escrevo é como se eu interrompesse algo – interrompesse e ficasse observando ‘do lado de fora’ daquilo que eu vivo, sinto: agora mesmo posso observa-la mexendo-se na cama em meio ao sono, posso apagar a luz e me juntar a ela, posso me dar uma segunda chance. Uma segunda chance que já estava lá, não preciso escrever sobre ela como se fosse um deus interferindo nos destinos da humanidade, refazendo um caminho, abrindo o mar vermelho; mais do que escrevê-la, notá-la só agora, preciso fazer com que aconteça no exato instante em que ela me surge, em que ela se dá, não se trata do destino da humanidade, se trata de um quarto, ela, eu, terça-feira – algo que a gente sabe que respira.

Foi Heráclito quem disse que um homem nunca se banha duas vezes num mesmo rio porque nunca é o mesmo homem e nunca é o mesmo rio. Quando escrevo sobre algo que vivi não sou o mesmo homem que o viveu porque escrever não é experimentar tudo de novo como o antes desconhecido; escrever é julgar, é selecionar, é trazer à tona ou condenar ao limbo – e a vida não, a vida é isto, nada além deste segundo, desta palavra que você acaba de ler, disto que você acabou de pensar, deste rio em que agora você se banha, deste rio em que você nunca mais vai se banhar, desta pessoa que você se torna, desta que deixa de ser. Você pode me dizer o nome mas não revelar do que se trata, o que esta semana trouxe de novo para o que já tínhamos, o que ela apagou, revolucionou, rompeu, o livro que você leu, o livro que não foi até o fim, o que é sólido e o que é só fumaça. Cada idéia por mais louca, porque ela lhe ocorreu, porque você resolveu não correr atrás.
Foto de Jane Eyre Piego.

quinta-feira, 13 de março de 2008

em alguma daquelas janelas

Voltou a chover; levanto-me, caminho até à janela; cruzo os braços, aconchegando os seios; acariciando-me, abraçando-me, acompanhando-me. E olho: prédios com janelas, quantas janelas; possibilidades. Olho as janelas do outro lado da rua, pergunto-me se em alguma delas alguém olhará a minha janela; gostava que sim: que me espreitassem, me imaginassem uma vida, me fantasiassem. Alguém que me amasse durante um breve momento, e depois desaparecesse sem sequer revelar um nome; alguém que me surpreendesse a alma, e depois sorrisse; alguém que me compreendesse, e depois não sentisse necessidade de exibir essa compreensão; alguém que me acariciasse o cabelo, que o enrolasse nos dedos.

Todas estas janelas: possibilidades; todas estas possibilidades: quimeras. Vou-as percorrendo com o olhar, uma a uma. À procura, nem sei o que procuro, só sei o que procuro disfarçar. Depois, distraio-me com a chuva. Sinto frio. Sinto cansaço. Percorro a sala, vagarosamente, em busca do maço de cigarros; muito tempo depois, desisto de procurar. Sento-me no sofá, deito-me; aconchego-me, fecho os olhos.

Lembro-me, de repente: ele levou os meus cigarros. Penso nele, por fim. Uma outra vez mais: quando já não consigo adiar mais, quando sou incapaz de inventar novas distrações, novas fugas. E revivo tudo, momento após momento. Quando chego ao fim, retorno ao início; detenho-me nos pormenores, disseco-os um a um. Invoco os toques, os sons, os cheiros. Saboreio. Sofro. Espero. Espero o quê? Nada de mais; espero que o tempo venha e me leve com ele – simples assim, suficiente jamais.
Imagem: Edward Hopper, Eleven A.M., 1926.

“Em alguma daquelas janelas” assim como “No que estará pensando”, “O Velho Cinema” e “Ás quatro da manhã” – publicados anteriormente aqui neste blogue – faz parte de uma série de pequenos textos que escrevi inspirados nas telas do pintor norte-americano Edward Hopper cuja influência sobre este blogue não se limita a estes textos mas espalha-se pelos demais com maior ou menor intensidade e também pelas fotos que ilustram muitos deles.

sábado, 1 de março de 2008

carol sem explicação

Ela foi falando e eu achei que cabia

Eu tenho uma história também. Acho que é mais uma forma da gente sobreviver por mais um tempo na vida do outro, isto de contar o que é tão íntimo, o que a gente acha que pode mudar alguma coisa. Mas se você quiser eu mudo de assunto: falo só que estou com pressa, que não sei como vim parar aqui, que esta noite era para ser definitiva e ela só está me matando. Você me deu seu último cigarro, achei que isto era importante, contava, é que eu não vivo na mesma lógica que a sua, eu tenho um outro conjunto de regras, eu recolho vira-latas na rua, já me cortei bastante também, eu sei quando algo se esfacela nas nossas próprias mãos.

Mas eu estava dançando até agora, você viu como eu parecia feliz? Queria que aquela música não parasse nunca porque existem festas demais eu sei mas é que entre uma e outra é como se eu não tivesse nada inteiro. Foi por isto que você me convidou e eu vim, não tem nada de especial naquela cama bagunçada, meu corpo não explica nada, é como ter sede e beber água, eu posso me levantar e sair andando como se não estivesse sangrando. Você é que acha que eu nunca vim aqui, eu já vim aqui milhões de vezes nos últimos meses, você é que não tinha essa barba nem tinha lido todos estes livros. Fui eu que permiti e não você quem me dobrou. Embora o gosto na boca seja o mesmo para ambos.

Pode ser que amanhã eu deite e role e que você me traga sua alma na bandeja. Não tenho certeza, não tenho certeza de mais nada, nem do que aconteceu nem do que vai acontecer. Eu só não queria que tivesse esses momentos em que tudo congela, a gente fica dividido entre milhões de coisas, será que me mando, será que consigo não levar um pouco de você comigo. Eu ficaria bem de personagem sua, você me controlaria, faria amor comigo em vez "disso" e eu suspiraria. Inventa um outro ritmo para mim, um outro cigarro do nada, faz mágica, qualquer truque que eu acredito, algo que não nos devolva ao mundo real depois que acaba. Não quero acordar e descobrir que é a vida.
Foto: Julia Sweet, da série Hello Stranger, 2005.