Ela queria saber que nome eu dava ao que eu sentia por ela, o que havia entre nós. Não havia muito o que responder: ora, você simplesmente se acostuma com o corpo do outro, a hora em que ele chega, as idéias que te faz ter e nem quer pensar como será se amanhã não tiver onde se agarrar, com o que se proteger, mas ainda assim não dá o braço a torcer – faz-se de forte sem poder ser. Disse que ela era livre para ir, que eu não a impediria de se vestir e sair, foram suas pernas quem a trouxeram aqui. Mas como ela já estava nua e na minha cama, resolveu ficar. A esta hora da noite, deve ter pensado, nem saberia onde procurar. Fizemos então, desta vez sem nenhuma grande maluquice, apenas numa posição em que ela pudesse me olhar nos olhos, foi o que me pediu e eu atendi. Não sei o que ela pretendia ver, nem o que eu deveria disfarçar, não havia nada em jogo, apenas a vontade de jogar. A gente se impressiona um pouco, dá um tempo em outras histórias, fica imaginando como seria com aquela, até onde ela iria, depois que descobre como é, apaga a luz e tenta dormir, o mundo não precisa de vocês dois, não do que vocês sentem um pelo outro para existir. Na noite seguinte ela ainda está aqui, ainda se pergunta o porque de estarem juntos e vocês fazem mais uma vez como que para mudar de assunto. Foto: Ricardo/ dela: Quel.Terça-feira, 7 de Julho de 2009
as paredes
Ela queria saber que nome eu dava ao que eu sentia por ela, o que havia entre nós. Não havia muito o que responder: ora, você simplesmente se acostuma com o corpo do outro, a hora em que ele chega, as idéias que te faz ter e nem quer pensar como será se amanhã não tiver onde se agarrar, com o que se proteger, mas ainda assim não dá o braço a torcer – faz-se de forte sem poder ser. Disse que ela era livre para ir, que eu não a impediria de se vestir e sair, foram suas pernas quem a trouxeram aqui. Mas como ela já estava nua e na minha cama, resolveu ficar. A esta hora da noite, deve ter pensado, nem saberia onde procurar. Fizemos então, desta vez sem nenhuma grande maluquice, apenas numa posição em que ela pudesse me olhar nos olhos, foi o que me pediu e eu atendi. Não sei o que ela pretendia ver, nem o que eu deveria disfarçar, não havia nada em jogo, apenas a vontade de jogar. A gente se impressiona um pouco, dá um tempo em outras histórias, fica imaginando como seria com aquela, até onde ela iria, depois que descobre como é, apaga a luz e tenta dormir, o mundo não precisa de vocês dois, não do que vocês sentem um pelo outro para existir. Na noite seguinte ela ainda está aqui, ainda se pergunta o porque de estarem juntos e vocês fazem mais uma vez como que para mudar de assunto. Foto: Ricardo/ dela: Quel.Domingo, 28 de Junho de 2009
a estudante
O que você está olhando, ela quis saber. Eu estou me apaixonando pela mulher que você vai ser. Eu estou imaginando onde quero estar daqui há alguns anos e ao lado de quem – ao lado de quem você se tornar. Eu estou fazendo planos para nós dois enquanto você se veste para ir à faculdade. Penso nos autores que vai ler e no que vamos conversar depois, as descobertas que vai fazer entre aquelas páginas que eu sequer havia pressentido. Em seus lábios cada vez mais próximos dos meus e no gosto que eles vão ter do vinho que ajudou-me a escolher, nos poemas que vai me fazer escrever entre uma aula e outra e em como vou subir as escadas correndo só para saber qual será a sua reação depois de ler. Vejo os filmes que quero que assista, se vou mudar seu ponto de vista ou apenas te entreter, nos jogos que fará comigo e em como vou me sair, no nosso primeiro apartamento e o que faremos com todos os meus livros. Em suas tentativas de fazer o jantar e como vai sorrir no dia em que acertar o primeiro suflê, na bagunça que vai ser a nossa vida e até nas pequenas brigas que vamos ter. Nas fotografias de uma viagem e na sua pose para a posteridade, na estudante de vinte anos de idade que nunca deixarei de ver na mulher que você vai ser. Foto dela para mim.
Domingo, 21 de Junho de 2009
nesta cama e em pensamentos
A noite de hoje já era, não pode mais dormi-la comigo, temos tão pouco tempo se você não se importa, a vida ficou maior do que pretendíamos, já não cabe somente nos planos que fizemos para nós: você se vestiria para que eu a despisse, eu lhe faria poemas que ninguém mais ouvisse e faríamos amor nesta cama e em pensamentos. Seus vinte-e-cinco anos já se foram, não posso mais fazer parte deles, conta algo que eu não saiba, alguma parte do seu corpo que eu ainda não toquei, podemos ser felizes a partir de agora, não importa onde errou, onde errei, podemos começar tudo do zero, antes e depois deste beijo como se apaixonar-se por alguém fizesse todo o resto – da mágica. Minhas histórias, outras mulheres, não posso apagá-las da memória, nem da pele, nem desmentir os muitos ‘eu te amo’ que disse até agora, nesta cama e em pensamentos; mas posso aprender com você novos significados, porque tudo é uma questão de escrever na vida do outro como queremos ficar marcados – e até onde eu sei, este arrepio no seu corpo fui eu quem provoquei. Foto dela: Bárbara.Domingo, 14 de Junho de 2009
a jovem de ontem
Não cabe tudo numa vida só, tudo o que gostaríamos, todas de quem gostamos, por isso precisamos nos reinventar a todo instante, fazemos o mesmo com quem já tivemos, criamos histórias para nós uma vez que não temos como voltar o tempo para tocá-las novamente onde queremos, todos sentimos saudade de algo que nunca vivemos, depois de alguns anos sentiremos saudade como se tivéssemos realmente vivido com cada uma delas em todos os seus detalhes – é que algumas paixões de tão fundamentais conseguem a proeza de nos manter aquecidos mesmo que delas não existam qualquer outro vestígio senão o que ainda sentimos. No fim, já não sabemos o que pertencem a elas e o que emprestamos de outros corpos com os quais as fomos substituindo, vamos juntando tudo o que sabemos como se o sexo tivesse aquele gosto que guardamos sem nem desconfiar que aquele gosto mistura cada uma que provamos. O amor não é algo que esgotamos, depois que acaba, o que esteve em nós continua nos assombrando, a jovem de ontem me fez lembrar tanto você que chegará um dia em que só me lembrarei de você através da jovem de ontem, da boca dela e do que ela me disse como se fosse você me dizendo a mesma tolice, o mesmo eu te amo – que você, talvez, nunca tenha me dito, mas que eu continuo escutando. Foto: Ricardo/ dela: Renata.Domingo, 7 de Junho de 2009
por causa do frio
A gente é só amigo, mas, às vezes, por causa do frio, dormimos juntos. E ela me conta do cara com quem esteve algumas noites atrás e eu da mulher que ainda amo, faço votos de que ela consiga e ela me beija a fronte. E o sexo entre nós é só a prova de que temos algo bonito e que nada nos impede já que a vida é dos que a vivem, não estão nem aí com o que podem pensar. Se ela atende o celular eu paro o filme, deixo que conversem, finjo que vou pegar algo na cozinha, dou um tempo para que ela decida como quer prosseguir. Quando volto ela tem aquela expressão que a gente faz quando nem tudo sai como se queria, um abraço resolve muito, um beijo resolve muito mais. E certos segredos que só eu sei sobre o seu corpo e ninguém mais de tanto tempo que eu a conheço naquela cama, em outras, nas duas vezes que tentamos e não deu certo e como rimos bastante disso depois. Porque ela se ajeita junto a mim até seu corpo caber perfeitamente entre o meu, não do mesmo jeito que a mulher que ainda amo caberia, mas de um jeito que me esquente e eu a ela nesta noite fria. Foto dela: Helen.
Terça-feira, 26 de Maio de 2009
nome de flor
Domingo, 24 de Maio de 2009
reais e imaginários
para polly di e gustavo santiago, reais e imagináriosFugimos – se é assim que vocês gostam de chamar. Mas não nos pergunte do que como se alguém precisasse ter culpa. Foi mais simples do que isto e talvez por isso mesmo mais difícil de entender. Tínhamos a tarde livre e decidimos respirar um pouco. Foi já na estrada que entendemos que não tinha como voltar atrás. E nem foi algo que discutimos, apenas nos entreolhamos e dissemos ‘vamos’ como que concordando com algo maior do que nós. Estamos em outra cidade, o nome eu não vou dizer, alugamos um quarto, nem pediram para ver nossas identidades, mas daqui uma semana o dinheiro acaba, amanhã mesmo vou procurar um emprego, não dá para viver de pequenos delitos: falo de tabletes de chocolate quando não tem ninguém olhando. Ele quer ser escritor, eu sonho que me desenha nua, depois, de noite, ficamos conversando sobre onde gostaríamos de estar dali dez anos, aquilo nos aquece mais que o cobertor surrado que arranjamos. Gosto de pensar que nos apaixonamos de verdade, que certos livros que lemos falam de pessoas como nós, que realmente existiram, viveram tudo aquilo e estão agora em algum lugar e não personagens inventadas por algum escritor, algo que se sonhou e não se levou a sério como, sabemos, bem podemos ser. Foto de Carol Sweet.
Domingo, 17 de Maio de 2009
depois de um ano
Sábado, 9 de Maio de 2009
a juventude dela
Ela mentiu sobre a idade. Disse que já estava na faculdade, deu o nome de um curso com o qual sonhava. Gostei dos livros que dizia ter lido, parecia verdade. Quis levar ela comigo, fazer a minha parte até que o mundo se torne grande demais e nos afaste. Um dia ela vai me telefonar de longe. Um dia ela vai perder meu número. Eu terei me aquecido por algumas noites, nunca espero mais do que isso. O amor não pode ser algo no qual você se agarra quando ele vai embora. O amor é algo no qual você acredita quando beija, toca, recebe de volta. A juventude dela é um privilégio que me foi concedido. Não verei no que ela se transformará, mas fecho os olhos e imagino, com que corte de cabelo e em que vestido. Até o filme que está passando atrás. Mas voltemos à Terra, onde os pés estão, antes que eu me perca, antes que eu a perca, soltemos as mãos. A música estava alta demais, não entendia metade do que ela dizia, mas depois de alguns segundos não era no que ela dizia para me impressionar que eu me concentrava, mas em como seus lábios se moviam e quanto tempo demoraria para num beijo deixá-la sem ar. Naquela noite eu disse que voltaria. Na manhã seguinte ela colocou algumas roupas e cedês na mochila e só teve que esperar dez minutos na esquina onde ficamos de nos encontrar. Foi o tempo de esvaziar algumas gavetas. Foto: Ricardo/ dela: Renata. Quinta-feira, 30 de Abril de 2009
um quarto
Eu sei a parte que me cabe nessa história, não estou pedindo nenhum minuto a mais, espero no quarto por volta de meia-hora depois que ela vai embora, combinamos que assim seria mais prudente, o que sentimos é algo só entre a gente, não podemos (nem queremos) ser como os outros casais. Compramos no mesmo supermercado, paramos na mesma banca de jornal, vou em toda festa que ela vai, mas sempre nos esbarramos como se nossos encontros fossem os mais casuais, já fomos apresentados dezenas de vezes por quem nem desconfia que nos conhecemos até demais. Nunca perguntei o que ela sente, o que seu corpo me diz já é suficiente, mas o que era só um dia da semana, está ficando cada vez mais freqüente, tem horas que me telefona e não diz uma palavra, isto basta para eu saber que é urgente, pode ser que tudo acabe de repente, que eu passe a comprar em outro supermercado, assine o Estado, evite as mesmas festas, mas isto é algo sobre o qual nunca se conversa, não temos muito tempo, estamos sempre com pressa, então vamos logo ao que interessa. Não é o amor o que aqui se pretende, isto já vivemos com pessoas diferentes, apenas uma aventura, eu diria, inocente, diante de tanta falta de sentido na vida da gente. No carro parado em algum congestionamento, eu penso o quanto é inútil aquele vai e vem ao nosso redor; ela aumenta o volume do rádio para ouvir uma notícia, mas depois esquece o que havia de tão importante. Pode ser que ela arranque sua roupa em questão de segundos ou quem sabe peça por peça bem devagar, nem sempre é como a gente quer, preciso voltar ao trabalho, ela buscar a filha no balé. Foto: Ricardo/ dela: Lara. Segunda-feira, 13 de Abril de 2009
da intimidade que havia e outras histórias
Acho que nunca acaba, apenas descansa ou quem sabe somos nós dando uma outra chance a si mesmos. Depois que quebra pela enésima vez não adianta mais ficar consertando, é como escrever uma história apenas com o que ficou para contar, como estou fazendo agora, você inventa o resto da forma que mais o agrada já que não tem com o que provar e mesmo quem poderia contestar nem interessado mais está. Engraçado que ainda assim a gente escreva com a esperança de que o outro saiba, com as palavras que ninguém mais entende, os códigos que criamos embaixo do chuveiro. Não é o amor mais que desejamos, nem o sexo, nem que batimentos cardíacos sejam alterados por nossa causa, isto conseguimos atravessando a rua, dizendo meia-dúzia de palavras, sentimos falta da intimidade que havia, da cumplicidade, do sacrifício que fazíamos e que é tão difícil de saber quando, a hora certa. Eu tenho saudade das conversas que tínhamos, das coisas que me fazia dizer, expressões infantis que ainda hoje me deixam tímido, você queria saber todos os meus livros, os nomes que aprendeu comigo e como ria de algum mais difícil de dizer. Eu sei que isto é uma mistura de tudo o que já senti na vida e você faz parte disso, hoje deu de ser a protagonista e isto me deixou comovido, acho que eu só queria que você soubesse que o seu cheiro no que eu sinto não passou despercebido. Foto dela: Aretha. Domingo, 5 de Abril de 2009
às vezes nos encontramos, outras não
Terça-feira, 24 de Março de 2009
notícias à-toa
Quarta-feira, 18 de Março de 2009
foi para isso que viemos
Terça-feira, 10 de Março de 2009
a última pessoa no mundo
“... no dia em que fui mais feliz/ eu vi um avião se espelhar no seu olhar até sumir...”(Antonio Cícero)
Domingo, 1 de Março de 2009
eu me lembro de você nesta cama
Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009
pequenas histórias de amor
Eu escrevo pequenas histórias de amor e também coleciono os brincos que elas esqueceram aqui. Tenho um vidro colorido no fundo do armário. Isto se você quiser saber o que faço. Eu monto enredos a partir dos segredos que me sussurraram em meio à noite e dos tocos de cigarro no tapete do quarto. Não posso me lembrar de cada sentimento, começo, meio e fim, mas posso juntar as peças do quebra-cabeças que me deixaram. Posso trocar a cor dos seus olhos, o vestido que usava, o dia da semana e posso alterar tantos outros detalhes quantos forem necessários se entender que isto torna mais atraente a história que narro, a que vivi não preciso mais modificar, a pele já sabe como e onde guardar. Posso abrir a porta do quarto para que você espie a mulher que na cama dorme e posso fazer com que você se identifique com este corpo, mesmo que entre nós tudo tenha se passado num outro cenário, em hotéis mais elegantes, sem barulho de trânsito, num outro horário. Porque há um momento em que a vida é também algo que você sonha mesmo que esteja acontecendo de verdade, é quando você não acredita que tenha aquele gosto, que seja possível naquela parte do corpo, que uma hora antes você se preocupava com o imposto do seu carro. Nenhuma poesia supera isso, apenas resgata do seu limbo temporário porque às vezes esquecemos o que sentimos no porta-luvas bagunçado, numa gaveta emperrada, nas roupas que enviamos para a lavanderia. Escrever é uma forma de ressuscitar no terceiro dia, quando não há mais embriaguez nem mesmo ressaca; é costurar bolsos rasgados, muitas vezes algo que ensaiamos dizer se perde assim; é lembrar onde deixei minhas chaves, para quando nos trancamos sem saber como sair; é uma forma de, pelo menos, salvarmos a melhor parte, quando não temos uma segunda chance de corrigir. Eu escrevo pequenas histórias de amor e também coleciono os brincos que elas esqueceram aqui. Foto: Emil. Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009
como num filme de vampiro
para aline moniqueDigamos que você não me conheça, que eu seja apenas um corpo que você deseja, não tenha uma história ainda, um nome na sua língua, nenhuma amiga que nos tenha apresentado. E que você não precise por conta disso ter nenhum tipo de cuidado comigo, que me respeite pelo que eu te provoco e não porque votamos no mesmo partido. Esqueça tudo o que conversamos, quantos drinques já tomei – se é que está contando, meu lema nesta vida e que autores prefiro. Não quero você todo educado, apaixonado, preocupado com nada disso, quero você indecente, mostrando-me os dentes como num filme de vampiro. Há sempre um lado da gente que nem mesmo a gente conhece, por isso não se surpreenda se amanhã eu disser que não conheço a mulher que dormiu esta noite contigo. Sou uma personagem de carne e osso do seu livro. Deixo que escolha a cor do meu vestido mas se vou tirá-lo para você é algo que só eu decido. Não faz esta cara de quem não está entendendo: o feitiço virou contra o feiticeiro, querido. Agora é a minha vez de ficar por cima. Foto dela: Aline Monique.
Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009
dentro de você ou acolá
Para ler de preferência ao som de “Flor de Ir Embora”Você quis saber que música era aquela. Eu disse o nome e a cantora, pediu que eu a colocasse de novo, queria me guardar através dela. O filme podia acabar assim, alguém por favor apague a luz do set, depois disso não haveria mais personagem, só o que sentíamos, naquele sofá que faz barulho quando nos mexemos, duas xícaras de chá esperando esfriar, a gente pensando em tudo o que está acontecendo no mundo independente de querermos e as armas que temos para lutar.
Não posso protegê-la em meus braços pelo resto dos dias, passou-me pela cabeça que gostaria de tentar, mas perguntei-me o que você aprenderia, você pensa o mesmo, embora tenha descoberto naquele último segundo que nunca se sentiu tão confortável nos braços de alguém, como se seu corpo tivesse encontrado onde sempre quis estar, e acha injusto ter descoberto aquilo um segundo antes da gente se soltar. Bem na parte da letra em que a Fátima Guedes canta ‘agora esse mundo é meu’, você não sabe se deve partir ou ficar. Se o mundo é um lugar que você já conhece ou um outro que você precisa explorar. Dentro de você ou acolá.
Eu já vivi a sua vida dez anos atrás, eu já senti a mesma fome, sede e raiva e a mesma vontade de chorar ouvindo esta música quando eu não sabia onde queria estar e dei mil voltas até lhe encontrar e te contei tantas histórias que você quis sair para procurar onde começou cada uma delas e se é aqui comigo que vão terminar – fiz um mapa para você se perder e outro para você voltar, você só precisa escolher qual deles vai usar. Foto:Ricardo/dela: Stella.
Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009
abre uma janela
Domingo, 25 de Janeiro de 2009
nem só de personagens vive um romance
... um raio pode até cair duas vezes no mesmo lugar, mas da segunda vez que cai deixa de ser uma novidade...Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009
vieste na hora errada
Você respira ao meu lado e eu sem cabeça para isso. Se fosse uma noite fria, eu pelo menos a abraçaria e talvez você acordasse de manhã convencida de que algo começou entre a gente, mas eu nem me lembro do seu nome embora você tenha me dito ele dezenas de vezes e eu nem sei sobre o que você está falando embora concorde com a cabeça como se acompanhasse atentamente. Ouço sua voz ao telefone e penso que é minha gerente do banco querendo me fazer uma proposta: vamos nos ver esta noite, sugere – e eu concordo desde que não falemos das minhas finanças. Descobri que você era bonita porque alguém perguntou quem era aquela morena bonita com quem me viu na última quinta, também descobri que você era morena dessa forma. Tive dificuldade para me lembrar de quem estavam falando, tive dificuldade para me lembrar quando foi a última quinta e onde estava que nos viram. Talvez você seja uma mulher incrível, tudo indica que sim, mas olho para você e só consigo ver quem você não é. E se você não é quem estava aqui antes, você só faz parte do cenário como as cinzas do cigarro, a noite pela janela, a tevê sem som, o restante da mobília, algo que me acontece e acaba. Vieste na hora errada*, corrijo a canção que o Ivan Lins cantava. Acho que precisava saber disso porque toda vez pode ser a última vez e eu não quero que você se culpe por aquilo que eu não sinto. Aquilo que eu sinto ainda está preso em outra história, falta poucas páginas, mas ainda não me decidi se quero descobrir se o fim será como imagino. Não me olhe assim como se eu fosse o seu poeta preferido, o verso que você acha que fiz para você eu já tinha ele escrito. Foto: Ricardo/ ela: Penélope Charmosa.*Vieste na hora exata/ com ares de festa e luas de prata... (de Ivan Lins e Vitor Martins)
Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009
aquele "F" sou eu
para TayOuvi dizer que você anda por aí, neste mesmo mundo que eu, não sei se perto, não sei se ocupado a esta hora do dia, a caminho de casa escolho as ruas que acho são a sua cara e conheci uma cidade que eu nem sabia que existia mas que me lembram suas histórias, e tenho lido os livros que você menciona, me identificado com cada personagem, chorado e me apaixonado e tem frases deles que não me saem da cabeça e eu queria muito usá-las numa conversa com você, é que às vezes é como se eu ainda estivesse em suas páginas, visitando lugares que eu nem sei dizer direito o nome ao motorista do táxi e tenho ligado na rádio e pedido as músicas que sei que você ouve e tenho usado um pseudônimo quando faço isso, Holly Golightly, você vai entender, e tenho cantado junto com você cada letra, assobiado cada melodia e tenho dançado com amigos que faço em festas e tenho me deitado com corpos que nem sei se com o seu se parecem, mas tenho feito amor com eles como se fizesse contigo, mas eles nem sabem porque fui tão selvagem, porque me entreguei daquele jeito, é algo que eu nem sei direito prever quando vai ocorrer quanto mais explicar sem dizer o seu nome, e tenho vestido roupas em que talvez você goste de me conhecer e tenho me despido para o espelho como se fosse para você e tenho gostado mais do que vejo quando acho que você me vê e tenho conhecido gente diferente, gente estranha, gente esquisita, gente que eu sei que você gostaria e temos falado alto e feito bagunça de noite e quem sabe isto acorde o seu vira-lata e você venha até a janela saber do que se trata e temos dirigido por avenidas na hora em que elas estão mais vazias e eu tenho encostado minha cabeça no ombro mais próximo como se fosse no seu que encostasse e tenho bebido nos mesmos bares que você freqüenta e tenho pedido o mesmo drinque trocando o rum por vodka como eu acho que você faria e descobri a mesa em que você se senta e a letra do seu primeiro nome feita com canivete na madeira e escrevi ao lado dela a primeira letra do meu mas ficou parecendo outra, por isso não estranhe aquele “F” ao lado do que escreveu – aquele “F” sou eu. Foto dela: Tay.
Domingo, 4 de Janeiro de 2009
o amor nos faz relés mortais
Não haverá outra chance igual a esta, numa vida igual a esta, nas mesmas condições ideiais de temperatura e pressão, porque apesar de ser ‘macaco velho’ quando o assunto é amor, você nunca sabe quando algo começa e porque começa, nem se sente capaz de voltar ao estado que era antes dela te tocar porque a partir de agora no seu corpo você convive não com a sensação de onde ela te tocou mas de onde ela não vai mais te tocar, é como um fantasma na sua pele, você quer e não quer exorcizar, quer e não sabe, se alguém souber não me diga, a dor é minha amiga, ela me lembra dela e conversa comigo sobre ela, só dói porque é repetitiva, não conta as novidades, só o que ela já sabe: o que tivemos, como éramos, como termina.
A gente aumenta o volume da tevê para pensar em outra coisa e se sente mal quando percebe que o conflito na faixa de Gaza parece fichinha diante do conflito dentro de você: o amor nos faz relés mortais. Noites inteiras não foram suficientes para tudo o que você sentia e agora você acredita que se tivesse pelo menos mais duas horinhas ela sentiria tudo o que explode dentro de você, coisas que podia ter dito, gestos que poderia ter feito, idéias que passaram pela sua cabeça, daquelas que dão um giro de 180 graus na sua vida e na dela. O problema de não se definir mais o que é amor hoje em dia é que quando é amor você não sabe mais como dizer, só descobre quando é tarde demais para saber. Daquele corpo que ora lhe tocava por descuido ora lhe tocava com paixão apenas a falta que faz, o frio que antes eu não percebia, a solidão de que eu já não me lembrava mais. Foto: Ricardo/ dela: Stella.
Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008
disse adeus aquela tarde
Você veio, ficou, depois partiu. Posso contar esta história mil vezes e nunca será a mesma: acrescento uma palavra, às vezes uma frase inteira, conversas que não tivemos daquela maneira. Fui buscar você na estação, anos depois daríamos o mesmo beijo? Sua boca ainda é como me lembro? Achei melhor não pensar nisso, deixemos que as coisas sejam como sempre foram e mesmo que daqui para a frente sejam diferentes, o que sabemos do que passou permanecerá o mesmo. Peguei sua bagagem, coloquei no porta-malas do carro, pouca coisa, são apenas três dias e um deles nem é inteiro. Você se lembra da cidade e enquanto percorremos suas ruas se lembra de nós nesta cidade, as mesas do fundo, nossas preferidas, a luz da noite, o som dos nossos passos, faz perguntas sobre os bares que íamos, respondo como todos fecharam, como não tocam mais a nossa música, as paredes são de outra cor agora, os nomes dos drinques, o gosto da comida – vejo todo o filme, um pouco da nossa juventude, cabelos mais compridos, o seu mais castanho que vermelho; mas eu gostei dele vermelho, você fica mais real desta maneira, não é mais como me lembro, mas é como a vejo. Você tirou da bolsa um livro que tinha levado, nem tinha dado falta, você podia ter levado a casa inteira, cada papel rabiscado, cada canto coberto de poeira, que eu não daria falta, era você que eu não achava sem saber o que procurava, mas agora você me pede cabides para as suas roupas e eu me espanto que tenha um armário no meu quarto, onde estava ele que eu não enxergava; me pede algo para beber e eu descubro onde guardo os copos, as taças, foram anos bebendo tudo da garrafa, é como se cada coisa aqui voltasse a ter cheiro, forma, utilidade. Você veio para me lembrar que nome teria nosso primeiro filho, veio porque tinha saudade de como se lembrava que éramos, gostou da barba, me dá um certo um charme, mas se dissesse eu a teria feito. O que a gente quer não é o que vem depois que acaba, mas o que nunca deveria ter terminado. É como o livro que eu disse que faria, você cochilava enquanto eu o descrevia, eu apagava a luz e na noite seguinte continuava da mesma página. Agora não me lembro onde eu estava, nem você dos personagens, eu mudo o começo da história e você nem percebe que não é da mesma que se trata. Você veio para me lembrar como fazíamos, que significado tinha seu corpo para mim e o que ele agora significa, a gente não fez como se lembrava, fez como aprendeu nos anos seguintes com outros corpos, por isso a sensação de que algo não se encaixava por mais que se gozava. Você veio para me dizer que seu ônibus já estava saindo, beijei quem você é de verdade, sua boca está ainda melhor, eu me apaixonaria fácil pela mulher que você se tornou, mas é de outra que tenho saudade. Depois que você acenou, disse adeus aquela tarde, percebi que tudo voltou, não como me lembrava, mas como sempre esteve, percebi que nenhum bar fechou, que as paredes não têm outra cor, os drinques outros nomes, nem a comida novo sabor. Percebi que o que eu sentia por você ainda existia, apenas que não havia mais necessidade nenhuma, que nossa música ainda tocava, só que eu a ouvia como se fosse qualquer uma. Foto dela: Aline Monique.Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008
não nos conhecemos
Não nos conhecemos assim tão bem, apenas escutamos o que o outro está sentindo, o que ele acha que sabe sobre si mesmo e nem a isso nos prendemos. Elas me falam de suas vidas e eu imagino. E eu imagino como seriam enquanto adoço o café, acendo um cigarro, passo por uma rua da minha infância. E todo mundo têm histórias ótimas – mesmo que doam nelas aquelas histórias, ainda assim são ótimas, por causa delas não nos sentimos sozinhos, lembro do que me contaram enquanto volto para casa de carro, desligo o rádio para poder ouvi-las melhor na minha cabeça e enquanto me lembro acrescento pequenos detalhes que faltaram e as histórias que eram só delas se tornam minhas também enquanto faço a barba, passo uma camisa, olho como fiquei no espelho do armário. E você fica feliz delas terem sido reais em sua vida, delas terem gritado, exorcizado demônios bem ali na sua frente, delas terem chorado, delas terem se debatido, delas terem querido ficar contigo, delas terem existido. Você se sente culpado por não tê-las prendido tempo o suficiente entre os seus braços, a gente sempre acha que podia ter sido diferente do que foi e faz disso um álbum de fotografias que não tiraram – o qual folheia como se as visse. Mas por mais que eu me aventure dentro delas, apenas me distraem, no fundo eu não as conheço, nem a mulher que se ajeita ao meu lado na cama, nem a que se levantou para que esta ocupasse seu lugar e mesmo não as conhecendo posso falar delas por dias e posso dizer que música combina mais com o jeito com que se aproximam de mim e dançar com elas sem que saibam que tenho pernas, braços, coração prontos para isso e posso até me apaixonar por elas enquanto espero o elevador, o filme começar, a chuva passar. Foto dela: Quel.Domingo, 7 de Dezembro de 2008
do seu castelo de cartas
A gente só percebe que está vivo quando algo dói. A maior parte do tempo nem sabe se tem fome no mundo. E bebes e comes e ris. Mas aí quando se dá conta de que não é superior a porra nenhuma, que também sente as intempéries do tempo, seu castelo de cartas desmorona e você corre pedir colo com o rabo entre as pernas como se antes não fosse a primeira a negá-lo. Se quer fazer uma revolução comece pelo seu coração. Não coloque a culpa nos vizinhos da frente: você também já gostou de fazer com a cortina aberta pouco se importando com o que iam pensar. Não é estranho quando é você quem fala em regras? Fica se sentindo uma velha: sua mãe, seu pai, sua tia. Se eu lhe disser a minha idade você vai dizer ‘não parece’ como se eu fosse um menino de tão desobediente.
O fim disso tudo, creio, está na gente mesmo, no nosso próprio cansaço, não naquela de ontem ou nesta que acabou de sair. Elas representam horizontes, possibilidades, noites inteiras assim, muita saudade. Como saber o que me espera? Se o que ela diz é só um jogo de palavras para me confundir? Eu sei que uma contou para a outra quais eram os meus pontos fracos, eu sei ao mesmo tempo que não sei como reagir de outra forma, vou acabar por sucumbir, tenho compromisso somente com a minha pele, caso contrário, seria o mesmo que me trair, não teria o que escrever e você iria dormir; o que parece ser uma grande verdade, só serve para mim, não peço a ninguém que tente me acompanhar, que cada um cometa os seus próprios erros, chegue você a algum lugar: hoje na minha cama, amanhã na sua, não dá para saber como esta nem história alguma continua, metade do que faz brilhar os olhos é algo que a gente imagina. Se é amor o que você quer, podemos até tentar, mas desde quando isso é uma garantia? Você fala como se tivesse sido sempre honesta com o que sentia – responde uma coisa para mim, my dear: se lembra de alguma vez em que foi cruel com quem não queria? Amor não é só aquilo que você sente, como você sente, como você entende. Para você será de um jeito, para mim será diferente. O mesmo se aplica aos vizinhos aí da frente. Foto dela: Stella.
Domingo, 23 de Novembro de 2008
sobre ontem a noite
Ali naquela gaveta tenho papel e caneta, mas você não precisa me escrever bilhete algum, não me interessa se sua letra é bonita, nem se as marcas das suas garras nas minhas costas vão desaparecer daqui dois, três dias. Eu já gastei saliva demais com poesia, eu já fui ao fundo e voltei sem saber se voltaria, não há nada mais que meu corpo meu coração precise saber, tudo já teve sentido agora não me importa mais que sentido possa ter, amar é sempre uma aposta, um risco para quem está disposto a correr, mas eu nem quero saber o quanto você está disposta a correr, eu só quero que você fique assim até que eu me canse desta posição.
Rabisquei num pedaço de papel o número do meu telefone e coloquei no bolso de trás da sua calça enquanto dormia, mas pode rasgar e jogar fora quando o achar, isto se o achar, mal sei como é a sua voz, não vou mesmo me lembrar dela se ligar e a noite de hoje é a noite de ontem já. Noite como todas as noites, o mundo dando voltas em torno do mesmo lugar. Foto dela: Aline Monique.
Sábado, 15 de Novembro de 2008
para você
A verdade é que nem tudo é uma história da qual você se livra fácil. Fica o peso e o sentido que fazia. Aquilo que por menor que fosse tomava conta do seu mundo, colocava um pouco de ordem, vida dentro de você, justificava porque respirar. Aliás, ela me apareceu por aqui ontem no começo da noite, veio com a desculpa esfarrapada de que queria um livro emprestado. Era tão esfarrapada que ela foi embora de manhã e deixou o livro aqui. E eu nem sei por qual motivo (ou até sei mas não quero descobrir) fiquei ali horas folheando o que escolhera. Como se lesse para ela. O que nunca mais fiz.É bastante silencioso aqui. Não havia reparado antes. Ainda pouco achei que era seu violão no jardim ou algo bonito que ela leu e correu vir me contar. Não, nada se moveu, tudo permanece onde está. O que ela tirou do lugar eu achei melhor arrumar. Não se usa mais escrever cartas, por isto comecei uma e parei, ela nem vai ficar sabendo, mas estava tudo lá, o que era real e o que era só poesia para ela se apaixonar. Foto: Ricardo Pereira/modelo: Kel.
Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008
a grande verdade
Então ela apanhou o Bukowski que eu andei lendo. Achou um tanto vulgar o modo como ele descrevia sua vida, suas mulheres. Isso te excita? – perguntou mostrando-me o livro. Isso me excita – respondi apontando para o seu corpo. A gente não lê para substituir a vida, a gente lê para dar a vida algum sentido que preste. Ou você pensa que trabalhar e ter algum dinheiro é o suficiente? A cidade lá fora é praticamente um filme de George Romero. Os zumbis já são em maioria aos vivos. Alguns estão até escrevendo livros. Figuram entre os mais vendidos. A boa literatura precisa ter algo de repugnante. É como quando você olha para a sua própria vida e diz ‘não acredito que estou vivendo isso’ – dizer isto é a melhor forma de sacar se você é um dos zumbis ou um dos vivos. A maioria de nós já morreu, o problema é que inventaram excelentes perfumes para nos esconder isso. Da grande verdade que é a morte em vida. Ou sistema capitalista.
Algumas mulheres gostariam que eu simplesmente passasse a mão em suas cabeças. Ora por que não, eu também faço isso, só que cobro pelo serviço. Não há nada de indecoroso em ser um garoto de programa, a maioria dos homens e das mulheres que conheço hoje não passam disso, a diferença é que vão de graça. O que, imaginam, os colocam num nível superior de moral e decência. Como remédio para a solidão é perfeitamente justificável. Pelo menos por alguns minutos temos a sensação de que tudo é real, que somos imprescindíveis, nossos corpos insubstituíveis, mas é durante o café da manhã que não conseguimos disfarçar. Eu também tenho hora no dentista. Foto: Ricardo/ modelo: Renata Punk.
Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008
work in progress
Vejo quando ela sorri ao final de uma página e antes de passar para a seguinte volta os olhos para a anterior como se quisesse gravar alguma frase, algo que talvez eu tenha ‘dito’ com outra intenção, mas da qual ela se apropriava como se ‘aquelas palavras’ a explicassem melhor para si mesma, estas perguntas que nos fazemos muitas vezes na vida e que deixamos no ar para mais tarde respondermos e que um poeta do século passado com uma vida completamente diferente da nossa parece saber direitinho o que significa e porque as fazemos. Naquele instante eu sou como um poeta do século passado com uma vida completamente diferente da dela, ou quem sabe o trecho destacado fosse apenas um comentário sobre mim mesmo, algo que às vezes revelo sem dar-me conta, sem pesar se deveria, como uma falha, um erro, um fraco que nos humaniza perante aquele que a princípio só nos admira, não sabe ainda se pode fazer parte de tudo aquilo, de que maneira pode contribuir.
Isto há muito deixou de ser um romance, não sei mais que direção vai tomar, não me importa mais, nele de tudo cabe, outra noite referi-me a ele como meu ‘dicionário de sentimentos’, tentei explicar o que aquilo significava, depois a conversa mudou de rumo, fomos para a cama mais cedo. Isto também há muito deixou de ser só da minha vida, daquilo que eu posso sentir e revelar, começo um novo parágrafo e não sei onde vou parar. Às vezes chego até você, dou voltas em torno de você, bagunço o seu cabelo, mudo o seu jeito de olhar, depois volto para a casa com uma nova história para contar. Meus personagens não são reais, quem dá vida à eles é que é: em outras palavras, você. Foto: Ricardo/ela: Gabi L.
Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008
luz natural
Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008
a manhã
Domingo, 26 de Outubro de 2008
28
Em matéria de sexo os homens não passam de uns garotinhos. Eu tenho aqui um corpo cheio de possibilidades e eles só puseram a mão em metade. Ora, metade, estou sendo muito otimista, uns dez porcento, o resto eles nem sabem, nem fazem idéia, acho até que nem agüentam. Os delicados, os sensíveis, os poetas vêm cheios de bajulação, colocam você num pedestal, a maior parte do que dizem a seu respeito dizem porque gostam daquelas palavras, não se referem a você, mas a todas as mulheres que eles conheceram e ‘endeusaram’. Endeusaram a ponto de não conhecerem mulher nenhuma de verdade, só a imagem que projetaram dela na folha de papel em que a deitaram e fizeram amor. Os machões, os safados, os que se acham grande coisa, aprenderam sobre sexo vendo filmes pornográficos, não fizeram outra coisa na sua adolescência, ler um livro para eles era coisa de bichinha e aí você pede peloamordedeus que não abram a boca porque são uns tapados, tudo o que fazem é exibir seus bíceps, são uns tarados por si próprios, comeriam a si próprios se pudessem, meteriam seus ‘meninos mal-criados’ no próprio rabo se pudessem, mas na hora do ‘vamos ver’ negam fogo, isto nunca lhes aconteceu antes, vão dizer. As mulheres, ah as mulheres são uma irmandade secreta, elas entram em você por corredores pelos quais até você desconhecia, quando você se dá conta já estão decifrando todos os seus códigos, falando de deus no seu íntimo, não subestimam um centímetro do seu corpo que seja, tiram música de cada um deles. Imagem: Edward Hooper, A Woman In The Sun, 1961.“28” – assim como “Meu café já está no fim”, “Amarelo fica muito bem em você”, “A Vida em três ou quatro linhas”, “Em Alguma Daquelas Janelas”, “No que estará pensando”, “O Velho Cinema” e “Às quatro da manhã”, publicados anteriormente aqui neste blogue – faz parte de uma série de pequenos textos que escrevi inspirados nas telas do pintor norte-americano Edward Hooper cuja influência sobre este blogue não se limita a estes textos mas espalha-se pelos demais com maior ou menor intensidade e também pelas fotos que ilustram muitos deles.
Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008
para ler com todo o corpo
Você não se parece em nada com o que só eu ‘vejo’. Entre suas amigas conversando sobre nada. Só eu sei quais palavras você é capaz de pronunciar, as loucuras em que pode pensar, o código com o qual gostamos de nos provocar. Quem poderia imaginar que uma pergunta inocente sobre o tempo junto à máquina de café quer saber que cor de calcinha está usando ou se está. Os cabelos soltos significando ‘siga meu carro à uns dez metros de distância para ninguém desconfiar’, o cabelo preso ‘naquela sala de reuniões do segundo andar que ninguém nunca usa em cinco minutos e que se dane se alguém desconfiar’.
Você me pede que eu escreva novos capítulos em você, aqui e aqui, diz apontando em si mesma por onde devo começar. Rabisco alguma coisa, você se arrepia toda, ‘escrever é uma forma de existir’, diz ela me ensinando literatura, toda a literatura que eu preciso saber, aquela que não me fará imortal, um clássico da literatura mundial, mas aquela pela qual vale a pena viver, é a esta Academia que eu quero concorrer. Foto: Ricardo/ ela: Stella.
Domingo, 19 de Outubro de 2008
acharás entre as páginas de um livro...
Domingo, 5 de Outubro de 2008
meu café já está no fim
“Meu café já está no fim" - assim como "Amarelo fica muito bem em você”, “A Vida em três ou quatro linhas”, "Em Alguma Daquelas Janelas", "No que estará pensando", "O Velho Cinema" e "Às quatro da manhã", publicados anteriormente aqui neste blogue – faz parte de uma série de pequenos textos que escrevi inspirados nas telas do pintor norte-americano Edward Hopper cuja influência sobre este blogue não se limita a estes textos mas espalha-se pelos demais com maior ou menor intensidade e também pelas fotos que ilustram muitos deles.
Sábado, 27 de Setembro de 2008
uma cidade no meio do nada.
“... não fazes favor nenhum em gostar de alguém...” (Nem Eu, Dorival Caymmi)
Ontem vi meu primeiro filme sem você. Tentei me concentrar no filme que assistia, uma bobagem sobre mortos que andam. Você adorava essas bobagens, eu adorava você. Na chuva com cara de brava esperando eu aparecer, é como me lembro, eu tinha me atrasado, pensei que ouviria, mas você só me pediu um abraço por conta do frio que fazia. Estou escrevendo isso diretamente dos meus dezessete anos. Eu sei que não os tenho mais, eles ainda estão aqui, os meus dezessete, ajudaram a formar a minha personalidade, mas envelheci, passei da idade, você até arrancou o meu primeiro fio de cabelo branco. Apesar de lindo, não é mais a você que me dirijo, eis a grande verdade, quero atrair outra com o que digo e você sabe. É que é foda ser um poeta romântico vinte e quatro horas por dia, às vezes quero mandar o amor ir tomar naquele lugar. Você não? Foto: Penélope charmosa.
Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008
chama-se 'amor' ou algo assim
o mundo e o que havia.
Olha só esta chuva
que não nos dá outra escolha.
Ela entendeu a mensagem
e me chamou de volta para a cama
onde ficamos o resto da manhã.
“Escuta no meu coração
que música mais linda” –
disse ela me convidando.
Reconheci a melodia,
acho que sou eu o compositor,
chama-se ‘amor’ ou algo assim.
Então ela me reclamou a co-autoria
daquele samba.
Mais uma dentre outras tantas parcerias.
Poema e foto: Ricardo.
Modelo: maria rita.
Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008
hoje eu te vi na novela das seis
Finalmente fui vê-la. Há muito que ela cobrava minha presença. Tinha uma cena em que ela ficava praticamente nua e eu me lembrei dela caminhando só de calcinha pelo apartamento, ria de não sei o que. Quando nos conhecemos ela não era atriz ainda, embora já se sentisse uma. Um dia farei uma peça sua, dizia. Não que eu tivesse escrito alguma ou tivesse qualquer pretensão de escrever, apenas que aquilo fazia parte do nosso romance na época: imaginar onde estaríamos dalí há dez anos.Não entendi bem o enredo da peça, por que gritavam tanto?, sempre acho que posso escrever algo melhor, mesmo assim disse que ela esteve esplêndida e esteve mesmo, toda vez que ela surgia em cena eu me desconcentrava por completo do que se passava ao meu redor e me lembrava de onde estávamos há dez anos atrás, isto explica minha confusão quanto ao que encenavam.
Disse que o teatro é sempre menos teatral que a vida, mas ela entendeu aquilo como uma crítica, então eu mudei de assunto, fiz um comentário sobre a nova cor do seu cabelo, mas ela também entendeu aquilo como uma crítica. Uns amigos dela invadiram o camarim fazendo festa, eu me afastei para que a abraçassem, beijassem, encostei num canto como se aguardasse a minha deixa, ela me procurou com os olhos querendo me apresentar, mas eu fiz um gesto de que não precisava, minha cena com ela acabara, há uns dez anos atrás, na saída do teatro risquei meu nome do cartaz. Foto: Ricardo/modelo: Flora.
Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008
os sobreviventes
Estou me apaixonando enquanto você dorme, já tive duas namoradas com o mesmo nome, quatro com essa cor de cabelo, seis só este ano, estou anotando tudo num caderno para não me perder quando me perguntarem quem é você (‘quem era aquela da festa’), mas sei que estou louco por outra noite igual a esta, será que meu coração de segunda mão lhe interessa? Não precisa responder agora, não tenha pressa, deixei reservada esta sexta-feira para beijar você inteira, dos pés à cabeça.
Ainda não é a história que eu quero contar, pela qual já posso até morrer, apenas algo que rabisquei enquanto você não se decidia, tomando o seu café em pé na minha cozinha. Não falo de amor, nem você nem eu nos importamos mais com o que isto significa. Ou significou um dia. Se sobrevivemos não há mais nada para sabermos. Eu prefiro o lado esquerdo, a cor da minha escova é verde, quando escrevo gosto de silêncio. Foto: Ricardo/ ela: Karen.
Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008
do capítulo 'pendências amorosas'
para você nanaEu estava com umas pendências amorosas para resolver. Sabe aquele restinho que fica entre ela e você que basta um olhar para a coisa inflamar? É bom ter para o que voltar. O mundo é feito das impressões que deixamos naqueles que tocamos: estive aqui, passei por ali, em alguns corpos até se pode ler. Mas agora acho que já rolamos na cama tudo o que restava. Definitivamente amor não era mais o assunto enquanto a gente se trocava. Eu ajudei ela com o lençol, depois esvaziei o cinzeiro, sei o lugar onde ela o guarda, vou sentir saudade do ‘lugar onde ela o guarda’, apanhei meu celular, meu relógio, dei uma última olhada. Devolvo a cópia da chave que ela me deu, não chego mais de madrugada. Da próxima vez que vier me visitar, tomaremos chá. A porta não está fechada, somente encostada, ela me mostra que é só empurrar. Faço o teste e ela ri. Da rua me viro e a vejo na janela. Ela estava lá e não está mais. Foi cuidar da sua vida, eu vim cuidar da minha: de você quero dizer. Por que estou contando isso? Você fez aquela cara de que não precisava. De certo que não precisava. É só para lembrar que o que começa também acaba. Prefiro que seja assim sem dor nem para mim nem para você. A gente começou amigo, depois é que o fogo pegou. Até quando é algo que não se pode prever, apenas viver para saber. Foto: Ricardo/ ela: Helena.
Domingo, 10 de Agosto de 2008
que se dane o amor que acaba
Sábado, 2 de Agosto de 2008
a esta hora da noite
A esta hora da noite, a vida é o único lugar aberto. Pode parar de procurar. Não existem cafés como nos filmes, nem tortas de blueberry esperando. Estou ouvindo o último presente que me deu. A trilha do filme My Blueberry Nights – não me recordo o título em português*. Na verdade só estou ouvindo a faixa número um – acho que pela nona vez. Eu vi primeiro, disse que você se apaixonaria e você se apaixonou. “Gostei mais do que Closer”, comentou. Eu ainda prefiro aquele. Quis saber se eu já tinha experimentado blueberry. Respondi que sim. “E qual o gosto?”, perguntou. Lembra pitanga, framboesa. E você fez aquela cara de quem não parece convencida de que eu realmente provei blueberry. Só porque eu sou metido a profundo conhecedor de tudo não quer dizer que eu não saiba do que estou falando.Você vai ficar fora por dois dias. Maldito congresso de odontologia. Será que você dormiu enquanto folheava o livro que levou? Ficou de me ligar e ainda não ligou. Nós temos uma espécie de código. Ela me liga, dá um toque só, para saber se estou acordado, para saber se não estou ‘ocupado’, para saber se estou interessado. Identifico o número e se quero ligo de volta e a gente conversa o que vier a cabeça, desde o que ela achou das palestras até o que ela está vestindo agora, minhas mãos subindo por entre suas pernas. Ela sabe que não estou dormindo. Conhece meus hábitos noturnos. Madrugada é a melhor hora do dia. Mesmo quando ela está aqui, dormir de conchinha só os dez primeiros minutos. A noite inteira é mito. Meu braço direito, embaixo dela, fica dolorido. Deixo a cama devagar, faço tudo para ela não acordar, a observo por algum tempo, depois vou escrever um pouco, ouvir uns velhos discos, a cidade lá embaixo.
Enquanto espero começo uma partida de sinuca. Você nunca joga comigo, diz que minha velha mesa não combina com ‘sua’ decoração. Depois de algumas jogadas desisto. Aprecio a formação que as bolas coloridas fazem espalhadas pelo pano verde. Gosto de imaginar todas as possibilidades, qual será a próxima a cair. Fiz pouquíssimas vezes sobre a mesa, nenhuma com você. Devo admitir que é um tanto desconfortável. Os filmes dão uma impressão errada da vida. As bolas espalhadas pelo pano verde lembram nossas roupas deixadas pelo caminho. Sou sempre eu a recolher, você reclama que não encontra a calcinha, que eu brinco de esconder. Gosto desta tua omnipresença, está na mesa em que nunca fizemos, na música que estou a ouvir, no livro que falta na estante, no telefonema que espero para o próximo instante. Imagem: Norah Jones e Jude Law em cena do filme “My Blueberry Nights”(2007, Wong Kar-Wai).
*Um beijo roubado.
Clique no link abaixo e ouça “The Story” com Norah Jones. A música que estou ouvindo acho que pela nona vez.
Domingo, 27 de Julho de 2008
só mais cinco minutinhos
Não sei o que ainda faço deitado aqui ao seu lado, se já tínhamos decidido que isto tudo estava acabado. Lembro de você dizendo que não havia nada de errado em um último beijo, somos adultos, já chegamos até este ponto diversas vezes, quando me toquei o disco já tinha acabado, fiquei preocupado com você, dirigindo aquela hora da noite até em casa, sugeri que dormisse aqui, fosse embora pela manhã, você concordou, fui buscar um travesseiro e um cobertor, quando dei por mim já tínhamos feito amor no sofá da sala, a caminho do quarto, contra a parede do corredor. Pergunta se pode ficar mais alguns dias com o livro que está lendo, digo que não tem pressa, que me devolva quando terminar, é uma história como você gosta, dessas que a gente não consegue largar, sei como é, estou escrevendo sobre isso agora, quando percebo já deu a hora que você me pediu para lhe acordar, chamo seu nome baixinho e você me diz ‘só mais cinco minutinhos’. Foto: Ricardo/ ela: Karen.Sábado, 26 de Julho de 2008
a máquina do tempo
Domingo, 20 de Julho de 2008
amarelo fica muito bem em você
* "Não rimarei a palavra sono/ com a incorrespondeente palavra outono./ Rimarei com a palavra carne/ ou qualquer outra, que todas me convém. (...) - do poema de Carlos Drummond de Andrade, "Consideração do Poema".
“Amarelo fica muito bem em você” – assim como “A Vida em três ou quatro linhas”, "Em Alguma Daquelas Janelas", "No que estará pensando", "O Velho Cinema" e "Às quatro da manhã", publicados anteriormente aqui neste blogue – faz parte de uma série de pequenos textos que escrevi inspirados nas telas do pintor norte-americano Edward Hopper cuja influência sobre este blogue não se limita a estes textos mas espalha-se pelos demais com maior ou menor intensidade e também pelas fotos que ilustram muitos deles.
Domingo, 13 de Julho de 2008
chegará o dia
Chegará o dia em que eu vou decepcioná-la. Não serei tão forte como você espera, nem parecerá que eu tenho aquela experiência toda que eu declaro, talvez tenha inventado os melhores anos da minha vida. Seu corpo então escapará dos meus braços e você aprenderá que só se caminha com as próprias pernas. Não sei como fará mas terá de apagar todos os vestígios de que me ama da sua pele e da sua voz. Eu telefonarei e você deixará tocar. É o que eu espero que você faça, foi por isso que disquei seu número, foi por isso que insisti em ‘chamar’ mesmo sabendo que você só precisava esticar o braço para atender, sei onde fica o telefone, ao lado da sua cama, conheço cada detalhe do seu quarto, posso descrevê-lo para você, sei que a parede é mais branca atrás do armário, sei onde acumula mais poeira, conheço cada rangido da sua cama, mas isto a esta hora os vizinhos também já devem saber, conheço cada centímetro de você, sei quando parece que uma serpente sobe por entre suas pernas, sei quando você não consegue disfarçar. Sei. O que posso fazer? Negar? Não dá. Chegará o dia em que não adiantará mais nada saber tudo isso sobre você. Nos encontraremos na sessão de laticínios e eu estranharei aquela ricota no seu carrinho.Não é o futuro, isso já aconteceu, comigo, com você, com quem acabou de ler. É que a vida é disso que se trata e é justamente nisso que eu quero me concentrar, não nos grandes feitos, nos heróis que não há, mas ‘em que você está pensando quando está do outro lado da festa e me observa conversando, fazendo gestos, inflamado, me admirando’. Será que compreende que eu também deixo as coisas caírem, que às vezes não sei onde coloquei e preciso procurar, que erro como todo mundo, que posso ser justo mas também posso pensar só em mim mesmo, que quando você deita a cabeça no meu peito e começa a contar sobre o seu dia que metade do que me diz eu não vou guardar, que é porque você é linda que eu deixo o que estou fazendo só para lhe beijar. Será que entende que a maior parte do tempo já é ‘amor’ e não somente naqueles ‘momentos’. Chegará o dia em que não concordará comigo como faz agora com um sorriso. Foto: Ricardo Pereira/modelo: Gi.
Domingo, 6 de Julho de 2008
segredo estridente
Eu discordo, disse a ela, a vida não é como dizem tão curta que precisemos fazer tudo com pressa como se esta fosse a última noite e ainda que fosse: como saber? – e ainda que soubéssemos porque rasgaria sua roupa se posso tirá-las para você porque eu quero você como se ainda não a conhecesse, como se ainda me surpreendesse a tatuagem que estou cansado de ver, quero você como se da primeira vez se tratasse e não da última, e não do fim, apesar de que o fim é uma fantasma que sempre ronda, devo lembrá-la, mas eu posso deixar a luz acesa se isto fizer com que você se sinta melhor e o fantasma vai embora, ou então volta outra hora. Posso escrever sobre você para que suas amigas sintam inveja de como eu a adoro, de como eu rastejo e posso escrever sobre você apenas para que eu saiba, apenas para que eu ‘sorria’ da nossa história e posso escrever para que nem você saiba que é de você que eu falo e você pode ser todas, nenhuma em especial, e ainda assim ser especial sem que o saiba porque se torna.Estou escrevendo um livro. Já tenho o título e uma idéia para a capa, só não sei como termina, não sei se quero terminar, escrevo sobre a vida, mas talvez a vida seja algo que possa não interessar, por isso esses pequenos fragmentos, essas idéias que dou para você pensar, só o gostinho de como será, se é que será, mas se é sobre a vida não importa o que virá, importa o que se vive, escrever apenas corrige a vida, escrever traz você para perto não importa onde está, acho até que pode me ouvir se eu sussurrar, porque eu conheço o que arrepia sua nuca e você sabe como isso a deixa maluca.
Mas e se você não for um segredo que eu quero guardar? Mas for um nome que eu quero dizer alto. Você me diz que tem uma vida em que eu não posso entrar, apesar de que nela eu já entro quando você se pega distraída com algo que a faz se lembrar e alguém precisa perguntar onde você está com a cabeça que parece tão fora do ar. Você sabe onde está, mas não diz, acha melhor disfarçar. Não é porque alguém chegou antes de mim que eu não posso fazer você se questionar se fez a escolha certa, querer saber onde eu estava há alguns anos atrás que não nos víamos nas mesmas festas. Sabe que a porta estar aberta hoje não significa que amanhã ela também vai estar. O fim é um fantasma que sempre ronda, não custa lembrar. Foto: Ricardo Pereira/modelo: Bruna S.
Segunda-feira, 30 de Junho de 2008
tem uma aranha no seu braço
fiz para a melTem uma aranha no seu braço
que arrepia só de pensar:
que carícia ela fará pelo seu corpo
quando se pôr a caminhar.
Será que sobe pelo seu pescoço
sem saber porque vai;
desconhecendo que é o gosto
dos seus lábios que a atrai.
Ou será que prefere outra direção:
circula em torno dos seus seios
como que buscando um meio
de penetrar seu coração.
Quem sabe toma o caminho
das suas costas
como um peregrino sozinho
em busca de respostas –
mal sabe ela o que a espera
se não desistir e seguir em frente:
encontrará a terra prometida –
privilégio de poucos penitentes.
Poema meu. Foto dela.
Sábado, 21 de Junho de 2008
ela não gosta de poesia

“...como se eu fosse o saudoso poeta e fosses a paraíba” (caetano veloso, terra)
Pergunta-me do que a gente é feito e eu respondo ‘das histórias que contamos sobre nós mesmos’. Estou falando de mim, deste quarto escuro aqui, ela eu não conheço, ela eu quis conhecer e o que conheci foi só até a pele, depois disso me perdi. Porque já me apaixonei duzentas vezes sempre acho que posso me apaixonar outras duzentas que tudo bem. Pelo menos não preciso sonhar como era o seu cheiro, nem imaginar o gosto que tinha seus lábios, o perfume em seus cabelos, porque tudo que me foi permitido, tudo que me foi confiado, dito ou sussurrado, ficará guardado aqui comigo, neste quarto escuro – que o sol ilumina quando dela me lembro. Será que ela volta em dezembro?
Porque não se vive muitas vidas é que a gente se agarra a única que tem. Comete erros querendo se manter vivo, não diz na hora o que quer dizer, ou até diz e não é compreendido, há quem não fale a mesma língua, há que se entender isto, nem todo mundo sente da mesma forma, nem se deixa influenciar por essa lua e esse conhaque que me botam comovido como o diabo. Pelo menos bebemos vinho. Nos embriagamos e foi bom. Será que conto para ela que não tirei os olhos dela enquanto dormia?
Segunda-feira, 16 de Junho de 2008
há quanto tempo
para três, quatro de dez anos atrásHá quanto tempo, pensei quando a vi e você me disse que pensou a mesma coisa. E era verdade. E era saudade também. Não nos lembrávamos quando tinha sido a última vez, não queríamos lembrar era o mais provável, acho que depois daquela festa na casa de não sei quem em que fomos embora mais cedo sem nos despedirmos de ninguém e no caminho discutimos por causa de não sei quem e não discutíamos por causa de ninguém mas por culpa de nós mesmos, era só uma forma de colocar a culpa numa terceira pessoa que não existia sequer na cabeça da gente. Na semana seguinte você veio pegar suas coisas, sabia que eu não estaria em casa aquela hora do dia, deixou a cópia que tinha da chave com o porteiro e nunca mais apareceu, nem um bilhete escreveu (“não sou tão boa com as palavras como você”), queria lhe dizer que você ficou com um livro meu, talvez sem o saber que me pertencia, pensei em ligar pedindo ele de volta mas achei que você entenderia isso como uma desculpa minha para confundir sua cabeça outra vez. Alguns meses depois encontrei uma outra edição numa sebo que gosto e comprei. Mas não era a mesma coisa, não era o mesmo livro de certa forma, nem era a mesma idéia que eu fazia dele, perguntava para que me servia toda aquela poesia, desnessária, inútil, para certas conversas que tivemos, acho que nunca mais o folheei, vinha-me a cabeça quando o procurava na estante a idéia de que você ainda o lia e que quando o fazia pensava por alguns minutos em mim e em onde eu estaria naquelas noites em que lha faltava poesia, depois achava que aquilo era coisa só da minha cabeça, que você nem lembrava mais que aquele livro me pertencia ou que um dia você me pertencera também. Por isso não perguntei mais do livro, nem naquele dia, nem quando você me passou seu novo telefone eu liguei como não liguei para o número velho também, o velho que você achou que eu tinha mas fazia tanto tempo que a gente não se via que provavelmente o velho telefone a que você se referia eu nunca tive também. Mas foi bom. Foi bom lembrar que já tive vinte anos e que quando tive vinte anos você tinha vinte anos também. Foi bom lembrar toda a maluquice que a gente fazia e tudo o que a gente pretendia fazer. E como em certo momento eu já não tinha mais certeza se toda a maluquice que a gente dizia que fazia a gente realmente fez ou só disse que fazia ou será que fez mas com outras pessoas e que agora confundia. Como a viagem da qual me lembrei e que agora sei que a gente jamais a fez. Fui ver as fotos do que eu dizia e era outra que ao meu lado sorria. Mas algo naquela que me sorria me fazia se lembrar de você também. E nem era porque ambas se pareciam porque ambas não se pareciam nem um pouco. É porque me lembrar de você, dela, de quem mais seria, me devolve um pouco da poesia daqueles dias, da poesia que aquele livro dizia e que você acho nem sabe se ainda o tem. Foto: Ricardo Pereira/modelo: Duda.
Domingo, 8 de Junho de 2008
não sou bom com histórias de amor*
Ele acordou silencioso e com o dedão do pé passeou sutil nas batatas da namorada, sob o edredon. Ela retribuiu o carinho com uma espécie de entrelaçamento dos dedos dos pés, ‘dando os pés’, assim como os casais se dão as mãos. “Tive um sonho estranho” – começou a contar para ela mas também para si mesmo – “Estávamos numa praia, caminhando pela beira do mar. Eu e alguns amigos. Até que avistei uma cobra azul. Era azul e estava escondida na areia. Só conseguia distinguir partes dela. Era enorme. As escamas azuis, brilhantes. Avisei a todos, cuidado, tem uma cobra ali. Mas quando olhei de volta para o montinho que formava, ela havia sumido. Não estava mais lá”.
Ela ainda permaneceu alguns minutos na cama. Os dois sem se dizerem mais nada. Apenas a certeza de que ambos gostavam daquela parte do dia ‘em que despertavam e se reconheciam enamorados’ mais do que qualquer outra. Acho que é por isso que pagamos as nossas contas, não dá para caminhar pela areia da praia todas as manhãs, o paraíso precisa ser sempre um lugar distante?; nem para aquelas noites de gala em que estamos todos bem vestidos e parecemos ter muitos amigos com quem trocamos pequenos sorrisos e comentários bobos sobre as estrelas no céu, a moda da estação. Ele não sabe em que ela está pensando. Ela idem. Os dois se entreolham e por alguns segundos pensam que pode ser na mesma coisa. Foto: Ricardo / modelo: Helena.
* Um shopping da cidade premiaria a melhor história de amor – com no máximo 350 palavras. Ela me disse “Escreve algo, Ricardo, podemos ganhar” – sonhando com o prêmio: vales-compra nas principais lojas. Eu respondi que não sou bom com histórias de amor. O trecho em que ele conta o sonho que teve com uma cobra azul foi só para preencher o número mínimo de palavras que era de 300. O resto ‘acontece’.
Segunda-feira, 2 de Junho de 2008
a cidade é enorme
A cidade é enorme. A gente é só uma janela iluminada. Será que apenas assistimos tevê ou fazemos amor no tapete da sala? A gente nem conhece os nossos vizinhos. Não sabemos em que ela trabalha, para onde vão todos os domingos, apenas a que hora sempre jantam porque podemos sentir o cheiro da sacada, você acende um cigarro, eu preparo um drinque, depois ficamos em silêncio enquanto eles discutem, aquilo nos deixa constrangidos, pensamos como é bom não ter os mesmos problemas, depois apagamos as luzes e vamos dormir.Eu estou escrevendo um livro, a idéia de viver com um escritor costumava deixar você excitada, hoje você lê enciumada o que rabisco, a personagem principal lembra uma mulher do meu passado, dei o seu segundo nome à ela mas não adiantou nada, é como se eu buscasse corrigir uma parte da minha vida. Algumas alunas vieram fazer uma entrevista, um trabalho de faculdade. Eu disse que para mim ‘escrever é que é a vida, enquanto viver é só um rascunho, algo de onde partir’. Não queria dizer nada, você deu mais importância aquilo do que eu mesmo, acho que elas nem gravaram, só conseguia pensar que tinha a mesma idade das alunas que vieram me entrevistar quando me conheceu. Tinha lido alguns dos meus contos, a idéia de viver com um escritor costumava deixar você excitada, achava que nossos assuntos seriam outros, gostaria de ficar apenas sentada ao meu lado observando-me falar, imaginando como seriam quando aquelas palavras fossem para o papel, no formato das letras, na qualidade da impressão.
Mas a cidade é enorme, eu já disse, a gente não passa de uma janela iluminada. Nossos vizinhos não nos conhecem. Não sabem que a personagem principal do meu livro lembra uma mulher do meu passado, nem que você tinha a mesma idade das alunas que vieram me entrevistar quando me conheceu, apenas a que horas jantamos porque podem sentir o cheiro da sacada, ela acende um cigarro, ele prepara um drinque, depois ficam em silêncio perguntando-se porque nunca se ouve conversa no apartamento ao lado, aquilo os deixa intrigados, pensando como é bom não ter os mesmos problemas, depois apagam as luzes e vão dormir. Foto: Nelson Abrahão Filho/ arte: Cris Maria.
Segunda-feira, 26 de Maio de 2008
os pensamentos
“... porque todos vivemos a mesma vida só que de uma forma diferente...”E de repente me lembro daquele dia, há muito tempo atrás, em que encontraria-me com ela só às nove da noite e em que ela me ligava de hora em hora – em ponto – até às oito da noite, apenas para dizer quanto tempo faltava até nos vermos: seis horas, cinco horas, quatro horas... Foi há tanto tempo, mas me peguei a pensar nesse dia, assim de repente como se precisasse escrever algo sobre ele urgente e estranhasse não o tê-lo feito ainda.
Surpreende-me que ainda lembre do vestido bege com pequenas flores vermelhas que ela usava nessa noite, do seu perfume fresco delicado jasmin, da pele morena mais morena que no dia anterior, do seu sorriso rasgado do outro lado da rua ao me ver se aproximar, do vermelho do semáforo que nunca que abria e da primeira coisa que ensaiava dizer-lhe e que acabou não saindo.
Essa recordação assalta-me os pensamentos e não percebo o porquê. Faz tanto tempo que não a vejo, que não a ouço, que nem sequer penso nela. Fomos ao cinema, rimos muito e andamos a pé pela cidade deserta, à procura de um último lugar aberto. Mas não me lembro do filme, nem das piadas que a fizeram rir e nem das ruas por onde passamos. Só do cheiro, da espera, das pequenas flores vermelhas. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Aretha.
Domingo, 18 de Maio de 2008
a vida em três ou quatro linhas
Comecei escrevendo obituários para um jornal da minha cidade. Foi meu primeiro emprego. Tinha pouco mais de dezoito anos de idade. Segundo meu editor, era muito bom no que fazia. Aprendi sobre a morte e mais do que isto que não importava como tinha sido a sua vida que ela sempre caberia em três, quatro linhas, às vezes em menos ainda, dependia do quanto sua família estivesse disposta a pagar por aquelas linhas. Às vezes era preciso florear um pouco, a maioria das pessoas só estuda, arranja um trabalho, casa e tem filhos, netos – é muito pouco para tornar uma vida interessante aos olhos de quem fica. Sobretudo quando se sabe que está se seguindo o mesmo caminho.Eu tinha essa mania, diriam mórbida, de rascunhar como seria o meu. Eu tinha dezoito anos e havia tanta coisa que eu queria fazer que em três, quatro linhas, de certo, não caberia. Pensava em todas as mulheres, livros e viagens. Pensava de que forma seria o meu fim. Velho com sua jovem amante era a minha preferida: o coração pararia de tanto amor. Um amigo de longa data faria um discurso embriagado, lembraria as farras de juventude, algum sucesso, algum fracasso – ah a dignidade dos que partem, tudo pode ser ressignificado, contado diferente, feito de uma forma diferente, acho belo o modo como modificamos o nosso passado. O que me lembro da infância foi tudo inventado.
Foram quase dois anos naquele emprego, naquele jornal, apesar de cobrir outros assuntos que o cotidiano demandava, era na seção de obituários que eu me concentrava. Foi ali que descobri a poesia, seu poder de síntese, como era preciso resumir tudo ao estritamente necessário: a vida e tôdas as suas possibilidades à vida e tudo o que se pôde fazer dela – há uma diferença muito grande entre uma e outra. Esta ‘diferença’ entre elas era no que consistia o meu trabalho: pintar um quadro colorido somente com duas tintas – a preta e a branca. Segundo meu editor, era muito bom no que fazia. Aprendi sobre a morte e mais do que isto que não importa como você viva a sua vida desde que ela não caiba em três, quatro linhas. Imagem: Edward Hopper, Excursion into philosophy, 1959.
"A Vida em três ou quatro linhas" – assim como "Em Alguma Daquelas Janelas", "No que estará pensando", "O Velho Cinema" e "Às quatro da manhã", publicados anteriormente aqui neste blogue – faz parte de uma série de pequenos textos que escrevi inspirados nas telas do pintor norte-americano Edward Hopper cuja influência sobre este blogue não se limita a estes textos mas espalha-se pelos demais com maior ou menor intensidade e também pelas fotos que ilustram muitos deles.
Terça-feira, 13 de Maio de 2008
a noite mais fria do ano
A marca de cigarro que ela fuma, o livro que tirou do lugar, a taça em que bebeu, o disco que colocou para tocar. O brinco que ela esqueceu, a promessa de que vai voltar, o nome que ela me deu, o perfume que deixou no ar. A atriz que ela me lembra, o filme que eu quis rodar, o telefone fora do gancho, a bagunça que ficou para contar. A noite mais fria do ano, nem chegamos a notar, a tatuagem que ela fez, nem queira saber o lugar.Duas xícaras de café, ela toma o dela sem açúcar, na toalha que usou, alguns fios de sua cabeleira ruiva. Os segredos que não existem mais, entre o meu corpo e o dela, quem disse que para ser ‘romântico’ precisa luz de velas. O nome da sua rua, número do apartamento e andar, “quando quiser” – disse ela – “sabe onde me encontrar”. Essa coisa de pele que não tem como evitar, descubro onde sente cócegas, ela me conta o que a faz chorar.
Pego-me assobiando, a música que ela quis dançar, não encontro o outro pé do sapato, procuro embaixo do sofá. Na gola da camisa, marca de batom vermelho, não consigo decifrar o que escreveu no espelho. Posso colocar tudo em ordem, de volta no seu lugar, mas os vestígios da sua passagem não tem como apagar. É só um primeiro rascunho, da história que eu queria contar, mas publico assim mesmo, acho que ela vai gostar. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Gabi L.
Domingo, 4 de Maio de 2008
'algo que tivesse anjos'
Combinamos de dar uma volta. As ruas estavam vazias e tranqüilas, podíamos prestar atenção só um no outro, de certa forma a cidade ao nosso redor não existia mais ou quem sabe fosse apenas um cenário que se adaptasse aos nossos caprichos, não tínhamos pressa nem outra vida diferente planejada para mais tarde. Era somente isto que eu queria dizer para começar, o resto deixo por sua conta imaginar, que tom de céu prefere, como nos vestiamos e que desalinho o vento havia feito em nossos cabelos.
Ela perguntava do meu trabalho, como devia ser fascinante, coisa que eu não acho, mas deixei que falasse. Ela ainda estava na faculdade, o que na cabeça dela a colocava em desvantagem em relação a mim, quis saber sua opinião sobre o curso mais como quem se aproveita de um assunto que surgiu em meio a conversa do que por curiosidade, mas ela contou-me toda a história, dos amigos e de como se sentia a diferente da turma, o que estava lendo, o que a tinha impressionado, queria parecer mais adulta do que se sabia, fiquei lisonjeado que todo aquele esforço fosse para mim, nem precisava aquilo, mas mantive o jogo como ela queria, estava se saindo bem.
Sugeri que parássemos para um café. Ela concordou que era uma boa idéia, sentarmos um pouco, sairmos daquele frio. Entramos, minha mesa preferida estava vazia, fui na direção dela como quem disputa uma corrida que só você sabe contra todo mundo que freqüenta ou não aquele lugar, até acelerei um pouco o passo ridículo. Quando puxei a cadeira para que sentasse, perguntei por perguntar se preferia outra mesa, ‘esta está boa’ – respondeu. Recusei o cardápio que o garçom me trouxe, não conhecia aquele, ou era novo ou só fazia aquele horário, não costumo vir de dia, pedi meu café de sempre, mas ele teve de abrir o cardápio para descobrir qual era o número do pedido que fazia, ela ainda se entreteu um pouco mais com os vários tipos de café que o lugar servia até que por pura indecisão resolveu acompanhar-me. Então eu desatei a falar sobre café, sobre o que bebia, quando dei por mim já estava falando de filosofia, de cinema, política, economia e de todos os assuntos que o jornal cobria – uma grande bobagem, mas os olhos dela brilhavam para tudo o que eu dizia, acho que os olhos dela brilhavam, gosto de pensar que sim, a história é minha. O que eu sei é que ela parecia ter ficado sem texto para falar comigo, é como se tivesse se dado conta de que não tinha se preparado o suficiente, tinha aquela expressão de quem acha que não tem mais nada de interessante para mostrar que sabe – ah como eu queria convencê-la do contrário, fazer com que ela entendesse o quanto sou também comum, inexpressivo, que não sei metade do que aparento, mesmo sabendo o risco que era quebrar o encanto. Nem sei porque estou escrevendo tudo isto, ela só me pediu que lhe fizesse ‘algo que tivesse anjos’, depois de me perguntar como era isto de escrever (como se eu soubesse). Respondi o que podia, qual era o meu método e como é mais simples quando você não cria muita expectativa sobre o que vai colocar no papel. Depois de algumas xícaras, doces, beijos, balas, cigarro, pedimos a conta e fomos embora. Nas ruas, aquela hora, havia um movimento maior de carros, as pessoas voltavam do trabalho, buzinavam, aceleravam, tinham pressa, não nos deixavam prestar mais atenção só um no outro, a cidade ao nosso redor reclamava um papel maior do que ´árvore’ naquela história, ainda assim não nos interessávamos muito, a nossa vida era somente aquela, do jeito que a vivíamos, do jeito que eu sei contar. Era somente isto que eu queria dizer para terminar, o resto deixo por sua conta imaginar, que dia da semana era, que trilha-sonora combina, como deve continuar. Foto: Ricardo/ modelo: Gabi L.
Domingo, 27 de Abril de 2008
cinco horas, quase seis
Sim, suponho que continuo (ainda) à espera que chegue. Que venha: e sorria. Dirá (talvez) que sentiu saudade e olhará para mim em silêncio, durante um instante; e depois? Um beijo, breve, na face ou na testa; e pegará o copo de água sobre a mesa, beberá um pouco. Depois, ficaremos em silêncio, olhando-nos sem pressa nem embaraço, confortáveis. Sem nada para dizer, para acrescentar.Enquanto fixo o olhar no vazio, por momentos incapaz de controlar (de perceber) os pensamentos que me distraem e alienam, lembro abruptamente o que me explicaram: o carro permaneceu durante horas debaixo das árvores, imóvel e silencioso, invisível, enquanto outros carros passavam pela estrada, fulgurantes ou lentos, ruidosos (a noite avançava, escura e sombria, úmida); e você: morto; eu: desmaiada; é o que contam (vozes sussurradas e pesarosas, comovidas), por isso talvez seja mesmo verdade. Estivemos ali todo aquele tempo (cinco horas, quase seis), juntos; ambos mortos. Mas eu (dizem) decidi acordar (não sei bem porquê, para quê); e você: não.
Olho em frente, refugiada nos óculos escuros (que me deu de presente no meu último aniversário, lembra?) e envolvida pelo ruído matinal do café, enquanto vou pensando – uma vez mais – no que me contaram e explicaram, no que sou incapaz de recordar (pergunto-me como teria reagido se realmente tivesse acordado e visse você, a meu lado, morto). E o cigarro vai-se esfumando, lentamente; talvez beba um pouco da água, daqui há pouco. Passam pessoas perto de mim mas ninguém me olha. O chá deve ter esfriado: esqueci-me de bebê-lo. Continuo a olhar em frente, é tudo o que consigo fazer. Foto de Nelson Luis Abrahão.
Sábado, 19 de Abril de 2008
"onde vamos esta noite?"
Esta noite? Esta noite eu ainda não sei. Talvez algo honesto para variar. Falemos de coisas que sabemos, que realmente importam, que achamos melhor adiar, cansei de evitar polêmicas, destas festas e lugares onde se está apenas por estar, apenas para que pareça tudo bem no mundo mesmo que ele esteja a ponto de desmoronar. Podemos descobrir o que queremos para o resto de nossas vidas num segundo e podemos, no segundo seguinte, dizermos a nós mesmos que tudo aquilo não passa de uma grande bobagem e que o melhor é esquecermos. Eu estava aqui observando você enquanto se vestia e meu desejo era que nada mais houvesse, o tempo principalmente, este disco giraria eternamente, mas que nem a sensação de que era para sempre houvesse, apenas que nada nos interrompesse, nada definitivamente. E não haveria mais onde vamos esta noite mas apenas esta noite.Mas você quer ser feliz do seu jeito, diferente do que eu sinto e quero para mim, acho justo, não posso dizer tudo como deve ser, aqui eu só escrevo, ao meu redor o mundo existe acontece, é nele que você existe respira, é nele o seu cheiro, hoje não preciso acordar de nada disso, posso simplesmente esticar o braço e tocá-la – você se vira, pergunta o que foi. Temos tempo, me diz, acha que é só isso o que eu pretendia e que podemos fazer rapidinho.
O mundo é um lugar onde aprendemos a nos comportar, não é como quando não nos importamos com o que vão pensar. Tenho segredos guardados a meu respeito que não adianta você perguntar, nem eu mesmo sei, não são bem segredos, são sentimentos que ainda não chegamos a experimentar, reações que não temos como prever, quanto mais controlar, é por isto que não sabemos que é amor quando já é, queremos explicações, já vivemos muita coisa, demoramos a aceitar o que é novo em nós, fazemos comparações com o passado, com o que deu certo, com o que deu errado e acabamos tornando complexo aquilo que só deviamos aproveitar. Vamos a muitos lugares, conhecemos o mundo, pessoas, o que conversar; para no fim da noite voltarmos ao mesmo lugar: você, eu, quando não nos importamos com o que vão pensar. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: maíra.
Sexta-feira, 11 de Abril de 2008
faz calor depois faz frio
Não, eu não vou salvar você de nada. Não tenho essa pretensão. A vida é muito maior do que eu posso ou sei, nela também só arrisco. Pode ser que eu faça sentido para você e por isto me queira por perto, na sua cama, nas suas idéias, aquelas que não acredita teria tido sozinha. Pode ser que não seja nada disso, me queira por muito menos, apenas para fumar um cigarro contigo do lado de fora da festa, quando parece que o tumulto interno está bem mais alto que a música – e um cigarro é só aqueles poucos minutos em que você deixa aquilo tudo esperando. É por isto que é tão difícil parar.
Tenho cometido erros e tenho escrito sobre isto. Parece-me o mais honesto a fazer. Não sei se conseguiria escrever só como as coisas dão certo, uma espécie de manual de como sobrevivi – a quem me dirigiria além de mim? Ninguém pode seguir passo a passo o que o outro sentiu para descobrir a melhor forma de agir, não existe receita, caminho a seguir, apenas tentativa e erro, eis toda a ciência. É por isto que você não precisa me explicar tudo, o que às vezes nem sabe como transformar em palavras, diga como quiser, não diga nada, posso fotografar o seu silêncio e imaginar o que está se passando. Gosto quando você me conta o que tem, gosto se isto lhe fizer bem. Por mais que precisemos um do outro, a gente é tudo o que nos resta, a gente é que sabe, a gente é que sente, para isso é que tem pele. Foto: Renata Punk/modelo: maitê
Terça-feira, 1 de Abril de 2008
nostalgia de um minuto atrás
São tantas histórias acontecendo e a gente é só uma delas. O Tempo é um senhor implacável e viver tudo dura poucos segundos ‘dele’ por isto insistimos em transcendermos o instantâneo com fotografias de risos e festas, pequenos registros e farsas, se não podemos ser deuses pelo menos fingimos que temos algum controle, alguma resposta na ponta da língua para quando nos perguntam o que estamos fazendo da nossa vida. Eu estou mastigando a carne que consigo, enganando o estômago, fazendo poesia do que fica preso entre os dentes e assim quando olho para trás, restos de comida e ossos, não sinto que foi um desperdício, não cuspo no prato que como, tudo teve o seu sabor, lembro-me de todo o esforço da caça e relato em volta do fogo.Entendo quando ela me pede que conte tudo de novo, que não a deixe fechar os olhos, acordar na manhã seguinte com a sensação de que não teve quando teve, teve e perdeu, teve e não soube dizer o que sentia, teve e não sabe que nome se usa hoje em dia, teve e parece que é só da poesia que eu deixei para ela como desculpa pela cama desarrumada, sua cabeça bagunçada. Eu sou muitas histórias, você outras tantas e quando a gente se cruza numa rua, numa noite, é só uma delas, podia ter passado direto e vivido outra mais adiante, mais fundamental menos insignificante, e não haveria esta nostalgia de um minuto atrás de quando se deixa algo cair e quebrar quando se acreditava com toda a força que o tinha em segurança apertado contra o peito.
É que nem tudo pode nem tem como caber na sua vida (no seu corpo e naquilo que ele sente, eu quero dizer) por isto você precisa de critérios, formas de selecionar aquilo que se ajusta perfeitamente a quem você é daquilo que não bate porque você prefere fazer uma idéia errada de si mesma para ter o que conversar de louco com os seus amigos, só que depois eles vão embora e ‘quem não é você’ fica sem ter para onde correr. Eu não sei de nada, desculpe se lhe passei esta impressão errada, não sei colocar ordem no mundo, tampouco o nome de metade do que você me pergunta, eu só sei que é madrugada, que você enfim conseguiu dormir e que amanhã quem sabe podiamos muito bem perder alguns minutinhos discutindo até onde pretendemos ir com isso. Foto: Nelson Luís Abraão, Angela Noturna, 2006.
Sexta-feira, 28 de Março de 2008
vida e obra
Tem vezes que ela vem e só se deita ao meu lado, nada, quer conversar – quer conversar e não quer, ela se concentra, procura as palavras certas, eu digo que as palavras certas não existem, que não tem problema se gaguejar um pouco, fizer silêncio, mudar para um assunto mais fácil, a gente tem a noite inteira, não faz sentido uma pressa que extermine tudo, o sol nasce, o dia vem, o tumulto é igual, corre-se de um lado para o outro, encontra-se, perde-se. Quando escrevo é como se eu interrompesse algo – interrompesse e ficasse observando ‘do lado de fora’ daquilo que eu vivo, sinto: agora mesmo posso observa-la mexendo-se na cama em meio ao sono, posso apagar a luz e me juntar a ela, posso me dar uma segunda chance. Uma segunda chance que já estava lá, não preciso escrever sobre ela como se fosse um deus interferindo nos destinos da humanidade, refazendo um caminho, abrindo o mar vermelho; mais do que escrevê-la, notá-la só agora, preciso fazer com que aconteça no exato instante em que ela me surge, em que ela se dá, não se trata do destino da humanidade, se trata de um quarto, ela, eu, terça-feira – algo que a gente sabe que respira.
Foi Heráclito quem disse que um homem nunca se banha duas vezes num mesmo rio porque nunca é o mesmo homem e nunca é o mesmo rio. Quando escrevo sobre algo que vivi não sou o mesmo homem que o viveu porque escrever não é experimentar tudo de novo como o antes desconhecido; escrever é julgar, é selecionar, é trazer à tona ou condenar ao limbo – e a vida não, a vida é isto, nada além deste segundo, desta palavra que você acaba de ler, disto que você acabou de pensar, deste rio em que agora você se banha, deste rio em que você nunca mais vai se banhar, desta pessoa que você se torna, desta que deixa de ser. Você pode me dizer o nome mas não revelar do que se trata, o que esta semana trouxe de novo para o que já tínhamos, o que ela apagou, revolucionou, rompeu, o livro que você leu, o livro que não foi até o fim, o que é sólido e o que é só fumaça. Cada idéia por mais louca, porque ela lhe ocorreu, porque você resolveu não correr atrás. Foto de Jane Eyre Piego.
Quinta-feira, 13 de Março de 2008
em alguma daquelas janelas
Voltou a chover; levanto-me, caminho até à janela; cruzo os braços, aconchegando os seios; acariciando-me, abraçando-me, acompanhando-me. E olho: prédios com janelas, quantas janelas; possibilidades. Olho as janelas do outro lado da rua, pergunto-me se em alguma delas alguém olhará a minha janela; gostava que sim: que me espreitassem, me imaginassem uma vida, me fantasiassem. Alguém que me amasse durante um breve momento, e depois desaparecesse sem sequer revelar um nome; alguém que me surpreendesse a alma, e depois sorrisse; alguém que me compreendesse, e depois não sentisse necessidade de exibir essa compreensão; alguém que me acariciasse o cabelo, que o enrolasse nos dedos.Todas estas janelas: possibilidades; todas estas possibilidades: quimeras. Vou-as percorrendo com o olhar, uma a uma. À procura, nem sei o que procuro, só sei o que procuro disfarçar. Depois, distraio-me com a chuva. Sinto frio. Sinto cansaço. Percorro a sala, vagarosamente, em busca do maço de cigarros; muito tempo depois, desisto de procurar. Sento-me no sofá, deito-me; aconchego-me, fecho os olhos.
Lembro-me, de repente: ele levou os meus cigarros. Penso nele, por fim. Uma outra vez mais: quando já não consigo adiar mais, quando sou incapaz de inventar novas distrações, novas fugas. E revivo tudo, momento após momento. Quando chego ao fim, retorno ao início; detenho-me nos pormenores, disseco-os um a um. Invoco os toques, os sons, os cheiros. Saboreio. Sofro. Espero. Espero o quê? Nada de mais; espero que o tempo venha e me leve com ele – simples assim, suficiente jamais. Imagem: Edward Hopper, Eleven A.M., 1926.
“Em alguma daquelas janelas” assim como “No que estará pensando”, “O Velho Cinema” e “Ás quatro da manhã” – publicados anteriormente aqui neste blogue – faz parte de uma série de pequenos textos que escrevi inspirados nas telas do pintor norte-americano Edward Hopper cuja influência sobre este blogue não se limita a estes textos mas espalha-se pelos demais com maior ou menor intensidade e também pelas fotos que ilustram muitos deles.
Sábado, 1 de Março de 2008
carol sem explicação
Mas eu estava dançando até agora, você viu como eu parecia feliz? Queria que aquela música não parasse nunca porque existem festas demais eu sei mas é que entre uma e outra é como se eu não tivesse nada inteiro. Foi por isto que você me convidou e eu vim, não tem nada de especial naquela cama bagunçada, meu corpo não explica nada, é como ter sede e beber água, eu posso me levantar e sair andando como se não estivesse sangrando. Você é que acha que eu nunca vim aqui, eu já vim aqui milhões de vezes nos últimos meses, você é que não tinha essa barba nem tinha lido todos estes livros. Fui eu que permiti e não você quem me dobrou. Embora o gosto na boca seja o mesmo para ambos.
Pode ser que amanhã eu deite e role e que você me traga sua alma na bandeja. Não tenho certeza, não tenho certeza de mais nada, nem do que aconteceu nem do que vai acontecer. Eu só não queria que tivesse esses momentos em que tudo congela, a gente fica dividido entre milhões de coisas, será que me mando, será que consigo não levar um pouco de você comigo. Eu ficaria bem de personagem sua, você me controlaria, faria amor comigo em vez "disso" e eu suspiraria. Inventa um outro ritmo para mim, um outro cigarro do nada, faz mágica, qualquer truque que eu acredito, algo que não nos devolva ao mundo real depois que acaba. Não quero acordar e descobrir que é a vida. Foto: Julia Sweet, da série Hello Stranger, 2005.
Domingo, 24 de Fevereiro de 2008
não é só uma teoria de fim de noite
Não é só uma teoria de fim de noite, há segredos guardados em cada olhar, o mundo se move, as ruas se esvaziam, depois voltam a ficar agitadas, janelas se fecham, janelas se abrem, pessoas se escondem, outras saem para procurar. Gosto de estar vivo para poder sentir tudo isso, escrever é estar vivo, estou atento para tudo o que sabe provocar, sua boca e voz, o perfume que você usa, o que pensa sobre o mundo e quando parece que já nos conhecemos há séculos. Eu sei que não escapo sempre, tenho os meus momentos de apagar a luz e fazer silêncio como se não houvesse ninguém em casa, mas é só você bater na porta que eu deixo entrar.
Estou no meu tempo, estou na minha velocidade, pode ser que a vida não saia como se planeja, que o desejo seja só de um e não do outro mas assim como nem toda noite precisa ser de festa nem toda noite que não seja de festa precisa ser de falta de ar. Há o sonho que nos interessa e o sonho que nos obrigam a sonhar – precisa descobrir antes que seja tarde demais na direção de qual dos dois você está a caminhar. Alguns poemas são como que mapas, basta sensibilidade para enxergar e eu sei que você a tem, todo mundo tem uma palavra mágica que faz a pele arrepiar, demorou mas eu descobri qual é a sua. Quer que eu a diga de novo só para te provar? Foto: Renata Punk, Maitê, o cigarro e a lua, 2007.
Domingo, 17 de Fevereiro de 2008
era para ser um abraço esse golpe de karatê
Eu sempre retorno aos mesmos lugares (2)Gostaria de ter mais tempo para escolher as palavras certas, um bom escritor viveria disso, mas com o pouco que me resta só posso isto mesmo – convencê-la quem sabe a vir para mais perto, adoro mexer nos seus cabelos, o cheiro deles no travesseiro, você quer perguntar e não pergunta, só faço confundir mais a sua cabeça com as poucas coisas que confesso: “por que às vezes você me pega como se eu fosse urgente, fundamental na sua existência e em outras me olha como se nem soubesse meu nome, que jeito eu gosto que você faça?” (pareço ouvi-la dizer)
Não posso perder mais um único dia da minha vida já que não existe outra vida que não esta. Preciso assumir cada movimento, cada disparo, cada olhar que penetra fundo, cada amor que até onde eu saiba posso chama-lo assim. Porque vai tudo me escapando ao controle, dando voltas em torno de mim como se esperasse o melhor momento para dar o bote: sei o que plantei mas isto não significa que saiba o que me espera (alguém sabe?) – eu lhe dei de comer, ajudei a criar a fera, acho justo que chegue o dia em que você também não negocie, não faça qualquer concessão, que me deixe também só com o gostinho.
Ela quer entender tudo o que eu falo, descrevo com as mãos, mostro num livro, olha e presta atenção e quer entender bem mais ainda o porque de ser assim, de estar aqui, o que sente, o que acontece e porque às vezes é tão diferente, parece que é só viver. No mundo dela (assim como no de todo mundo) falta tanta coisa, mas ela gosta do que é possível, do que pode ter nas mãos, prender entre as pernas, levar para uma festa e apresentar aos amigos, daquilo inteligente que ela sabe que eu vou dizer e em onde termina. Não sei tudo o que se passa pela cabeça dela, sei o que preciso saber quando vem na minha direção, me interpreta com os olhos, não me deixa mais o que pensar. Foto: Renata Punk/ modelo: Maitê.
Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008
os mortos
como se fosse possívelEla me disse “estou morta” e que isto devia ter alguma importância para mim. Acho que ela queria me soltar, deixar meu corpo mais leve e que o tempo fizesse o resto. Os olhos eram os mesmos, a boca e o que ela sabia a meu respeito, tudo como na última vez que nada teve de especial, de diferente, porque não sabíamos que seria a última e eu pensei nas coisas que não disse aquele dia, em letras de música, poemas, tolices só nossas, filmes sem ninguém, fotografias que estão guardadas, a vida que existia e não existe mais.
A idéia de ser um fantasma não a agrada – "não quero assustar ninguém, fico escondida atrás da porta quando sei que tem crianças correndo pela casa, posso vê-las pelo vão, elas são lindas como eu imaginava que seriam”, foi o que ela me disse, depois mudou o tom, estava brava comigo, não quer que eu passe a tarde inteira lembrando-me de como era a sua voz, falou-me do sol lá fora que era o que ela mais gostava e sorriu comovida como se fosse possível senti-lo novamente queimando sua pele (“mas que pele?”, ela ri, acha graça daquilo, o que fazer?,chegou num estágio em que já suporta tudo, nada mais a ameaça, nada mais a convence do contrário). Não pense no que não teremos mais, pense no que tivemos, tão sábia. Eu queria que tudo se repetisse. "Não – me repreendendo – nada se repete exatamente como foi, você precisa ver como é do lado de fora de ‘nós dois’, contar-me algo que eu não sei. O mundo para mim ficou para trás, o que é novo precisa ser novo, não dá para ficar preenchendo o vazio justamente com aquilo que produziu esse vazio como você faz. Eu quero novidades nos seus olhos, na sua boca, nas suas palavras, o seu amor por mim eu já sei, já tive, provei, não precisa reafirma-lo a todo momento como se eu tivesse alguma dúvida"
Acho que ela ainda está por aqui, a vida é enorme e existem muitos corredores pelos quais jamais passei, portas que não forcei, chaves que não sei o que abrem, poemas que parei na metade, mulheres que fiquei de amar mais tarde, tanto ainda por ser escrito, mil livros. Todos os dias eu acordo ciente de que só existe uma chance e que a minha não é esta mulher que ao meu lado dorme, por mais que ela cuide para que tudo aconteça, saiba a hora de se aproximar e a hora de se afastar; por mais que ela seja linda, com um livro na mão procurando o melhor lugar; por mais que ela seja amiga, bebemos e rimos como se a festa não fosse acabar; por mais que ela se pareça tanto, que às vezes me lembro e desvio o olhar. Foto: Nelson Luís Abrahão, Casa Vazia, 2004.
Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008
sobre o que é a sua vida?
Sobre o que é a sua vida? De que assunto se trata? Eu perguntei porque estou curioso, estou sempre curioso, quero saber onde estou pisando, encontrar alguém e saber se estamos falando a mesma língua, se ela quer fugir ou se ela quer ficar mais um pouco. Eu sei que ninguém nunca pensa nisso, está tudo muito rápido, você sente que precisa estar em mil lugares ao mesmo tempo para experimentar tudo o que gostaria e sabe que está cada vez mais foda deixar um pouquinho que seja de você em cada pessoa que passa pela sua história, te olha nos olhos ou só beija sua boca ou apenas quis ser escritor depois de ler o mesmo livro – eu recomendo que tudo seja vivido, pelo menos o que tiver à mão, não são as viagens para longe que contam, mas o número de amigos que você sabe que pode ligar a qualquer hora. Não estou falando para uma festa, mas pode ser para uma festa, tanta coisa que a gente começa e não sabe como termina, não é mesmo?Já parou para pensar que você faz o mesmo caminho todos os dias e que coloca o relógio para despertar na mesma velha hora e que não raro vai para a cama com a cabeça e o corpo cheios de idéias quer elas tenham alguma chance ou não de acontecerem na ‘sua’ vida? É porque a gente sabe que é capaz de mais, de muito mais, e o mundo, no fim, só quer que você faça a sua parte, que faça a roda girar e morra depois, tudo tão simples e tudo tão feito para ser deste jeito que a gente acaba achando que escapar deve ser um delírio, uma utopia, que do outro lado do muro deve ser uma selva terrível. Mas e se o ‘seu’ Deus for bonzinho e não castigar porra nenhuma? De que vai adiantar ‘cê ficar se policiando? Eu só sei que eu estou pintando uma bandeira e que vou para a rua defendê-la, não tenho tempo para uma outra vida que não seja assim apaixonada. Aceitamos adesões.
Porque tudo é uma enorme possibilidade foi que eu me aproximei. Porque tudo pode ser dito de uma outra forma, pela gente mesmo, mais tarde, foi que eu deixei o meu ‘canto’, quis perguntar, quis saber porque não a conhecia ainda sendo você tão linda, sendo você tão capaz de me prender a atenção, de me tirar do chão. É porque a gente está sempre passando milhões de vezes pela ‘nossa’ turma no mundo e esquecendo de arriscar um “quais são os seus planos para os próximos vinte anos?” que parece que nada acontece, que o mais correto é andar na linha e esperar que tudo se providencie naturalmente, para que o restante da sociedade, os mais velhos, aprovem as nossas escolhas mesmo que nós não as aprovemos – “olha, eu estou dizendo que acho que a gente deve brigar por cada coisa que acreditamos mesmo que nos digam, insistam, que será inútil” e você me ouvia como se esperasse por aquilo há anos. E é porque é simples de dizer que eu dizia e não porque mudaria o mundo se eu dissesse. Foto: Renata Punk, Maitê My Love, 2007.
Domingo, 27 de Janeiro de 2008
de uma leveza insustentável
Já dormíamos juntos mas ainda não havíamos dado um nome àquilo. Como com muitas outras corria o risco de não sairmos disto. Nem discutir o assunto discutíamos. Ficava como estava. Estando bom para ambas as partes. O tempo se encarregaria do resto. Sua presença era delicada. Não me exigia nada além de uma cama. O melhor lugar para fazer. Nem sempre amor às vezes só bagunça. Fiz as contas de quantas noites ela tinha vindo no último mês. Ninguém mais do que ela. Encarei isto como um sinal.Chamei ela para uma conversa. Era para ser séria mas rimos gostoso. Queria fazê-la entender o que se passava ali entre nós. Achei que talvez lhe faltasse experiência para perceber como fluem certos amores. Nada melhor do que a insustentável leveza do ser. Perguntei se ela tinha lido. Já ouvira falar. Fui até a estante e apanhei o exemplar mais novo que havia. Abri numa página e li aquele que é meu trecho preferido só para lhe dar o gostinho: “...nunca se pode saber aquilo que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode nem compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-la nas vidas posteriores. Seria melhor ficar com Tereza ou continuar sozinho? Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo “esboço” não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro. Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vida é como não viver nunca.” Ela teve sede e quis mais. Dei a ela o livro de presente como costumo lhes dar.
Hoje depois de alguns dias de leitura, demorou duas semanas para devorá-lo, estava em fim de semestre na faculdade, o que explica sua pequena demora, ela me deixou um recado na mesa do café, quando acordei dela restava só seu cheiro, escrito a mão numa folha de caderno. Nele sua impressão sobre o que lera como se de um trabalho de escola se tratasse – e que reproduzo abaixo sem alterar uma vírgula:
Vejo-me em Praga, olhando os tanques russos que passam e destroem as minhas ilusões. Ali sou Tereza e Tomas é o meu amor. A minha paixão, o meu ciúme, a minha obsessão. Sou frágil e, no entanto, disposta a tudo por ele. Sinto-lhe nos cabelos o cheiro de outras mulheres. Para Tomas, cada mulher tem uma particularidade que o atrai. É a descoberta do que faz cada mulher única que o motiva. A ligação entre sexo e amor é, para ele, um paradoxo. Eu sei e adoeço de medo, de angústia de o perder.
Agora estou na Suíça, exilada, mas não sou Tereza. Ela está com Tomas em Zurique e eu em Genebra. Chamo-me Sabina e Tomas é o meu amante. Já o era em Praga. Sou livre, tenho opiniões muito minhas, não quero compromissos. Mantenho uma relação mais ou menos estável com Franz, casado com Marie Claude. Mas Tomas é especial. Parecido comigo, talvez. Até aparecer Tereza. Tomas e aquele chapéu-coco que guardo... ingredientes de encontros de que Tereza suspeita, sem ter certezas. Carrego comigo este gosto por seguir em frente sempre leve, sem carregar pesos de relações nem remorsos. Uma insustentável leveza.
Mais tarde... mais tarde serei novamente Tereza regressada ao meu país, sozinha. E Tomas virá atrás de mim, suportando uma vida sem horizontes, sem poder exercer sequer a sua profissão de médico. Terminado o seu gosto pela leveza, afogado no mar da minha ternura.
E no fim estarei numa aldeia escondida da Checoslováquia onde pensarei ter encontrado a paz, a felicidade. Com Tomas e Karenine (que afinal era cadela). A felicidade acaba com o fim trágico de que Sabina toma conhecimento, lá na América para onde seguiu, carregando a sua leveza.
Pensando bem, eu queria ter sido Tereza, Sabina e Tomas. Todos os matizes do amor passam no relacionamento deste triângulo.
Ela passou no teste. Algo que se dá entre aquele romance e ela no qual participo distante. Porque não quero influencia-la mais do que um beijo, simples, leve, ao deixa-la em casa depois de mais um dia de festa. Porque ela precisa entender porque veio, porque está aqui comigo e precisa entender porque parte, porque um dia não estará mais. Precisa viver tudo aquilo que sente, tantas coisas que nem sabe, as idéias que tem hoje, as que terá mais tarde. Daqui há alguns anos se pegará folheando o mesmo livro e se lembrará de tudo o que dissemos e vivemos entendendo que nada que extraímos de suas páginas é mais bonito do que aquilo que sentimos porque nossa história é sempre melhor do que aquelas que nos contam, apenas que, na maioria das vezes, não nos apercebemos disso. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: maíra.
Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008
outra noite
Ouço o som de passos. Espero a minha vez de ser resgatado. A cidade é enorme e milhões de coisas acontecem a todo instante, os jornais não ‘sabem’ nem a metade: o que se está apenas pensando, planejando, imaginando como será, é quase que tão mais vivo do que aquilo que se costuma ‘revelar’ – é o que alimenta os homens e os faz caminhar numa direção ou noutra. Há muitas pessoas que são exatamente como nós e outras completamente diferentes e todas estão sufocando, disfarçam como podem, mas estão sufocando. A felicidade é restrita. Chega-se muitas vezes na porta mas não se entra. É o que se conta sobre ela que vicia e não o gosto que ela tem que este ou nunca se sabe ou nunca se aprende suficientemente bem.Sei que é ela. No telefone, sua voz era desespero e paixão. Eu disse que aqui era uma grande bagunça mas ela quis vir arrumar mesmo assim. Estou há horas precisando de um trago, não há uma ´saída’ em toda a casa, foi tudo embora com a última festa. Ela era apenas mais uma mulher honesta que eu despia com os olhos antes de saber como é que era. Penso no quanto se está sozinho e se quer apenas conversar, saber que o outro está ali e pode nos escutar. Beijo, sexo, amor estão incluídos na ‘promessa’ mas não esgotam toda a história, existem pequenas dimensões que se abrem quando começamos a nos importar realmente: estou pensando naquela música quando toca, em pessoas se lembrando de coisas, rindo por terem vivido situações semelhantes, andado pelas mesmas ruas e como é excitante descobrir que se guarda segredos iguais.
Três batidas leves na porta. Podia usar a campainha mas isto despertaria uma atenção desnecessária. Ela não devia estar aqui mas veio – eu não deveria abrir mas deixei a porta somente encostada. Três batidas leves funcionam quase que como um código secreto – sei quem você é e sei o que você quer, você sabe quem eu sou e que quero o mesmo. Outra noite para suportarmos bem, encontrar o que precisamos e esquecer como as conseguimos. Venha, faça parte, tudo tem o seu encanto, o seu fim. Existe num segundo e no seguinte não existe mais. E que diferença faz? Não é pelo que conquistamos que lutamos mas pelo que almejamos conseguir. Foto: Nelson Luís Abrahão, Detetive, 2007.
Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008
pelo menos inventaram deus
para ela sabe quemPelo menos inventaram Deus quando não se tinha mais o que fazer. Já imaginou, meu amor, não ter para onde correr? Eu gosto Dele assim geladinho, é como se eu nascesse de novo. Depois do fim do mundo então... é perfeito. Nem me lembro mais nem quero lembrar nem sei do que eu estava falando. Não vou estar em todos os jornais por tão pouco, o que tem se gente rolou escada abaixo, se perdeu um dente da frente, se todos os vizinhos estão comentando, se eu não chegar aos vinte-e-sete. O que existe para viver depois dos vinte-e-sete que eu não posso ‘dizer que é uma grande bobagem’ agora?
Todo mundo se acha grande coisa, mas eu não ligo, meu amor, pro que vão pensar, tenho sentado e conversado, me comportado quando acho que devo, falado alto se pisam no meu calo, ninguém me ensinou de outro jeito, nem a consciência tem alugado minha orelha com aquele seu papo de velho, sou paciente até demais com os imbecis, este talvez seja o meu único defeito, de resto sou uma pessoa perfeitamente normal, mas não estou pedindo que comecem uma nova religião por minha causa, já tem umas trocentas vendendo seu peixe por aí não adiantado de nada, pra que mais uma para tirar dinheiro dos pobres coitados? – eu por mim me estrepava e ia dormir depois, na manhã seguinte era só escovar os dentes e pronto. Devia ter uma empresa que apagasse todos os vestígios da sua vida depois como naquele filme “Eles Matam e Nós Limpamos” que peguei madrugada dessas na sessão coruja. Eu seria cliente preferencial, ganharia até brinde no natal, aqueles chaveirinhos toscos que você perde no mesmo dia que lhe dão.
Durante um tempo vão falar de mim pelas costas, blá blá blá, como se eu não estivesse acostumado a ser pego para cristo e como ele ressuscitar depois de três dias, não tem um santo nesse prédio, meu amor, e todo mundo achando que o lugar deles no céu ´tá garantido. Vão nessa. Eu pelo menos não acho que homossexualismo é doença nem que preto não pode casar com a minha filha, não olho por cima de ninguém porque ‘estudei’ nem fico puxando o saco do rei, eu sento no chão mesmo, faço amigos e digo o que estou pensando, beijo e trago para a minha cama, rodo porque o mundo está rodando, quem quiser me julgar que pinte os cabelos de verde primeiro. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: maria rita.
Domingo, 13 de Janeiro de 2008
depois dela
Você acredita realmente que sabe do que está falando quando diz Eu? Ora, você não faz nem idéia do quanto perde achando que se conhece bem. O que eu quero explicar é que somos capazes de milhares de coisas que nem sabemos e eu quis dizer isso tudo a você, quis dizer que você muda o mundo de um cara se quiser só pelo modo como prende o cigarro entre os dedos e olha por cima dos ombros fingindo que não sabe o que está fazendo quando pergunta "você tem fogo". Depois dela um homem aprende a separar as mulheres de verdade da idéia que ele faz do que seja uma mulher de verdade. Ela é uma.
Juro que eu não precisava estar chacoalhando você pelos ombros, dizendo acorda, parte pra cima, era algo que você já devia saber quando escolheu este vestido este salto. De onde vem toda esta inocência a respeito de si mesma? Com quem você andou conversando até agora? Na certa com esses caras que acham que tudo se resolve pagando-lhe um drinque, dando uma carona. Faça da sua vida o que quiser – quem sou eu para encaminhar ou desencaminhar alguém? – mas saiba que você pode palitar os dentes com estes tipos que nem se dão conta de que Deus pode ter beijado a boca deles esta noite.
Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008
continua de onde paramos
Todas as explicações são boas, o prazer está em formula-las, o prazer está em ouvi-las, sua voz, a minha, conversamos. Sobre tudo e ficamos horas perdidos naquele canto do restaurante, uma garrafa de vinho a nos fazer companhia, já não bebemos, já não nos importa tanto, estamos em uma paris que não existe mais, aquela dos filmes preto e branco, somos personagens à revelia, idéias que fazemos um do outro quando estamos nos apaixonando.Você me interessa porque tem dúvidas e eu lhe atraio porque ajudo a resolvê-las, não tenho o gabarito com as respostas, nem acho que as perguntas que tem se feito são as mais importantes, apenas respeito seu receio e sua ansiedade. O caminho é longo e você pelo menos já sabe onde está pisando, seu olhar mira o horizonte imaginando e eu que já estive lá e sei que não é daquela cor nada conto, nada revelo. Podia protegê-la do ‘seu’ destino mas isto seria impedi-la de ser você mesma, não quero você à minha imagem e semelhança, prefiro que só eu durma com um barulho desses.
Daqui há alguns anos meu poema para você será só um pedaço de papel, acontece com todo mundo, um dia a vida que você queria e que de certa forma aquele poema representava perde a força, desbota; é quando aquela vida que você aceita porque entendeu que não pode vencê-la toma conta em definitivo dos seus sonhos e passos. Enquanto isso não acontece, enquanto o mundo não lhe devora, deixe que eu ‘minta’ um pouco sobre o amor, depois eu também vou embora, quero ser vital no minuto de agora, não sou tão ambicioso a ponto de exigir eternidade do que não passa de um piscar de olhos no Tempo. É que eu ainda não me curvei, não sei mais do que isto, nos meus bolsos gavetas guardo poemas poemas poemas nenhum pedaço de papel – tudo que me disseram, o carinho que me fizeram, amor e como mais quiser chamar não perdeu sua força, nem desbotou, colore ainda meus sonhos e passos, me faz caminhar. Foto: Julia Sweet, Vista Rosa, 2007.
Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008
apenas isto
É verdade, eu poderia ser qualquer homem, qual não gostaria de saber o que só eu sei agora?, mas você também poderia ser qualquer mulher, conheço algumas a esta hora da noite, mas não é quem poderíamos ser nem com quem poderíamos estar que conta nesta hora – mas o jogo que nos deixamos jogar e se assim o fizemos tem a ver com o frio que faz lá fora, com a dificuldade que temos de pronunciar certas palavras, tem a ver com nossos corpos e como eles ardem e até com algumas ilusões que preservamos apesar de tudo o que já descobrimos a respeito delas, tem a ver com não sabermos enfrentar nossa solidão de outra forma. Precisamos deste beijo, deste abraço que diz ‘tudo bem, estou aqui com você’, fazermos amor e conversarmos sobre a cor dos seus olhos o meu cabelo bagunçado.
Estamos sempre falando de um paraíso que não existe, de uma idéia errada de paraíso mais do que tudo. Estamos sempre querendo que isto se transforme em algo que não é, talvez mais fácil de controlar, queremos que a certeza se instale por decreto, que caia do céu e seja abençoado, pulamos a parte do suado, do sangrado, do chorado, não respeitamos mais o que há de belo de necessário em ainda se poder cometer erros; em sabermos que o mundo não acaba por tão pouco; em sentirmos que não importa que o outro não nos entenda por completo; em termos consciência de que ferimos mesmo quando não queremos; em estarmos aqui, você, eu, sem que isso precise ter um nome, um fim, um objetivo maior do que dizer, ouvir, tocar, sentir. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Duda.
ano dois
De um ano para o outro salta aos olhos como nada realmente muda, encontramos tudo como deixamos, o vinho aberto sobre a pia da cozinha, duas taças fazendo-lhe companhia. O que fazer se não despejar o restante pelo ralo? Adeus seu gosto amargo. Abro a torneira, um jato forte e nem sombra mais do líquido vermelho. Arregaço as mangas, passo uma água nas taças, numa delas marca de batom, lembro do brinde que fizemos, o que desejamos para 2008, onde acabamos naquela noite, esboço um sorriso.Algumas coisas estão fora do seu lugar, outras ainda não têm um lugar, como a tela que ganhei de natal da Cris, um de seus melhores trabalhos, uma bailarina no meio de uma noite verde-clara, não exatamente uma bailarina, apenas o contorno de seu rodopio, agrada-me o detalhe de duas pequenas estrelas no canto direito acima. Todo ano ela me presenteia com algo seu, nas velhas paredes ela é a única artista em exposição, o resto são cartazes de filmes e posters de velhas atrizes, se ela estourar meus herdeiros estarão feitos, sou dono de uma pequena parcela importante da sua obra: daquela feita por amor.
Outra coisa típica de começo de ano é passar as informações da agenda antiga para a agenda nova. Tenho uma mania, escolho aleatoriamente alguns dias do ano e rabisco pequenos compromissos para comigo mesmo, do tipo ir ao cinema, convida-la para jantar, enviar flores, beber com os amigos, reconheço que nem sempre os cumpro a risca mas deixo sempre a possibilidade no ar. A agenda é um hábito novo, nela anoto de tudo, preço de coisas, poemas em estado embrionário, nomes de livros que preciso procurar, telefones de mulheres acompanhados de asteriscos significando a urgência com que devo ligar de volta, restaurantes de que me falaram bem, um vinho do qual li a respeito, datas de aniversário que nao posso esquecer de jeito nenhum, nomes para a minha lista negra, etc. Feito o serviço percebo que o ano é novo... mas a vida é velha. Foto: Maria Eduarda, Um gole de vinho, 2007.
Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007
em cheio
De que adianta começar algo se fica-se sempre pelo caminho. Agora eu sou diferente mas daqui há alguns meses eu vou ser igual a todos os homens que você já conheceu: os mesmos defeitos, a mesma necessidade de se sentir superior. E você? Você que é linda. Saiba que eu já menti para mulheres como você e que eu faço isto muito bem: com rosas e rimas. Se faz sentido para você senta e bebe comigo, depois não vá dizer que eu não fui seu amigo.
O meu coração? O meu coração dura só uma noite depois fica proibido de se misturar. É porque eu já morri e você não sabe a dor que é deixar alguém para trás. A pessoa quer correr na sua direção mas não tem mais direção, quer sentir o seu cheiro e é outro o perfume, não quero fazer o mesmo contigo, pareço cruel mas só lhe desejo o bem, por isto apago todo e qualquer vestígio. Meu nome? O meu nome é ninguém. Imagem: Natalie Portman em cena do filme “Closer”(2004, Mike Nichols)
Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007
efeito bumerangue
Não sonho mais. Sei como tudo funciona. Você entra, conversamos pouco, não quero saber, você também não quer saber, já não fazemos planos, parece que apenas adiamos algo importante que precisamos dizer um ao outro, não sabemos o que, até acho que sabemos mas não por onde começar, depois esquecemos tudo o que estamos vivendo fora dali e fazemos amor, é leve, é bom, é o que salva, você me abraça, o dia me soa estranhamente inesquecivel, seu telefone toca, eu brigo, não brigo mais, você tem que ir embora, não temos mais tanto tempo, esta noite sonhei que tinhamos um filho, queria falar, não quero mais falar sobre aquilo, estou caminhando nua pela avenida mais movimentada da cidade, não estou caminhando mais, ninguém me olha, ninguém mais sabe que eu existo, você tem pressa, eu quero que fique mais um pouco, não não quero que fique nem mais um minuto, nunca mais quero vê-lo, você não me conta mais do seu livro, da minha personagem, não sei se um dia me reconhecerei nele, não sei se um dia me reconhecerei em você, nos presentes, nas cores que gosto, você me beija, não tenho mais forças, agarro seu braço, não agarro braço algum, você sai, fecha a porta.
Estou de volta, estou de volta ao meu cabelo despenteado, ao meu infinito, à minha lista de compras, ao meu silêncio, ao meu cigarro, à esta cidade dos infernos, ao barulho dos carros, ao meu livro de cabeceira, meus comprimidos, meu corpo cansado, minhas teses, minhas olheiras. Estou de volta à vida mas não é a vida, é apenas uma espera até que você entre por aquela porta, entre diferente, entre como era, quando era um risco se apaixonar, quando havia aquela música que eu não podia escutar, quando o que eu mais queria era rabiscar nos muros da cidade o nosso segredo, os mais sagrados.
Estendo a mão, alcanço o seu copo, quase que instintivamente, sem saber o que faço, sem saber direito o que tenho nas mãos, aproximo o copo das narinas, sinto o cheiro da sua boca, do resto de vinho, você pediu do mais caro, tenho saudade dos vinhos baratos, do dinheiro contado, da sua falta de regras, dos poemas que me escrevia na pele, dos medos que tinha, do sorriso que me dava – por mais que eu estique o braço não alcanço mais você, a idéia que eu fazia de você, de poeta irresponsável que eu repreendia, por que não podia ser igual a todos os homens era o que eu repetia, você não devia ter me ouvido, devia ter deixado a barba, devia ter ligado o rádio, devia ter recusado aquele emprego, devia ter desistido, mas não, você não fez nada disso, seguiu com o meu plano, com o seu plano diabólico, apenas para me esfregar na cara que fez tudo o que eu queria. Era a sua colaboração com o nosso amor, era o seu sacrifício. Acho que somos ambiciosos demais, não acreditamos que tudo está perfeito mesmo quando está, a felicidade é sempre algo inatingivel, o amor impossível, o outro apenas uma resposta aos nossos anseios, sei que é a sua cara isto, vai transformar este meu desconforto num texto tão bonito que eu vou querer matar você depois de ler, querer matar por me invadir deste jeito, por roubar o que me é tão íntimo. Você é um ladrão, sr. Ricardo, é isto o que você é – e do pior tipo. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Duda.
Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007
guardada comigo
para você janeGosto de guardar o que vivi. Mas às vezes preciso rasgar tudo, mentir sobre tudo, mudar de idéia. Tenho fechado em meus olhos um álbum de fotos que nunca revelei: nele mulheres que só eu sei com aquela luz e os poemas que pensei e não disse – não disse ainda ou nunca direi. Seria inútil dizê-los, ninguém sentirá a mesma felicidade percorrendo o seu corpo nem entenderá o amor mais do que eu. Ficará em mim como uma melodia, canção que talvez assobie sem saber para quem a compus.
Depois que ela saiu fiz algumas anotações. Quero dar-lhe um nome novo para que daqui há alguns anos ninguém saiba do que se trata. Nem ela saberá se foi de um filme ou de sua juventude. Todos contarão histórias maravilhosas, ela guardará as que sabe para algumas noites só dela, depois de um livro e apagar a luz. Será que é real depois que acaba? Ou o sonho é um outro modo de experimentar? Seu perfume em outras mulheres não é seu perfume, sou eu querendo acreditar. Eu inventei seu perfume – depois de alguns anos me esqueci como era. Ela não é você nem nunca será. Não posso sacrificá-la, tenho que deixá-la respirar. Serei rude, grosseiro, direi que não me importo, será mais fácil se ela me odiar. É para o bem dela que afio minhas garras.
Hoje eu não quero lembrar, vou fazer uma fogueira, há muitos nomes na minha boca que já não sei pronunciar, números de telefone, longas cartas, passagens secretas e promessas que fiz e não cumpri. Na minha vida outra ocupa o seu lugar até que outra venha ocupar e assim eu passo a impressão de que estou seguindo em frente fazendo a roda girar. Este ano bati o meu recorde e não tenho o que comemorar. Contarei vantagem mas será só para disfarçar. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Melissa
Domingo, 9 de Dezembro de 2007
vampiro cotidiano
“...as pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem há o que são e nem sempre se mostra...” (de Caio Fernando Abreu, em Morangos Mofados)A gente tem fome. Vive-se bem com uma desculpa dessas. Quantas vezes eu já não a usei – quantas vezes você já não a usou. Eu assinei e você também assinou: “adeus à inocência”, dizia o contrato e nem era nas letras pequenas. Quando a gente diz não soa cruel mas quando é o outro que joga isto na nossa cara a gente percebe o quanto tem somente se arrastado de um lado para o outro em busca de “alimento”. Não é uma questão de se vender barato. Olha ao seu redor, nem precisa ter critérios muito rigorosos, as últimas safras não são das melhores. É pegar ou largar. Eu pego mas não vejo a hora de largar, enquanto isto brinco o jogo como se não conhecesse suas regras, como se não fosse responsável pelo seu conteúdo, como se não soubesse que tem volta.
Eu mordo, mastigo bem, a carne é dura, a idéia é que é macia. Sei que com o gosto “dela” nunca mais, por isto não me arrependo se cuspo fora depois, vá corromper outro eu digo. Eu falo mas só ajudo a espalhar o veneno – condeno, protesto, mas faço parte da mesma epidemia, todo mundo faz, acho que é tarde demais. Isto tudo que você chama de Ricardo Pereira é só nostalgia romântica. No íntimo eu sou um vira-lata. Vida-poema é só um nome mais elegante para vida-barata. Literatura do vivido? Vive-se e morre-se disso – esta a grande verdade. Não tem mais nada que eu não saiba e isto que chamam de experiência, de sabedoria, não tem a menor graça. Daria tudo para ser passado para trás pelo velho e idiota amor – logo eu que comecei a fogueira. Tive meus motivos, afinal quem entre vocês pode me dizer que sabe o quão profundo o seu punhal pode nos rasgar? Eu sei, eu tenho toda a resposta que eu preciso... para mim eu sou o único Deus, para mim eu sou todos os parâmetros, para mim eu sou todos as teorias na carne...
Agora eu quero nascer de novo e não consigo. Eu não vejo o azul que é o mar eu apenas prevejo os perigos. Eu sei o que me espera desde já por isto entro na selva mais violento que qualquer fera de lá. Eu devia estar nu, puro, o bom selvagem, como vim ao mundo (mas estou armado até os dentes, pintado para a guerra, o próprio homem-bomba) para que quando falasse em “amor” novamente pensasse em algo que não sei como funciona, como se pronuncia nem quanto tempo dura, porque é só assim que ele pode ser – enquanto isto não reinicia em mim só faço enganar o estômago com tudo o que é fast-food. Foto: Ricardo Pereira/modelo: Maíra pagando de vampira.
Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007
no que estará pensando
Não me sobrou muito. Meu corpo está triste e minhas idéias mais loucas sossegaram todas em minha cabeça, estou cansada de uma certa ausência de sentido para tudo o que vivo: pago minhas contas, sorrio nas festas, faço número na multidão – o que me ‘alegra’ é saber que ninguém escapa, ninguém que seja de verdade, ninguém que precise comer, sobreviver, morrer um dia. O mundo, claro, ainda me atrai, há ruas e homens que ainda não conheço e sei o que tudo isso significa quando a gente fica pensando assim por mais de dez minutos. Todo mundo já quis estar em outra vida que não a sua, não venha me dizer o contrário, lê aquelas revistas coloridas sobre princesas, mulheres altas e como ser igual a elas, eu deveria estar pensando em outra coisa – que hoje é domingo e posso ficar na cama até mais tarde.Por que criaram essa ‘fantasia’ toda de felicidade eu me pergunto. Para que fossemos ao cinema e desejássemos a morte por sermos reais demais? Não tenho a segurança dos deuses que controlam tudo da janela de seus apartamentos. Eu sou uma personagem secundária, todo o filme é ali na minha frente, eu sequer tenho falas, entro muda e saio calada, mas aqui entre as minhas pernas eu me caso com cary grant. O telefone nunca toca. Se muito é engano. Querem me vender um plano de saúde. Eu digo que estou morta e é tarde demais. Os russos nos prometeram uma bomba. Aguardo ansiosa. Tudo podia ser bonito. Eu teria pincéis e desenharia, teria amigos que não perguntam simplesmente as horas, bobagens lindas quando ditas numa língua estrangeira. No outro dia eu não voltaria à vida, a vida de todo-o-dia, correta, direta, inflexível – ficaria lá naquela xangri-la, encontrariam-me numa banheira nua e especulariam sobre meus amantes: qual deles não teria suportado me ver nos braços de outro homem? Meu livro seria um escândalo, tudo falso mas rico em detalhes. Não precisaria escrever uma linha – alguém faria isto por mim – escritores vendem a alma fácil.
O sol insiste. Entra pela manhã. Procura meu corpo. Aquece, invade. É só o sol e nada mais está acontecendo que não seja o sol. Daqui a pouco ouvirei música. Virá do rádio. Alguma cantora triste, negra, gostaria de ter um nome francês como o dela. Falará de amor como eu imagino que seja amor, como me disseram que é amor, nada a ver com sujeitos que lhe pagam bebidas. Em seguida, escutarei homens ruidosos. Não estarão vivos por minha causa. Agitam-se numa construção próxima. Mais um arranha-céu nesta cidade que não para de crescer sobre mim. Desta vez se erguerá bem em frente à minha janela. Minha única janela. Bem em frente ao ‘meu’ sol. Meu único amante cativo. Daqui há pouco nem o sol... nem o sol para me ‘aquecer’. Imagem: Edward Hooper, Morning Sun, 1952.
“No que estará pensando” vem se juntar a “O Velho Cinema” e “Às quatro da manhã”, publicados anteriormente aqui neste blogue – todos fazem parte de uma série de pequenos textos que escrevi inspirados nas telas do pintor norte-americano Edward Hooper cuja influência sobre este blogue não se limita a estes textos mas espalha-se pelos demais com maior ou menor intensidade e também pelas fotos que ilustram muitos deles.
Sábado, 24 de Novembro de 2007
serpente
O mundo ao nosso redor fica nos exigindo coisas: culpa, família, uma certa estabilidade... mas e os furacões, as tempestades, as paixões que não estavam previstas? Sobe-se o vidro? Passa-se o trinco? Corta-se o membro fora? Perambulo por esta sua cidade-fantasma, todos estão mortos eu sei cumprindo o seu belo destino – eu quero um capítulo novo para o meu livro, ávida a VIDA me exige isto, a vida com letras maiúsculas da qual muito se fala mas pouco se experimenta na boca, o gosto e a violência com que nos arrebata, não se tem mais tempo para isto, apenas ocupa-se de viver mecanicamente, acreditando-se na sabedoria dos velhos, no interesse da ordem, na roupa nova do rei, na cura da loucura.
Inteiro – é só assim que se entra. Não há volta nem remendo. Amor só para quem agüenta. Não há só o lado delicado, quem não descobriu isto ainda é porque até agora não foi além das velhas brincadeiras de criança. O que não falta é maça na árvore do conhecimento – que tal uma torta? O paraíso que se dane, o céu, a eternidade. O que faríamos para todo o sempre? Cantaríamos louvores? Seríamos anjos panacas de branco? Ah eu quero mais é rolar na grama contigo e pouco me importa que Deus ‘tá vendo. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Duda.
Domingo, 18 de Novembro de 2007
eu sempre retorno aos mesmos lugares

Eu sempre retorno aos mesmos lugares. Talvez isto explique porque conheça seu corpo tão bem mas também isto não vem ao caso, afinal, não é de você que estou falando mas de mim. “Será?”, você me pergunta com aquele brilho nos olhos de quem sabe que venceu mais uma. Então a questão que devo me fazer é outra: até que ponto é possível me separar de você e contar única e exclusivamente a ‘minha’ história? De você e de todas as outras? Porque já que tocamos no assunto não vamos esquecer ninguém.
Estava jogando umas coisas fora, sonhando o que poderia ter sido, é o que eu faço quando o tempo muda, o frio nos torna mais introspectivos, a bru é linda mas também é muito jovem não entende bem isto, prefiro que ela fique na sala ouvindo seu mp3 enquanto ‘dialogo contigo’. Foi só eu dizer o nome dela para você querer levantar e ir embora, dizendo que eu mudei a regra do jogo com ele em andamento, estávamos indo tão bem (sua vida já estava entrando dentro da minha), apesar de considerar justa a sua reação eu peço que fique, somos velhos amigos, não há mais segredos entre nós, já namoramos em todos os cantos da casa. Eu sempre retorno aos mesmos lugares, lembro da frase enquanto a ‘seguro’ pelo braço. Agora está chovendo onde a gente fez planos. Nada, de certa forma, saiu como planejamos. Mas quando importava, nos dias em que sonhamos, serviu para nos aquecer e a vida parecer completa e definitiva. Foto: Ricardo Pereira, Cris Tempestade, 2002.
Segunda-feira, 12 de Novembro de 2007
o teatro trágico
O que viveremos agora se tudo já foi tentado? Não faz mais sentido chorar, sangrar, morrer, tudo é uma histeria dos fracos. Eu sou aos trancos e barrancos o último romântico desta companhia de teatro que é o cotidiano. Você é linda com seus poderes sobre mim, as palavras certas, o corpo que esquenta, a armadilha bem feita é o outro nome que dou ao amor. Experimento de tudo, o que quiser me dar, até o fim, como um rei no seu paraíso.A gente está cansado, prefere não lutar, deixar que tudo aconteça naturalmente – sem regar nenhum fruto brotará da semente, mas a gente não se convence disso, nos sentimos deuses, superiores, senhores do destino, no lugar de poesia damos ordens: “abra a perna para que eu entre” e o mundo vai perdendo o que é sagrado, foram anos de batalha até aqui e agora que conquistamos dizemos que é lixo depois que usamos no máximo duas vezes, na terceira já perdeu a graça, já não nos faz nenhum favor, já é um saco.
Antes éramos a exceção, agora viramos a regra, abrimos a porta mas só até a metade, não há mais entrega, conversamos e rimos da dor, nossa fome nunca que cessa, cada vez mais e mais precisamos desta sensação de que pertencemos a alguém de que alguém nos pertence, a sensação é tudo o que nos resta porque daqui a pouco será outra festa, outra cama, outra obscenidade no ouvido, outro crime a ser cometido, assassine para não ser assassinado. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Line
Domingo, 4 de Novembro de 2007
amor
Ao olhar o seu corpo junto ao meu – e eu sou este homem aqui, à espera, descentrado na fotografia – sabe que mais um dia passou, e que será também num dia como o de hoje que sentirá o meu membro ereto a invadir-lhe a vagina e a deliciar-se, molhado, na sua abundante excitação. Ao pensar nisso, provavelmente, só um suspiro, ainda mais alongado, se solta de entre os seus lábios mordidos.
Ao olhar o seu corpo nesta cama por fazer – e esta cama é apenas o que resta de todo o sexo apaixonado que fizemos de manhã – imagina que muitas outras manhãs, tardes e noites se seguirão com os nossos cheiros integrando-se num só perfume. Imagina também que o poder de dois corpos, de duas almas que se querem e se perseguem, dificilmente pode ser quebrado quando reunido assim, intensamente, e provavelmente terá toda a razão. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Bruna S.
Sábado, 27 de Outubro de 2007
coisa de minutos

Lá estava você a examinar os livros, um pouco curiosa, um pouco enfadada; sondava demoradamente, por vezes apanhava um, abria ao acaso, lia umas frases, espreitava a etiqueta com o preço, pousava de volta. Não parecia procurar algo em particular; talvez estivesse apenas a matar o tempo, ou aguardava a chegada de alguém; ou talvez esperasse ser surpreendida por algum dos livros, talvez esperasse ser subitamente arrebatada por umas linhas lidas ao acaso, sussurradas pelo destino. Fui olhando, com curiosidade; espiando. Começando a gostar de você.
Havia muitas pessoas entre nós, conversas e risos: e você completamente indiferente, alheia; mesmo quando alguém passava junto de você e a tocava, não olhava. Pegava os livros, simplesmente; sem reverência, sem aquela devoção aflitiva que alguns desesperados dedicam aos livros. Por vezes, esticava o braço para pegar um livro mais distante e a manga da camiseta subia, revelando uma pequena tatuagem. Vira-a diversas vezes, sentindo-me desagradado: surpreende-me que mulheres bonitas deteriorem o seu corpo com manchas de tinta, com pedaços de metal, que escondam metade do rosto com ridículos óculos escuros, que segurem um cigarro entre os dedos convencidas de que isso é um gesto de sedução. Estive quase a afastar-me, decepcionado, quase vencido pelos meus preconceitos. Mas entretanto percebi que você se afastava, levando um livro na mão. E a segui, impelido pela curiosidade de descobrir qual fora, afinal, a sua escolha.
Dirigia-se para o espaço dedicado a música, onde caminhava entre as prateleiras, pegavas alguns CD's, conferia as promoções. Consegui então identificar a capa do livro que segurava; e não me decepcionara. De novo curioso, de novo seduzido, estudei você com mais atenção; a saia solta, revelando joelhos magros; a camiseta justa, delineando os seios; um cinto coberto de brilhantes; pulseiras, anéis; elegância cuidada, sedução discreta. Fui imaginando um quarto vasto e elegante, coberto de sol; e você nua, escolhendo cada peça de roupa, cada acessório; preparando-se para enfrentar o mundo, discreta e bela.
Apanhou um CD e procurou onde escutá-lo, permaneceu alguns minutos ouvindo o teu CD, dançando quase que imperceptivelmente. Depois, juntou-o ao livro e se afastou em direção ao caixa. Saia a balouçar, tilintar de pulseiras, cabeça erguida, passos firmes. Fiquei a olhar, enquanto se afastava: memorizando o seu corpo. Despedindo-me.
Corri para o fone de ouvido que ocupara, onde a sua seleção ainda estava ativa; fiquei ali ouvindo, sentindo a volúpia de estar a ser tocado por um objeto que acabara de ser tocado por você. E aí permaneci muito tempo, sentindo você através dos fones de ouvido, tocando você (recebendo o seu toque) através daqueles fones. Pensando que há sempre intermediários, há sempre mediadores que nos unem mas, simultaneamente, impedem a entrega total; porque tudo o que nos aproxima de alguém pode representar, também, uma última defesa, uma derradeira possibilidade de fuga, de adiamento, de suspensão. Como os corpos: permitem que os usemos para concretizar o amor que sentimos pelo outro, para satisfazer o desejo que sentimos pelo outro; mas são precisamente os corpos que nos impedem de alcançar o amor pleno, o amor além-corpo que secretamente ambicionamos, o amor utópico que deveria existir para além do corpo, da morte, do tempo. O amor infinito. Apertei os fones contra as orelhas e fechei os olhos. Pensando: tranqüiliza-nos saber que nunca seremos totalmente de alguém; mas entristece-nos saber que aqueles que amamos nunca serão totalmente nossos.
Antes tinha fantasias normais. Olharia você e imaginaria como seria afastar o vestido e lamber seu mamilo, imaginaria a sua textura, o seu sabor, a sua consistência, a sua elasticidade; imaginaria os seus suspiros, os seus gemidos, os seus silêncios; imaginaria que me apertaria contra você, talvez com violência, talvez com impaciência, talvez com ternura. Imaginaria a suavidade das suas coxas, a firmeza das suas nádegas. Imaginaria a sua roupa íntima, imaginaria se seriam fáceis de despir. Imaginaria como seriam os seus pêlos púbicos, se seriam incomodativos quando beijasse o seu sexo. Imaginaria como seria foder você no banco traseiro de um carro parado no estacionamento subterrâneo do shopping. Imaginaria o seu sorriso, no fim. Antes. Agora, cansei-me de fantasias que jamais se concretizarão. Olho alguma mulher bonita, como você, e imagino como se chamará. Nada mais.
Acabei por comprar o mesmo CD, o mesmo livro. Não voltei a ouvir o CD e o livro desinteressou-me completamente a partir da vigésima linha. Mas ambos me lembram que você existe, em algum lugar. Uma pessoa concreta. Uma possibilidade: tocamo-nos, por momentos, unidos por aqueles fones; e poderia ter acontecido, pode sempre acontecer mais qualquer coisa. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Mirela.
Terça-feira, 23 de Outubro de 2007
já estivemos aqui antes

Espero só a hora certa para lhe dizer que não existe outra chance para além de nós – estamos condenados: nosso amor (que amor?, eu me lembro de ter zombado) é como uma velha cama conhecida confortável aconchegante para repousarmos nossos corpos cansados – cansados de tudo que apostamos e deu errado. Lá fora não há mais esperança para nós porcarias de românticos envenenados, fomos exterminados – só um exército de zumbis esfomeados. Eu não quero mais só carne, eu quero o que tenha sabor.
Você me olha com aquela expressão de quem já não se impressiona mais com a minha poesia barata (foi este o termo que você usou não foi? Está tudo bem, está perdoada, eu admito: é barata mesmo) mas quer adoraria muito se impressionar: se não estivessem todas as luzes acesas podia até chorar. Certo, a culpa não deixa de ser minha, eu já fui mais convincente mas depois que a gente repete esta ladainha troçentas vezes fica difícil soar convincente: por mais que tenham sido troçentas vezes do fundo do coração – acho que sou o único que ainda acredita. Você preferia, então, que eu não tivesse dito nada, se quero fazer amor me diria vem que faremos, amanhã acordaremos como se tudo fosse eterno novamente: não é assim que sempre fazemos? – me oferece um lugar embaixo do lençol e eu me deito. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Bruna S.
Terça-feira, 16 de Outubro de 2007
noites-brincando
“...Se eu morrer não chore não/ é só a Lua/ é seu vestido cor de maravilha nua/ Ainda moro nesta mesma rua/ como vai você?/ você vem ou será que é tarde demais?...”(de Lô Borges e Márcio Borges, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo)A gente é outro à luz do dia. Você ainda se permite ser um pouco mais maluca: faz caras e bocas na eca – mas eu ainda preciso fazer a barba e vestir algo mais para o cinza: ainda não cheguei na parte do curso em que ensino o uivo de allen ginsberg. Lembra como você tirou toda a roupa depois daquela aula? Eu estou queimando desde aquele dia.
Está tudo na minha boca, está tudo na minha pele e se fecho os olhos vejo sua dança selvagem. Nosso filme caseiro. Achei melhor não perguntar se voltamos ou se foi apenas um final de semana. Não me parece o mais importante agora. Gosto destes lances esporádicos que não estavam previstos. Guardei um pouco de você só para mim. Todo dia eu abro a tampa e respiro do seu jasmin. Parece que a vida nem é real mais, apenas parte do contrato. O que interessa mesmo são estas noites-brincando, alguns poucos dias abençoados. Nem todo o amor que eu senti valeu o esforço; você pelo contrário vale cada minuto suado. E pensar que não era para ser nada e por não ter a obrigação de ser nada é que ficou eternizado. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Line.
Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007
página solta
Nem tocamos no assunto "onde vamos esta noite?". Chovia mas não era esta a nossa desculpa. A gente precisava colocar umas coisas em dia e nem me refiro a cama se não temos feito outra coisa. Era em que capítulo do livro que ela se encontra que eu queria saber. Se ela pegou o espírito da coisa ou se está no caminho errado. Eu queria explicar o mundo desde o comecinho para ela, sem nenhuma pressa, parando nos nomes difíceis para que ela não precise perguntar depois. Ela fica mexendo no meu cabelo como se estivesse tentando me inventar um penteado novo. Sei que é só carinho, os olhos dela perdidos no meu me dizem isto com todas as letras, mas mesmo assim resmungo como quem se incomoda por ser amado. Ela vai até a cozinha, volta depois com um vinho fraco que eu só comprei porque ela gosta, recuso um gole mas não recuso um beijo, ela me dá e nos lábios dela o vinho é mais saboroso do que eu imaginava. A chuva parou, vamos dançando até a varanda, a noite me arrepia como um fantasma, não estou muito vestido, ela menos ainda, ficamos por um tempo, coisa de minutos, observando a cidade ao longe, suas luzes, como se ambos pensassem a mesma coisa mas esperassem o outro dizer primeiro para confirmar com a cabeça. No íntimo, sonhamos com uma explosão que nos afastasse de tudo, achando que só nós é que temos problemas, depois rimos do nosso egoísmo. Ela queria que eu lembrasse o nome de uma música que ouviu no rádio do carro certa de que eu tenho o disco, cantarola um pedaço mas nada muito compreensível, estava na ponta da sua língua e não estava, aquela história nos faz perder por alguns segundos o fio da meada, um novo beijo, reconciliador, nos fez voltar aonde tínhamos parado. A máquina do tempo só se desloca alguns centímetros para trás. Eu queria desenha-la nua como que para sempre, ela faz pose, estica-se na chaise longue como a maja desnuda de goya e eu que sou um simples mortal quedo comovido. Enquanto eu faço círculos com a ponta do dedo em volta do seu umbigo ela me conta sobre sua semana, coisas que eu já tinha ouvido, fingi interesse pelo que dizia, depois perdi a paciência e rolei com ela pelo chão da sala. Acordamos no que nos parece ser o paraíso de tão bagunçado e ainda estamos juntando as pistas para ver se descobrimos qual o nome disto. Foto: Line. (Achei este velho texto. Ou melhor ela achou "perdido" entre suas coisas - como uma página solta. Escrito para e com ela. Leu, lembrou e me enviou. No mesmo "pacote" veio esta sua foto. Line das noites-brincando.)
Terça-feira, 9 de Outubro de 2007
o universo
Não tem ninguém além de mim. As festas acontecem, os erros e a crueldade: eu me sinto em outra. Entendo que eu não faça parte da sua turma: rimos de coisas diferentes – mas farei amigos com os poucos centavos que trago comigo – nunca precisei de mais do que isso. Sei o que é bom, o que fica e o que mexe com a gente: estes são os meus critérios de avaliação. Não, não estou lhe julgando, apenas dizendo por que “sim” e por que “não”.Eu erro sendo um perfeccionista: exijo muito de quem só pensa em dar umas voltas por aí. Pergunto dos livros dos filmes das músicas. Eu não tenho culpa que sua vida seja vazia de sentido – eu descobri o que é felicidade e saiba que ela não é para principiantes: mas você tem estes olhos de quem já chorou muito e isto já é um bom começo. Se quiser que eu lhe explique eu lhe explico mas pode ser que eu destrua o seu mundo no meio do caminho.
Gosto quando chego e você já está aqui: abra a porta para que eu entre, me recebe com um beijo, mostra o que estava lendo e onde parou, ama ter milhões de perguntas para me fazer – como se eu soubesse tudo o que você não sabe. Creia – isto tudo que é tão bonito não está acontecendo com ninguém. A vida tem sido bem menos que isso e todo mundo acha que tudo bem. Mas eu não consigo pensar e viver como todos eles. Juro que até já tentei mas eu não consigo. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Maíra.
Quarta-feira, 3 de Outubro de 2007
aqui é o seu lugar
Aqui. Aqui é o seu lugar – onde tudo se abre para que você entre, penetre fundo o que se diz e o que não se diz: tome conta, crie raiz. Você mesmo me disse que se sente cansado de tudo o que já fez girar, muitas vezes desordenadamente, pois bem, agora eu tenho a resposta que você precisa e ela está em mim: vasculhe – tudo o que ela diz é poesia aos meus ouvidos.Vou fingir que é domingo, vou esquecer que há uma guerra acontecendo e eu sou o próximo da lista, quero, acho que mereço, cada velha surpresa, detalhe que podia me passar batido, centímetro por centímetro dela, um mapa que me faça sentido, leve e não traga, hoje eu não sei o que são amarras, medo e cuidado, contas a pagar, horários a cumprir, a liberdade de um homem está no corpo da mulher que ele ama – ela me convenceu disso, sua boca e mãos.
Faz silêncio no mundo e sei não faz silêncio algum, tudo explodiu e escapamos, tudo nunca existiu, estou sentindo que a vida até este instante foi só um sonho do qual acordei, você é que é real, tem cheiro e seu beijo o gosto da sua pasta de dentes, tudo é tão dentro dos meus planos que peço que me belisque. Tudo bem meu anjo falso esta é a hora de se perder, de se perder para todo o sempre, na sua vida não haverá outro caminho que não aquele que o traga aqui. Aqui. Aqui é o seu lugar. Em mim – tudo o que ela diz eu não canso de sonhar. Vou para onde ela está. Viajar é deixar o corpo leve, ser de quem ele quiser, dono do seu mundo. Não precisa percorrer distâncias enormes, nunca haverá país mais bonito do que o corpo da mulher com quem você dorme. Ela fala a sua língua e mesmo que ela não fale, não terão problemas para se comunicar – ela me convenceu disso, sua boca e mãos. Onde quer que eu esteja ela está – aqui, aqui é o seu lugar. Em mim – hoje eu não sei o que é tempo, sagrado e certo. Hoje eu só preciso descobrir. Foto: Bruna S.
Domingo, 30 de Setembro de 2007
nós sempre teremos paris
Você me faz um convite e eu aceito. Precisamos conversar, dançar, entender que não fomos feitos um para o outro – existem milhões de possibilidades e você e eu somos apenas mais uma que aconteceu porque chovia naquele dia e você entrou no primeiro café que encontrou pela frente e a gente se conheceu, só isto, o resto fui eu que criei, que inventei de colocar em forma de poesia. Quanto mais consciência tivermos do quão frágeis e acidentais são as paixões mais nos dedicaremos ao que já temos: não é no amanhã que precisa fazer sentido, na rua na frente dos seus amigos, mas aqui mas agora neste beijo neste quarto nesta noite em que tudo rima perfeitamente – do seu corpo ao meu poema.Seremos felizes depois disso? De certo que seremos como fomos tantas vezes nas muitas voltas que o mundo dá: conhecer alguém perder alguém e continuar em alguém mesmo depois que a perdemos – é só o mundo girando e a gente tentando e nem sempre conseguindo impedir por isto escrevo, anoto num papel a sua presença – veio, esteve aqui, foi bom, seu nome que é lindo, o dia e a hora eternos. O que você teima em dizer que é “o fim” eu chamo caprichosamente de “trégua”: o amor as noites que você me deu não se devolve, não dá para juntar numa caixa com o seu nome à espera de que você venha apanhar, mas fica na gente como o único presente que realmente valeu. Nós sempre teremos Paris – por mais minúsculo que seja em nossa memória: não os detalhes mas a sensação.
Na sua vida-poema que lugar eu ocupo?, ela quis saber. Ora, você é toda a esperança. Ela achou a sua personagem linda e por pouco não deu de chorar. É, parece que tudo acaba, sentenciou. Puxei ela para mais perto, não só por causa do frio que fazia e conclui baixinho em seu ouvido que “acaba para recomeçar”. Acho que só fiz confundir um pouco mais a sua cabeça e o que ela sentia mas também não é fácil para mim. Imagem: Jim Carrey e Kate Winslet em cena do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”(2004, Michael Gondry).
Terça-feira, 25 de Setembro de 2007
noites mulheres pedaços
“... amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa última que se pode dar de si...” (de Clarice Lispector, em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres)Conhecer (cumplicidade) – ela disse – significa entrar pela nossa porta a qualquer hora, ter todos os erros de que precisamos para não nos sentirmos sozinhos alienígenas, afinal nos faz ver que não somos os únicos que ‘morrem’ por tão pouco, uma madrugada que não rola fácil, um telefone que não toca, o melhor uísque já foi e a tortura de caminhar sem um cigarro que seja como uma fera cuja jaula não mata a selva dentro dela. Eu chego embriagado de uma outra paixão e você me recebe como se meus crimes e minhas dúvidas fossem sempre benvindos, primeiro nos tratamos com aquela cortesia típica dos amantes mais antigos – como se nada fosse nem precisasse acontecer, tudo já fora dito anteriormente milhões de vezes e repeti-las como se fosse uma desculpa por ser aquela hora da noite e não em pleno meio-dia na grande avenida à vista de todos de quem quer que seja, já perdeu todo o sentido. Viveremos isto como um favor que nos faremos.
Entendemos que nada mais é estranho, novo ou rompe com velhas estruturas, na vida que é sua e de mais ninguém o meu corpo aquece e faz passar a noite (durmo aliviado com isto). Eu sei que existe aquela fagulha de esperança em você em mim em todos nós de que a história possa mudar repentinamente – quem sabe enquanto observamos o outro dormindo nos apeguemos como se entendessemos a solidão que é viver respirar existir. Mas é no cheiro do sexo que nos concentramos, quase que nos policiando de maiores ilusões, afinal mesmo o amor por mais honesto que irrompa tende a nos cravar punhais com o passar dos dias. Eu sei porque já experimentei todas as certezas deste mundo. Fui fundo. Você também, dona das mais lindas olheiras.
Depois achamos que é melhor assim – só um grande teatro a nos consumir: nele você cada vez melhor atriz da peça que eu próprio escrevi para exorcizar meus demônios, ter o que fazer, me distrair. Revejo as noites mulheres pedaços de lábios de corpos que me inspiraram em seus gestos e palavras, a crueldade de outras encenações, a canastrice de algumas interpretações, o achado que são certos cacos, exaustivos ensaios, intrigas de camarim. Troco seu nome com o da personagem, seu nome e o da personagem é o mesmo mas confundo mesmo assim, o palco está vazio mas eu a vejo como desejo crua, nua, charlatã, real. Não pode ser verdade, não posso ser verdade. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Bruna S.
Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007
o velho cinema
A vida é só uma fachada. Apenas conta-se os dias até que tudo desmorone, venha abaixo, o tempo passe e ninguém se lembre mais. A gente procura viver como todo mundo: cumpre horários, diz bom-dia, senta-se sozinha num restaurante, hesita diante de um prato mais exótico, namora as capas de revista, imagina como seria. Eu vejo pessoas alegres, vejo pessoas tristes, queria ser como elas, experimentar algo que fosse real, invejo quando elas riem e sou forçada a rir com elas como se pedisse licença para existir – quem sabe se naquela noite não sonho algo diferente, um filme, algo que nos faça querer dançar, é tudo o que nos esquenta naquele quarto e sala que é a vida nas grandes cidades. Estamos todos com pressa, ninguém fica o tempo suficiente, se você é uma médica só querem saber o que eles têm, se você é uma garçonete porque o pedido deles está demorando tanto a sair, se você é uma prostituta quanto você cobra por um boquete, se você é uma bilheteira quando começa a próxima sessão – eu pergunto: quando é que vamos poder fumar um cigarro sincero com alguém, rirmos e acharmos graça? Conheça milhões de pessoas e não conheça ninguém.Eu tenho esperança de que a vida seja mais do que isso e que eu apenas me enganei. Goste de um vestido que veja em alguma vitrine, entre e experimente, veja como fico nele, mesmo sabendo que não posso compra-lo, tem o aluguel, o gás, as refeições e o dinheiro que envio aos meus pais, mas por alguns minutos olhando-me no espelho me sinto distante de tudo aquilo. Dura pouco tempo o que nos faz feliz. Depois digo a vendedora que não sei se ficou bem em mim, que mais tarde volto com o meu noivo e peço que me dê sua opinião. Já na rua, há alguns metros da butique, rio da mentira que contei, pareço boba eu sei. Image: Edward Hooper – New York Movie(1939).
“O Velho Cinema” assim como “Às quatro da manhã” – publicado anteriormente aqui – faz parte de uma série de pequenos textos que escrevi inspirados nas telas do pintor norte-americano Edward Hooper cuja influência sobre este blogue não se limita a estes textos mas espalha-se pelos demais com maior ou menor peso e também pelas fotos que ilustram muitos deles.
Sábado, 15 de Setembro de 2007
pelos cantos
O fim é um segundo. Você acorda e não sabe o que está fazendo. Reconheço que o beijo era bom, o cheiro e o sexo, mas às vezes tudo se resume a uma questão de falar e ser escutado. Para o jogo ser limpo não se precisa regras bem definidas mas jogadores que sejam honestos – fomos honestos até onde nos interessava. Eu roubei o que era bom de você e que me faltava e você pegou emprestado o que quis de mim dizendo que devolveria mas até agora nada: está tudo bem, fica pra você, afinal era só poesia mesmo.
Discordo de você: o gosto não fica ruim depois que acaba – é um conhecimento novo quero crer, quem sabe mais um verbete para a minha enciclopédia de dúvida e prazer. De que são feitas as minhas histórias senão daquilo que você esqueceu aqui e não voltou para buscar? Você tem até a próxima campanha do agasalho para vir pegar. Depois disso servirá para aquecer outra e pode ter certeza que aquecerá. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Maíra.
Domingo, 9 de Setembro de 2007
ela e o mar
Disse-lhe apontando o mar, “aí está ele, o mar, o mais ininteligível das existências não humanas”, depois voltando-me para ela, “e aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar”. Ela achou aquilo lindo. Quis saber se era meu, não era, tomei de Clarice Lispector. Depois você me empresta o livro, pediu. Fiz que sim com a cabeça. Seria outro em meio a tantos livros que ela me pedia emprestado e nunca se lembrava de cobrar.Fosse um outro qualquer e só teria reparado na minha bunda, comentou ela. Ah mas eu reparei e muito, conclui apenas que seria mais elegante citar Clarice do que comentar o quanto você fica gostosa neste biquini. Ela riu, estava um pouco alta, não dava para dizer qual dos dois estava mais bêbado.
Isto de caminharmos pela areia da praia naquela manhã foi uma licença que nos demos. Desprendemo-nos naquele instante da superfície para penetrarmos no reino do absoluto. Sentíamo-nos como num filme desses intrigantes em que a maior parte das explicações nunca nos são inteiramente dadas. Fica tudo no ar a espera de uma leitura mais apurada. O tempo nos ensina coisas que nem percebemos quando são por nós aprendidas. Há sempre um momento na vida da gente em que reconhecemos algo novo e no entanto tão familiar. É a surpresa da queda em si. Estava lá antes, só faltava reparar.
Ela vai um pouco a frente. Acompanho o seu balanço. No que estará pensando agora? Eu devia ser o “pé no chão” desta dupla dinâmica fadada ao fracasso mas se ela levanta vôo eu não me controlo e sigo e vou. Estou numa fase em que ouço mais as pessoas, mesmo que elas não tenham muito o que dizer, só pelo prazer de ficar um pouco mais quieto, não quero preocupar mais ninguém além de mim mesmo com as minhas objeções ao mundo.
É cedo. Cedo demais para uma série de coisas. Mesmo colocar em ordem nossas idéias soltas, separar as mais loucas das mais lúcidas. Melhor curtir o restinho de vinho na nossa cabeça. O sol nem bem. O sol nem nada. A gente leve depois de uma noite alta. O mundo o que mais pode ser senão uma grande ilha deserta às nossas costas. Esqueçamos o mundo, busquemos explicações no mar. Em navios tão perdidos quanto nós navegaremos rumo ao incerto.
Ela vira o rosto só para confirmar algo. Ainda estou aqui. Enquanto você quiser, enquanto eu quiser, este é o trato, este é todo o teor do pacto de sangue que fizemos brincando que não era importante mas era. A noite me disse tudo o que sabia sobre amor e era tão inútil convencê-la de que estávamos no caminho errado que eu achei melhor assentir com a cabeça. Fiz bem, ela me deu um beijo e mudamos completamente de assunto. Deixamos a profundidade de lado. Não quero negar a ninguém a chance de se sentir bem com algo que ela acredita em ordem. Chega um dia em que tudo desmorona e a gente aprende com a experiência. Por enquanto não temos pressa, estamos bem livres de tudo.
Eu tinha de dar um telefonema ontem e ela não deixou. Nada existe hoje além do que você pode tocar, foi o que seu gesto quis me dizer. Então a toquei. Tenho a sorte, a imensa sorte, de que ela seja real. Eu sei que mesmo a realidade pode se esvair em fumaça mas por enquanto ela está aqui quente como eu gosto. Nítida na retina.
Penso que teremos de fazer todo o caminho de volta. Acho que ela não se cansa nunca. Um dia ela cansa, penso eu. Cansa de mim. Depois se cansará dela mesmo. Se olhará no espelho e dirá a si mesma que precisa inventar para si um novo estado, uma nova fortaleza. Não poderá mais se comportar como se tudo tivesse graça e não pudesse ser nunca sério. Quando ela chegar a esta conclusão, eu já estarei longe, já serei um fantasma, aproveito e estico o braço. Toco seus ombros. Ela se vira. Faz cara de pergunta. Eu apenas acho ela linda. Mas não digo, ela sabe.
Diz que gosta mais dos poemas que eu escrevo no corpo dela com os olhos do que aqueles que boto no papel. Duvida da palavra. Sabe que eu escrevo o mesmo para todas. Não o mesmo com as mesmas palavras, rimas e imperfeições: o mesmo com o mesmo fim, seduzir e só, preparar a cama para que elas venham e se deitem – só estou reproduzindo uma tese dela, nem digo que está certa nem que está errada, apenas a escuto, qualquer comentário por menor que ele fosse estragaria o mistério. E sem um pouco mistério não somos nada.
Vem me pegar, desafiou ela, correndo em direção ao mar. Fiquei observando ela se afastar, feliz por existir, por ter conhecido mulheres como esta, por ter lido alguns livros que me fizeram diferente, por ser a porcaria de um Ricardo Pereira e não alguém bem mais perfeito. “Só um cão livre hesita na praia”, diz um outro trecho do mesmo conto. Eu me encaixo direitinho no perfil, sou este “cão livre”, algo com o qual os poetas de que mais gosto, os marginais, tanto se parecem, mais vadios que exemplares.
É somente por ser como aquele “cão livre” do conto da Clarice Lispector é que eu posso perambular por ali sem ser enxotado pelos deuses naquele instante à-toa do mundo, enquanto o resto vive a urgência das coisas. Estivesse eu preso às muitas coleiras com as quais a sociedade nos domestica, estaria a esta altura no “desconforto” de uma cama macia dormindo o meu quinhão do sono dos justos mas não, é naquela areia quente que eu me ajeito, descanso meu cansaço de tanta juventude, as dores no corpo de um amor louco, o peso de um vício que me cobra a carne, a poesia de uma vida bandida, meus versos, minha folha corrida.
Ela e o mar travam amizade, ininteligíveis que são se entendem fácil, brincam um com o outro como se não fossem outra coisa senão crianças atarefadas demais consigo próprias. Naquele instante descubro tudo, descubro o que vim fazer no mundo e o quanto inútil é todo o resto, porque nada além disso, nada mais importante do que isto, esta paisagem com mulher e mar ao fundo. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Michelle.
(trechos extraídos do conto “As Águas do Mundo” In: LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.)
Quarta-feira, 5 de Setembro de 2007
três noites atrás
O silêncio é cheio de pequenas conversas – dos olhos, lábios, línguas e dentes, pele, mãos, dedos, pernas e sexo. Escrevo como falo e não como penso. Digo isto apenas para que você faça o mesmo. Se não o meu texto fica frio e distante, meu e mais ninguém entende, prefiro que sua boca o experimente, como drops até o fim – seu sabor será como quiser.
Há muito lhe espero porque você só veio agora?, ela quis saber. A resposta é simples olhei para o lado e te vi. Mas não posso dizer isto. Está no meu caminho por conta de uma série de acasos que nos remetem até os princípios da humanidade, o primeiro homem, a primeira necessidade do outro, o desejo ainda em seu estado bruto, selvagem, e a gente ali já tão domesticados, civilizados, esquecemos que um dia bastaram grunhidos, gestos com as mãos que hoje seriam obscenos – poesia, amor, deuses, destino, tudo o que utilizamos apenas para encobrir nosso real objetivo: mantermo-nos aquecidos. E se eu disser que não sei o nome do que sinto você fica mais algumas noites comigo até descobrirmos? Foto: Susan Meiselas, USA Carnaval Strippers, 1973.
Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007
a última da noite
Tenho que atender o telefone, dizer que não estou, desculpar-me por cada verso, fiz ela imaginar coisas que eram até reais demais quando eu dizia quase que sem controle, estava embriagado de seus lábios, da sua juventude, da sua rebeldia, da música que só a gente ouvia. Queria que não houvesse começo fim mas que tudo acontecesse fluísse naturalmente a gente se encontrasse era feliz amigos que se apaixonassem todos teríamos mais o que fazer onde dormir sem perder a cabeça sem parar para refletir uma vida que todo mundo aproveitasse onde nada doesse nada sangrasse deixasse uma flor onde se amou. Ela ficava me ouvindo falar assim. Não sabia dizer se eu era mau cruel ou a melhor coisa que já andou sobre a Terra se eu queria o bem de todo mundo ou só o meu.
Existem milhões de festas, noite como esta, pessoas como nós, gente que você nem sabe o nome e a solidão e corpos e mais corpos e depois mais corpos e no meio disso tudo o nosso. A gente é pequeno, a gente é frágil, a gente quer quem torne tudo mais fácil, diga na nossa língua, corra nos dar um abraço, procure um alívio, cale a boca por um segundo, nos ame e não pare, nos ame e não pare, nos ame e não pare... Foto: Ricardo Pereira/modelo: Dana Dinha
Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007
às feras
para vocêFunciona igual um brinquedinho novo. Enquanto você não esgota todas as suas possibilidades não quer brincar de outra coisa. Amor é só um nome mais limpo. Por que você tem sempre de ser tão cruel com as palavras? Nem parece um poeta – ela reclama do quarto, estou escolhendo uma música. Você prefere que eu minta ou diga que te amo do único jeito que sei, isto é, honestamente? Ela quer ouvir sobre o taj mahal – histórias de amor e glória onde homens e mulheres têm suas necessidades mais básicas como fome e sede satisfeitas não lhe atraem.
Ora trago ela para o chão ora carrego ela sobre os ombros, depende do meu humor, da minha fantasia para aquele dia, do que comi no almoço, do que li no jornal, deste “navegar impreciso” que é a vida. Ela tem dúvidas sobre até aonde vamos com aquilo. Prometo que seremos felizes, que teremos filhos, que lhe trarei flores, que telefonarei no dia seguinte, que apagarei qualquer vestígio quando for embora de manhã, que você nunca mais vai ouvir falar de mim.
Todos estamos nos empurrando uns contra os outros. Ninguém mais é “novo”, inocente, principiante, todos já fomos violentados, lutamos contra as regras mas somos por elas educados, é o medo da solidão que nos atira às feras, depois de um tempo nos tornamos também feras, botamos para funcionar nosso velho e bom instinto de preservação: devora ou será devorado. Vê, seria mais fácil te iludir, mas sua pele é rosa, é branca, é jasmin, não quero nela as mesmas feridas feias cicatrizes que trago aqui e aqui. Foto: Renata Punk.
Domingo, 19 de Agosto de 2007
Anna Karenina
“... a transcendência dos livros é assim como o amor solto no ar, mas a materialidade dos livros é como o corpo do amor na cama, a noite inteira lendo e relendo...” – de uma outra conversaAcho que já nos conhecemos. Tive a mesma impressão. Sugeri que talvez fosse dos muitos livros que lemos e ela sorriu como quem se lembra exatamente em qual romance ficava a rua em que nos cruzamos. Foi fácil esquecer de todos os outros assuntos que giravam em torno de nós, refiro-me aos vulgares – típicos de mega-stores. Falávamos dos livros como quem conta peripécias da juventude num país estrangeiro. Conhecíamos a língua, os rios e o cheiro.
Não tenho muito tempo. Privilegio livros e beijos. A vida é inútil se só se ganha mais dinheiro. Até mesmo o desejo mais caro acaba numa liquidação. Dê um tempo que tudo será resto. Corro os sebos da cidade em busca dos clássicos que me faltam e a noite de mulheres que ainda saibam ser seduzidas por eles. Certas conversas não me interessam mais, eu quero trazê-las para a minha festa, lá dançaremos, serão muitas páginas, música e vinho.
Descobrimos, claro, muitos amigos em comum, às vezes até séculos inteiros, confissões que ouvimos, beijos que espiamos, camas que dividimos, noites que nos apaixonamos. Ela não era livre nem eu naquele dia. Pensamos em algo sorrateiro, no saguão ela me deu o nome de Anna Karenina, eu gostei da brincadeira e assinei Vronski. Durante algumas horas era a Rússia czarista lá fora. Fechamos o livros e nos despedimos. Mais tarde sussurrarei esta história no ouvido de outra mulher – de Emma Bovary talvez. Foto: Ricardo Pereira/modelo: Bruna S.
Quarta-feira, 15 de Agosto de 2007
uma hora e meia
para N.Eu estou aqui e você esteve aqui. Uma hora e meia. Pouco. Quase nada diante da velocidade do mundo. Mas quer saber de uma coisa? Nada mais importa, nada mais interessa, nada mais com o seu gosto, com as suas idéias, vivo numa cidade poluída e você me ensinou uma avenida que dá no mar, vou procurar você nas músicas que ouvir e sei que vou encontrar. Sua voz triste me lembra que às vezes temos de voltar à vida real. Eu inventei uma vida-poema para que você nunca fosse embora, todas as outras mulheres da minha literatura só servem para me dizer que você existe e não é uma delas. A gente bem podia caber naquele disco tocando – de quem é este sentimento na vitrola girando?
Eu estou aqui e você às vezes demora. Tem o trânsito tem a guerra lá fora. Todo dia que nasce para ser a mesma coisa. Sei que preciso pagar as minhas contas, não dá para ser poeta sempre, no jornal é aquela farsa de a culpa é dos políticos etc e tal, na volta para casa é tanta miséria que tomo um tiro, preciso do seu silêncio, da sua paz, desta uma hora e meia que tanta diferença faz. Estou estudando uma fórmula para que você fique, para que você fique mais, seja para sempre, não como um segredo que me anestesia um pouco, mas como uma cura definitiva, o fim da história.
Eu estou aqui e você temo que vire fumaça. Existem todas estas horas em que você não vem me chamando para a rua. Eu não sou tão forte como lhe prometi, preciso de um vício que dê conta, meu nome numa outra boca, malditas sejam todas as uma hora e meia do meu desejo – porque sempre às migalhas se a fome é de uma vida inteira? Um dia quando não mais ligar o corpo à paixão, você poderá ser qualquer chance, estarei acima do amor, livre para ser escritor: sua lembrança – a dor e a verdade – será só da personagem e você-real apenas miragem. Foto: Ricardo Pereira/modelo: Belinha
Domingo, 12 de Agosto de 2007
os livros
Quando estou em casa passo a maior parte do tempo na "biblioteca". Chamo de biblioteca embora funcione mais como um escritório. Foi o único aposento da casa em que não arredei o pé quanto à distribuição dos móveis pelo ambiente. Deixei o restante da casa aberto a toda a sorte de palpites. Vem uma namorada e coloca os móveis da sala, dos quartos, numa ordem, outra mais tarde vem e os arrasta como se assim apagasse quaisquer vestígios da ex. Eu apenas sorrio concordando como se aprovasse inteiramente quando no fundo tanto faz. Elas se sentindo à vontade está tudo bem para mim. É na biblioteca que as testo.
Uma das primeiras coisas que faço quando trago uma mulher em casa é apresentá-la a eles: os livros. Fico na minha observando o modo como elas se comportam diante dos livros, correndo os olhos pelos títulos como que a procurar algum velho conhecido, ou escolhendo um deles para folhear. Como aprecio os livros, gosto de mulheres que tenham o mesmo interesse. Uma vez comentei que a primeira coisa que reparava em uma mulher era justamente o livro que ela estava lendo. Uma licença poética, naturalmente, mas todos nós temos direito a uma licença poética.
É fácil identificar pela maneira como uma pessoa manuseia um livro se se trata de um objeto estranho às suas mãos ou se íntimo. Elas não entreabrem o livro num página qualquer lá pelo meio, elas primeiro procuram se informar sobre aquele objeto deslizando os dedos suave e carinhosamente pela sua capa enquanto examinam o que diz a orelha, depois vão folheando lentamente página por página até chegarem ao primeiro capítulo, lêem um ou dois parágrafos para sentirem o grau de tesão que o livro exerce sobre elas: paixão ou curiosidade. Não estranhe se terminarem a inspeção aproximando o livro de suas narinas como se através do cheiro pudessem extrair a qualidade do livro com a mesma precisão que um enólogo busca atingir ao aspirar o aroma de um vinho.
Confesso que se a mulher tiver outros atrativos interessar-se pouco ou nada pelos livros não será obstáculo algum para engatarmos algo. Entretanto dificilmente vou conseguir com esta mulher a mesma cumplicidade que desenvolvi com outras mais leitoras. É comum que pergunte à uma mulher pela qual esteja atraído se já leu "A Insustentável Leveza do Ser", do Milan Kundera. Caso a resposta seja negativa ofereço de presente um exemplar (sempre que encontro o livro numa sebo em bom estado compro um - tenho no momento três deles no estoque), caso já o tenha lido peço a ela que responda-me se se identifica mais com Tereza ou com Sabina, as personagens femininas do romance. Dependendo da sua resposta saberei melhor o que esperar daquela mulher. Eu tenho, obviamente, uma preferência por um dos tipos, mas não revelo, comprometeria o teste.
Quinta-feira, 9 de Agosto de 2007
romance barato
dois perdidos na noite suja
A desculpa para a fila andar tão depressa é a busca por uma garota que seja definitiva. Do mesmo jeito que escrever um romance não pode ser escrever qualquer romance, tem de ser algo definitivo, o primeiro e último, do tipo antes e depois. Enquanto isto não acontece, nem uma coisa nem outra, vamos nos acostumando com trepadinhas e ambiciosos projetos literários que nos mantém vivos. Então não achar a história certa passa a ser uma desculpa também. Se sua vida é (e todas são) apenas mais uma, você finge que não, porque no seu íntimo há um romance sendo escrito e reescrito todos os dias.
Então a garota da vez chega na porta do seu escritório, enrolada no edredon, reclamando sua ausência ao lado dela na cama, tá frio, diz ela, quer quem a esquente. Não é nem de longe um pedido, é uma ordem, você atende, para tudo o que está fazendo porque trepadinhas assim viciam e a ilusão do grande romancista já se desfez. É que você teve uma idéia maluca, pensou que era algo super original, incrível, que ninguém nunca tinha pensado antes e valia a pena arriscar, ou porque estava embriagado demais ou porque acabou de dar uma especialíssima e correu para o computador confundindo orgasmo com inspiração. É que nesses minutos após uma bem dada (daquelas em que damos graças a deus por termos nascido homens) você tem todo o direito de se sentir o cara mais foda do mundo. A garota ali do seu lado é uma mera coadjuvante: fácil demais para você propor algo sério, ainda que você se arrependa de ter insistido tão pouco depois que elas se vão. Tudo bem que na noite seguinte será outra. É que trepadinhas assim viciam.
Neste tempo entre uma e outra você oscila entre o fracasso e a genialidade. Não avança uma linha sequer em seu clássico da literatura mundial. Só se realiza mesmo quando vai quebrando pouco a pouco a resistência da ninfetinha, esta coisa vulgar de dizer o que ela quer ouvir, de libertar ela de tudo o que a prende ao chão, de parecer grande quando não passa de um pulha. Então você acha que a grande diferença entre seus poemas e os grandes poemas é esta mesmo: os caras escreveram aquilo para serem grandes, geniais, estudaram a coisa, capricharam pacas; e você, nada disso, escreveu aquilo com um único fim: papar a princesinha. E nem precisava tanto, ela nem sabe quem é Modigliani, para que meter um verso em meio aquela zoeira de palavras todas comparando a beleza dela com um Modigliani? A garota nem consegue dizer o nome do autor de Crime e Castigo e você só faz achá-la mais “desfrutável” por conta disso. Depois ela ri como se fosse de uma piada quando você lhe diz só o primeiro nome do russo: Fiódor.
Nunca vi tantos livros, ela diz, passeando sem interesse os olhos pelos títulos de sua estante. Então esta é a minha última conquista: uma estudante de relações públicas. Houve tempos em que eu era mais profundo, acho que agora eu estou querendo provar algo imbecil para mim mesmo. Uma coisa meio machista do tipo você ainda pode. Você gostaria é de ser Charles Bukowski mas sabe que não agüenta o tranco, é sensível demais para isto. O mundo das ruas te excita mas você prefere usar sua força para abrir uma garrafa de vinho.
Garotas assim não podem com um Lambrusco, é o máximo de classe que conseguem atingir. Duas taças e ficam molinhas molinhas. Os caras da idade dela não sabem tratar uma mulher, só sabem falar de filmes de ação e carros. Elas ali se achando as coisas mais espertas do mundo, as maduras, as ‘cabeças’, as experientes, só porque estão na toca de um sujeito que tem idade para ser o professor delas. Querem aprender, eu ensino. Disso não vai sair um romance. Eu bem sei e é uma droga. Quem sabe um conto desses que as editoras recusam porque você ultrapassou o limite permitido de divagações entre as obscenidades.
Proust não precisou de uma coisinha linda dessas para escrever uma linha que fosse. Papel e tinta foram suficientes. E eu com esta tecnologia toda dizendo “vem me amar gostosinho” faço da minha literatura um amontoado de papel amassado. Não é a garota certa nem o romance certo. O problema é que eu estou me viciando além da conta nestas trepadinhas. A garota com a cabeça entre suas pernas e você pensa no romance barato que está escrevendo noite após noite. Sei que alguém vai gostar, vai dizer que é demais, mas é só a opinião de algum perdido na noite suja, os críticos vão me dar uma recepção seca, não demora e saio por três reais numa sebo da cidade. Todo mundo me folheia mas ninguém me leva. Na orelha algo do Bruno, falando mais do sujeito que de seu livro. Na capa um nu feminino. Um título assim sem dizer muito – “numa balada só” – e o meu nome um pouco abaixo. Acho que estou começando a gostar da idéia. Foto: Ricardo Pereira/modelo: Renata Punk
Terça-feira, 7 de Agosto de 2007
simples me faz sentir leve
Simples me faz sentir leve. Tenho minha forma de ver o mundo e ela tem a dela, às vezes o melhor que fazemos é mudar de assunto. Não preciso que ela vote no mesmo partido, apenas que dance comigo, depois conversaremos sobre vinhos, livros e beijos. Não vamos cutucar deuses, diz ela, entender tudo o que se passa faz com que as coisas percam sua graça, quantas cores existem no mundo que eu ainda não sei – quero inventar nomes para cada uma delas. Penso que o seu caíria como uma luva para um novo tom de lilás que imaginei.Sou um homem cheio de lutas sendo travadas, venço algumas, perco outras, existem aquelas que serão para sempre como a miséria, o preconceito, a falta de educação das nossas elites, para ela eu só me preocupo demais, preciso arranjar o que fazer porque me sinto muito burguês para o meu marxismo, ela é cruel quando bagunça tudo ao meu redor, eu me sinto só sem certas fugas, fazemos parte do mundo e dele não escapamos. Ela me pediu um poema de amor que fosse só para ela. Eu tentei. Não agüento mais ser só uma perna, uma noite, um riso, quero algo profundo como você entrar em mim e nunca mais sair, sei do que ela está falando.
Não consigo sair de uma página e ela com a tarde livre, me liga e nos despimos de tudo, ficamos suaves como quando nos conhecemos e não sabíamos das armadilhas um do outro, ela quer saber sobre o que será meu novo post, digo que não sei, não estou pensando nisto agora, mas você estará nele – procuro a essência dos estados de felicidade, estes mais ingênuos como descalçar os sapatos e observar da janela do quarto o céu e as nuves tomando forma de “coisas” da nossa cabeça. Da vida não pretendo mais do que boas lembranças. Estou no meio de uma autobiografia de encontros furtivos: cabeças vão rolar. Foto: Dana Dinha
Sexta-feira, 3 de Agosto de 2007
o que um poeta tenta ser
Invejo os escritores que vão nos mínimos detalhes. Não me refiro aos pornográficos – embora respeite e entenda a sua arte. Neles vigora uma fé nos corpos e tão somente uma fé nos corpos. Eu escrevo sobre corações. O meu, conheço um pouco melhor. Dos outros, apenas aqueles dos quais aproximei meu ouvido para escutar o que “diziam”: vocês já ouviram canções de amor? Não, vocês nunca ouviram canções de amor.O que eu sou? O que um poeta tenta ser. Na vida já fiz de tudo e sei que ainda há muito por se fazer. Eu tenho um romance por escrever, cada página é um dia que acordo, cada mulher que encontro pode representar uma mudança considerável em meus planos, por isto estes fragmentos de um discurso amoroso – estou aberto à sugestões, quem souber um beijo novo, uma palavra mais simples que “amor” ou uma solidão de noite me conte, quero saber. Preciso de mais, não há descanso para quem respira só o que o inspira.
Não sou artista, sequer ouso, a Cris é que era – no pouco tempo em que moramos juntos eu apenas a observava enquanto “trabalhava” (como quando contemplamos o mar ciente de que não estamos à altura): queria ver através do seu olhar, tudo o que eu conseguia enxergar se limitava ao que eu entendia de “poesia” em corpos nus – mas não demorava e chegava o instante em que meu desejo de tocá-las e lambuzar-me delas superava o “poeta”. Não é o equilíbrio que me atrai mas o que me faz balançar. Foto: Nelson Luis Abrahao
Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007
bom dia
“... é do cotidiano que nascem as melhores histórias. De amor, por exemplo...”"Vem ver o sol que lindo", diz ela me chamando até a janela. Nada veste além de uma calcinha. E eu lá tenho olhos para o sol. Aproximo-me dela e ganho um beijo. Bom dia. Bom dia. Ela me abraça como se não fosse me soltar nunca mais. Parece mesmo muito feliz. Não entendo o porque: é um dia como qualquer outro no mundo. Então me olha fixo nos olhos como se tentasse me passar uma mensagem por telepatia. Chega mesmo a franzir a testa de tanto que ela se concentra em penetrar meus pensamentos. E quando eu acho que ela vai me dizer algo incrível que merecesse tamanho esforço escuto "mentalmente" ela dizer que vai tomar um banho.
Diante do espelho eu encaro meu rosto como se aprovasse a espécie de sujeito que me tornei. Nem sempre é assim. Preciso fazer a barba não preciso fazer a barba. Esta é a primeira decisão do dia. Mas virão outras. Ela abre a porta do box e reclama uma toalha. Antes de passa-la às suas mãos faço uma pequena brincadeira dessas idiotas: quando ela estica o braço para pegar a toalha eu a afasto do seu alcance. Ela ri da primeira vez mas depois bronqueia. Enquanto ela se enxuga diz alguma coisa que eu não entendo direito mesmo assim não pergunto do que se trata apenas concordo com a cabeça. Estou pensando em outra coisa: penso que na maior parte do tempo nem é amor, apenas cumplicidade, intimidade, quer melhor que isto.
Quando ela passa por detrás de mim eu me viro e a seguro como se lhe aplicasse um golpe que treino há semanas. Um beijo fundo acompanha a imobilização. Então ela fica um tempinho mole depois força para que eu a solte. Dou um tapinha em seu bumbum antes que ela se afaste. Ela faz uma careta depois me dá às costas. Não tiro o olho de seu traseiro até que ela suma para o quarto. Vou demorar a vê-la novamente assim como veio ao mundo, preciso aproveitar cada segundinho. Entro no chuveiro e me esqueço um pouco do tempo. Acho que passam uns dez minutos para que eu me ligue novamente na vida. Ensaio pressa.
Quando deixo o banheiro dou de cara com ela já vestida sentada numa poltrona com uma deliciosa expressão de inocência na face como se nada tivesse a ver com aquela cama desarrumada há poucos passos dela. Enquanto troco de roupa ela retorna ao banheiro para se maquiar. Pergunto se ela quer comer algo. Ela diz que está com pressa. A primeira aula dela é dali meia-hora. Da minha casa até a faculdade são uns vinte minutos. Tempo mais do que suficiente para um café.
Então eu passo a me mover como se fosse um senhor de noventa anos apenas para irritá-la. Insisto para que ela tome o café comigo. Eu mesmo estou sem fome mas não entendo estas mulheres que depois de passarem a noite com você agem pela manhã como se fossem meras visitas. Ela abre a bolsa e consulta uma agenda. "O que você vai fazer hoje à noite?", ela pergunta. "Fazer amor com você", eu respondo. Ela sorri e anota algo. Gostaria de saber o que.
Mais tarde na faculdade nos cruzamos em um corredor. Ela está com umas amigas. Não faço idéia do que conversam mas ficam todas em silêncio quando vêem um professor e eu vindo na direção delas. Ela me cumprimenta com os olhos como se há poucas horas atrás não estávamos os dois na mesma cama. Eu faço o mesmo. Elas passam por nós e o professor Homero insinua alguma coisa. Eu nem digo que sim nem digo que não. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Bruna S.
Domingo, 29 de Julho de 2007
não sou o melhor dos anjos
Esta é a vida e ela nunca é fácil de viver. Você vai sangrar, você vai até morrer – mas às vezes tudo lhe parecerá perfeito como amigos que nunca desaparecem e músicas fáceis de pegar. Há dias que não escrevo uma poesia, isto só me aconteceu uma vez, mas quando foi não gosto de me lembrar. Acho que meus olhos estão um pouco cansados de só enxergarem o azul, apenas isto, amanhã estarei melhor com certeza, falarei mais do amor como se fosse ela que acabasse de entrar por aquela porta.Desculpe se lhe dei a impressão de que tinha todas as respostas. Eu precisava lhe impressionar de alguma forma, não sou forte, não provoco paixões arrebatadoras, você me procura porque tem medo – medo de não ser perfeita como eu lhe vejo. Ninguém diz aquilo que a gente quer ouvir, quando vem alguém e diz, a gente se sente especial, depois fica morrendo de medo de que não seja verdade. A verdade é que podemos ser felizes, não todos os dias, nisto eu não acredito, mas o suficiente para continuar apostando. É pena que não fizeram duas dela. Imagino onde estaríamos agora com este frio que está fazendo e esta minha vontade de amor.
Eu sei que pareço ter perdido as esperanças. Não sou o melhor dos anjos. Você me dá a mão e eu a levo para caminhar em círculos. O problema é que eu já conheço o mundo, estive em quase todos os lugares, aprendi várias línguas, gestos e olhares – ele não é tudo o que falam, as guerras são freqüentes e a miséria enorme, existe o mar e o vinho eu sei, mas ainda assim é pouco, mesmo paris é suja, veneza fede e em buenos aires fui assaltado. É você que precisa conhecê-lo, não vai sair do lugar se continuar tentando me entender, temo lhe influenciar errado, eu quero ser o melhor professor que você já teve mesmo que isto signifique dizer que não há nada o que ensinar, apenas muito o que se aprender. Esta é a vida e ela nunca é fácil de viver. Foto: Ricardo Pereira/modelo: Hanna Heavy
Quarta-feira, 25 de Julho de 2007
boa sorte e voe
Para MichelleOk, também fui ferido, mas sei que não passa disso, não será a primeira nem a última vez, estou me acostumando e esta é a pior parte. Não é porque tivemos algumas noites juntos que falaremos disso mais tarde. Vá ser feliz com o que “realmente” importa para você que hoje eu tirei o dia para analisar minhas outras alternativas. Encontrei coisas suas no meu closet, depois daquela festa, viemos para cá, foi quando bati aquelas fotos suas nua que se você soubesse onde guardo viria de noite rasgar.
Nem sempre sou fácil de entender. Às vezes abro meu coração, conto sobre o meu livro, pecados e viagens – mas sou um egoísta quando uso os dentes. Você vem, participa, mas sabe que não faz parte. Sempre ficará faltando alguma coisa. Chega um dia na vida em que nos sentimos por demais confortáveis em nossos mundinhos – entendiantes mas controláveis – para nos desafiarmos ir além. Eu vi que você era linda e lhe segurei até onde dava. Se sente que suas asas já estão curadas, boa sorte e voe.
Por não prometermos nada um ao outro, só cumprimos o que sentimos; por não haver regras, tudo nos permitimos; por não estabelecermos objetivos, tudo pode acontecer; por não definirmos o que é “amor”, outra coisa não fazemos que nos divertir; por conta do mundo não funcionar como gostaríamos, não nos importamos com o que vão dizer. Não fosse o tempo injusto demais com tudo o que queremos, acho que não teríamos problemas – não gosto de inventar filosofias de vida que justifiquem os erros que cometo mas às vezes me vejo obrigado a fazê-lo.
Num dia você não pode, numa noite você não está e elas se cansam, não dizem (ou não sabem como dizer) que queriam você somente para ela, e só o que você faz é agradecer pelas horas boas que passaram juntos quando no fundo daria tudo para que elas não fossem nunca embora. Quando mais tarde elas vêm devolver os seus livros, vocês têm uma recaída, o que é bem natural, isto porque sabem que era bom quando acontecia, não acham que aquela será a última vez mas entendem que pode estar sendo. foto: Ricardo Pereira/ modelo: Maria Quel
Segunda-feira, 23 de Julho de 2007
uma garota como tantas outras
para você fernandaEu descobri você e acho que você nem fazia idéia de que existia. Estava perdida no mundo, andando como todos, naquela pressa meio a contra-gosto que faz a roda girar. Logo vi que deveríamos conversar, escolhemos um canto da festa onde a música chegava mais suave e você demorou a entender que eu não estava ali apenas para lhe beijar. Tudo bem que eu aproveitei o que você quis me dar mas nunca que eu me perdoaria se você fosse embora apenas sabendo que gosto têm a minha boca. Há muito que eu lhe procurava, sabia que você existia em algum lugar, uma garota como tantas outras, diriam se a visse.
Amor é muito simples e não se trata somente disso. Eu já fiz tudo o que tinha para fazer de errado e você é marinheira de primeira viagem – conheceu alguns homens mas sente que nenhum homem a conheceu. Seus olhos são lindos e eles pararam nisto, não foram muito além. Então você foi desanimando, colocando a culpa onde não devia, fazendo piada daquilo que lhe fazia mal, para os seus amigos você era a que estava sempre de bem com a vida, todo mundo tinha problemas e você sorria, deixava o que sentia para as suas poesias. Eu sei que você têm um monte delas escondida em algum canto do seu corpo. Pergunta como eu sei de tudo isto. Ora, metade do que eu escrevo nasce assim – como um soco na boca do estômago.
Durante um tempo lhe ensinarei o que falta e você falará de mim como se eu fosse forte, intenso. Ninguém entenderá esta mágica porque meus truques não funcionam com todos. Em todo o caso, os dias serão os mesmos, sol de manhã e lua de noite, não se notará a diferença, ficará apenas entre você e eu como uma sorte que tivemos e guardamos segredo. Foto: Ricardo Pereira/modelo: Cátia Elétrica
Sábado, 21 de Julho de 2007
tudo não passa de uma brincadeira
Tudo não passa de uma brincadeira ou o nome que você quiser dar. Eu não me importo que seja uma bagunça. Já disse que estou livre. Não pertenço mais a nenhum lugar. De hoje em diante só quero quem fale a minha língua, cansei de ficar traduzindo o que eu estou sentindo para o mundo como se eu fosse algum tipo de poeta-profeta. Não tenho gogó para sermões da montanha. Prefiro sussurrar baixinho no ouvido de quem desejo: a revolução que eu planejo.
Devo à Luina – foi ela quem me iniciou. Eu estava inocente até os meus quatorze anos. Nada do que eu lia fazia muito sentido – era sobre reis e castelos no ar. Ela me ensinou a beber e me contou a história do jazz – parece que eu a estou ouvindo. Depois chegou uma amiga dela que eu conhecia de sonhos. Jogamos no dado para ver quem ia primeiro. Vivi um pouco e voltei para casa. Foi como um primeiro rascunho.
Todo mundo acha que sabe o que é o melhor para nós: o papa, o supremo, até a avó morta. Mas é no corpo da gente que a vida dói. Você está sentindo como se algo podre empesteasse o ar e a única felicidade possível fosse nesta cama em que nos deitamos? Eu sei que há belos e bons motivos para uma escapada até à rua – os realejos, certos tons de flores, maçãs do amor – mas não demoraria e tentariam nos convencer do contrário: de que não é possível resistir muito tempo se você não se enquadra. Eles que estão velhos e fedendo e que transformaram a beleza do mundo em algo que pode ser parcelado no cartão. Eu sei ser tão violento quanto uma criança que aprende a usar os dentes. Sou puro, Luina, foi você quem disse que eu era obsceno. Foto: Ricardo Pereira/ modelos: As Elétricas (Cátia e Kamille).
Quinta-feira, 19 de Julho de 2007
a literatura é o meu disfarce*
Eu entendo pouco de carros. Mal consigo dirigir um. Não me atraem nenhum pouco. Prefiro costas. Posso perder horas admirando as costas de uma mulher. Alguém me faz uma pergunta. Sobre carros. Estou distraído. Observo Vera de longe. Está de costas para mim. Entre amigas. Elas riem. Gostaria de saber do que. O sujeito insiste, pede minha opinião. Conheço o cara, de vista. Acho que é advogado. Não gosto de advogados. Namorei uma advogada. Fui apaixonado por uma advogada. Não gosto de advogados. Prefiro costas. Posso perder horas admirando as costas de uma advogada. Estamos um pouco longe da festa. A música ali quase não se ouve. Nem sei dizer porque me juntei aquele pequeno grupo. Homens falando de carros, pensei que discutiam política, quis defender o presidente, mas não era nada disso. Digo então o modelo do meu carro. Alguém faz um elogio. Balanço a cabeça positivamente como se concordasse com o que disse. Não sei se concordo. Não sei do que estão falando. De longe Vera me acenou. Depois comentou algo com as amigas. Deve contar mentiras maravilhosas a meu respeito. Não consigo tirar os olhos dela. Pareço um marido ciumento inspecionando a coitada. Quando o Jô tinha alguma graça havia uma personagem assim. Mas não é o caso, meu olhar a procura a todo instante porque meu desejo é sumir com ela daquele lugar. Podemos correr até minha casa, em cinco minutos estamos lá. Será que ela topa uma rapidinha em algum canto da casa? Estou a fim de cometer alguma loucura. Os caras que conversam ao meu lado sabem que estou com a cabeça longe. Nem escuto mais o que dizem. Pesco fragmentos das frases, tudo muito estúpido, nada sobre costas. Dou uma desculpa qualquer. Meu copo está vazio é a primeira que me vem a cabeça. Péssima, aliás, porque está cheio. Bebo de uma golada só. É uísque. É bom mas é forte, bebido assim, faz efeito instantâneo. Vou até o bar, me afasto. Os caras me observam depois me esquecem. Devem me achar maluco. Está com a Vera, alguém comenta. Então este é que é o escritor, comenta outro. Virei o escritor agora, talvez pelas crônicas bissextas no jornal da cidade. No caminho até o bar passo por Vera e suas amigas. Elas ficam em silêncio como se esperassem alguma palavra minha. Aponto o bar e não paro. Fico meditando sobre o que devo beber. Nada forte de preferência. Puxo uma coca do freezer. É cedo ainda. Onze e quinze. Vai demorar para ficarmos só Vera e eu, quero vê-la no meu presente. Penso em dar uma volta. Olhar as estrelas, estas coisas. Ficar na minha. Passo novamente por Vera e suas amigas. Ela me estende o copo. Derramo o líquido nele. Enquanto encho seu copo ela me observa bem nos olhos, há algo no ar. Uso de linguagem labial. Digo para que ninguém nos ouça, apenas movendo os lábios que quero fazer amor com ela. Acho que ela entendeu. Sorri entre constrangida e excitada. O copo está cheio. Deixo ela com suas amigas, a mensagem está dada. Vou na direção contrária do grupo em que me encontrava antes. Lá fora a noite me recebe. Paro na sacada. Um casal se beija a poucos metros de mim. Ao perceberem minha aproximação, interrompem o que estão fazendo. Fico sem jeito por tê-los atrapalhado, agem como se tivessem sido pegos no flagra, mas isto é um problema deles e de seus respectivos namorados, nada tenho com isso nem quero ter. Então eu desço até a piscina que está toda iluminada. Chuto uma bóia que se encontra numa das bordas da piscina e a acompanho com os olhos. Depois me interesso pela cidade lá embaixo. Suas luzes, seus sons que quase nem chegam até onde estamos. Procuro pela minha casa. Reconheço a torre da igreja que fica na mesma rua. Todos os domingos acordo com os cânticos da missa. Meu lugar não é lá. Sou um pecador. Eles também são, os que cantam, que estão lá na missa orando, comungando, o que quer que seja, apenas disfarçam perante Deus. Eu não disfarço. Eu assumo. "Deus é meu amigo/ Bebemos no mesmo copo". Conheço um poema que termina assim. Do Francisco Alvim. Outro me ocorre naquela hora. Do mesmo livro. Passatempo e outros poemas. "A polícia passa não vê/ o louco na praça/ o doido percebe e diz/ Deus é meu disfarce". Estava pensando nisto quando Vera me abraçou e deixei escapar o último verso "Deus é meu disfarce". "O que foi? Do que você está falando?", perguntou. Nada. E a beijei. Naquela hora não pareceu importante. Mas era disso que eu estava falando: a literatura é o meu disfarce. "Este pessoal não vai embora? Quando é que teremos a casa só para nós?", quis saber. "Calma, amor, são meus amigos, eu os convidei", defendeu-se ela. "E eu sou o que? Eu não sou seu amigo também?", insisti como uma criança que quer doce. Então ela começou a deslizar a mão pelo meu rosto como se fosse uma cega tateando para descobrir os detalhes dele. Com o indicador percorreu meus lábios, quando estava quase completando a volta, eu fiz como se quisesse morder seu dedo. "Você é muito mais, muito mais que isto, só deve me prometer uma coisa...", disse ela. "O que?", fiquei curioso. "Se quiser manter tudo bom como está não me faça ficar louca por você", era bastante ajuizado da parte dela. E foi se afastando, apontando o dedo para mim como se me acusasse de algo. Voltou para a festa. Eu fiquei ali pensativo por alguns segundos. Depois senti frio. Frio ou algo que ela disse. E se acontecer o contrário, hein Vera? Vou gritar daqui mesmo e faço: "e se acontecer o contrário e se eu ficar louco por você?" como não poderia deixar de estar.
*Gosto muito deste texto. Ele nem é recente. Já aconteceu há mais de um ano. Todos nós sabemos que Vera e eu não fomos muito longe em nossa história, muito por culpa minha reconheço, mas nem por isto ela deixou de ser uma mulher especial para mim. Amiga, apesar de tudo. Em todo o caso publico-o mais uma vez com autorização dela, claro, que leitora assídua sabe melhor do que ninguém o quanto ele é a minha “cara”.
Segunda-feira, 16 de Julho de 2007
música para os mais íntimos
para maíra bonilhaGosto quando você me toca. Música para os mais íntimos. Perfeita como uma estrada sem volta e a gente indo. Não sei onde isto vai dar mas pretendo descobrir. Fui feito para a vida e não para me proibir. Você é nova, comete erros e já acha que é o fim. Nada mais presta, nada mais interessa, só quer fugir. Eu sento com você e explico que não é bem assim – primeiro chora, depois sorri; sei muitos outros carinhos, quer experimentar?
Entendi o seu pedido de socorro. Eu mesmo já gritei assim. Pareço calmo agora, no controle, mas isto porque já vi muita bomba explodir. Posso lhe contar sobre minhas cicatrizes de guerra mas prefiro convida-la para sair. Não quero ser só amigo mas nem por isto vou deixar de ser. Eu sou homem e você é linda – embora pareça surpresa quando eu lhe digo. Às vezes pensa que é só cortar os pulsos e ir dormir. Não, o mundo não é perfeito e não é você quem vai consertar. A revolução é muito mais aqui dentro. Uma questão de encontrar qual é o seu lugar. Eu já disse que tenho todos os discos que você precisa ouvir?
Eu sei que uma porta aberta é só entrar mas desta vez quero que seja diferente, cansei de apostar. Eu canto a liberdade mas também preciso de algo onde me agarrar. Finjo-me de forte para você vir correndo me abraçar. Parece que li todos os livros, percorri todo o mundo, tenho muitas histórias, você fica a tarde inteira me ouvindo depois me beija leve e quer mais. Mas, menina, sou eu quem estou “perdido” como há muito não me acontecia. Não importa o quanto já se viveu, sentiu e passou – a gente sempre volta a estaca zero quando o assunto é amor. Foto: Silvia Montico/ modelo: Maíra Bonilha
Quinta-feira, 12 de Julho de 2007
musa e pantera
para cátia elétrica, musa e panteraEu só sei que não resisto. Ela pode ser só uma miragem que eu caio. Para mim não existe outra vida depois desta, nem céu e nem inferno, tudo que provoca, tudo que promete, precisa ser examinado de perto, experimentado na pele – de outro jeito que merda de literatura pretendo. Eu tenho anotado milhares de cheiros e erros, porradas e beijos, facas e dentes, sabores e farpas, nomes e sugestões de pauta, pimentas e refrescos, nada me escapa, nada me escapa. Posso identificar de qual veneno se trata só pelo tempo em que me mata. Estou rascunhando uma espécie de manual de caça, meu romance violento – violento e apaixonado.
E quanto mais selvagem mais me saliva a boca. Soube que ela escapou e tem fome. Intepreto isto como uma deliciosa ameaça. Pergunto nas esquinas, procuro pelas ruas mais vadias, nos becos escuros, pensões baratas. Espero a minha chance. Não tenho pressa nem outro livro para escrever – deixo que a minha barba cresça até ficar irreconhecível, armadilha é uma questão de experiência: paciência e ciência. Estudei seus hábitos, conheço sua espécie, principalmente do que se alimenta. Eu não tenho importância, sou só uma isca, ela que venha e me faça o serviço. Não posso descrever com riqueza de detalhes a beleza de uma fera senão em pleno ato – quando ela morde, arranha, estraçalha. Domesticada de que me serve? Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Cátia Elétrica
Sábado, 7 de Julho de 2007
a verdade depois do sonho
Estava dono do seu mundo mas não era importante nele, sequer pensava com a cabeça de um rei, apenas vivia a espera de que abrisse os olhos, amanhecesce o dia, descobrissemos a verdade depois do sonho. Deixamos a noite para trás como uma amiga que nos apresentou. Esta é a bailarina de que lhe falei. Este é o cara dos versos. Não nos prendemos a maiores explicações, tudo foi se ajeitando naturalmente: minhas teorias e a sua rebeldia, meus discos e a sua vitrola, meus livros e as suas melhores lembranças, meu corpo e a sua cama... e fizemos como se fosse brincadeira – hoje eu acordo e digo que te amo no lugar de bom dia e você não toma isto como um contrato, apenas parte da poesia.Eu disse sério que estou de volta à velhos projetos de amor como poemas que foram guardados para serem terminados numa outra hora quando eu entendesse mais do assunto. Então tudo que deita na cama com sabor de novidade me dá a impressão de que já foi vivido intensamente, até o fim e que não passa de uma segunda chance que ganho. Em cada novo beijo experimento um doce gosto de déja vu, mas é mentira dos meus lábios, apenas quero de volta o que perdi, juntar os pedaços do que deixei partir por descuido ou paixões demais. Peço desculpas por trazer para esta cama todas as musas – reais ou imaginárias – que já cantei, mas não pude pensar de outra forma, foi o seu perfume que me trouxe todas de volta e o modo como é linda e acorda de manhã.
Venha se juntar a elas – eu lhe convido com a mão estendida. Faça parte do meu belo livro. Não posso abrir mão de tudo o que senti, sonhei e provei – seria negar a própria vida e estas velhas cicatrizes de guerra que não me deixam mentir; mas isto não significa que não possa aprender tudo de novo: meu coração, com exceção de dezesseis grandes amores, é praticamente zero quilômetro. Tenho fôlego de sobra para mais uma faculdade. Foto: Ricardo Pereira/modelo: Lilia
Quinta-feira, 5 de Julho de 2007
queria que já fosse amanhã
Não gosto de acordar de um sonho bom. Prefiro minha cama com você. Nele você tinha todas as respostas, me abria as portas, me alimentava o coração e me cravava os dentes, agora estou aqui desorientado como quem tem pernas mas não sabe para o que servem. O telefone tocou mas não era você. Ninguém sabe do nosso código secreto – quantas vezes deve tocar para que eu possa atender: o número de letras do seu nome.
A vida me encheu de porrada. Sou um escritor frustrado, um jornalista cansado, um professor de regras, mas você não se importa com a minha barba por fazer depois de um dia pesado. Sabe que eu tenho poemas desesperados, típicos de um romântico envenenado e tudo o que você quer é esta intimidade dos corpos e das cabeças que erroneamente chamamos de amor quando deveríamos dizer cumplicidade – quer melhor que isto? Foto: Ricardo Pereira/modelo: A Fran de volta
Terça-feira, 3 de Julho de 2007
louca como me prometeu
A cidade é violenta demais para idéias românticas como as nossas. Precisamos que façam silêncio, quero ouvir os seus pensamentos, os belos e os revoltados. Amar você porque seus cabelos são verdes e porque sua nudez me ensinou a escrever. Não quero outra vida que não uma que me faça carregar seus livros na volta do colégio. Bebemos e fazemos amigos mas não é a mesma coisa quando não é você no telefone.
Será que você é louca como me prometeu ou derrubar as prateleiras, as estantes, as estátuas, as vidraças, louças, livros é só um canção do caetano? Às vezes eu tenho a impressão de que esta não é você mas só uma fase. Daqui a pouco você aceita deus, o mundo e muda a cor do cabelo. Não seria a primeira que me faz uma coisa destas: chega um dia em que vocês cismam que a vida não pode ser só festa – então se casam, engordam, engasgam e morrem.
Domingo, 1 de Julho de 2007
meu filho brinca no vento
“Meu filho brinca no vento. Têm os cabelos doidos e quer ser leve. A mãe não o quer aéreo como o pai. Convido-o para becos e meninas. Ele vem e tem um nome novo para tudo. Quando vai embora estou lambuzado de mel. Sozinho quero brincar com ele. Nada é da cor que ele gosta quando não está aqui. Tudo se transforma ao seu primeiro sorriso. Quero lhe explicar o porque de cada bicho diferente do que está nos livros. Ele se espanta que eu tenha barba. Está ficando velho e tem medo. Acredito que uma guitarra resolva o seu problema. Não sei o que a mãe lhe diz sobre mim. Nada do que derruba tem mais importância do que ele. Gosto quando me bagunça. Se eu pudesse sonhava assim todas as noites...”
Ela me ouvia atenta como se eu não fosse deste mundo. Talvez não seja mesmo e tudo não passe de uma experiência científica. Quer ter um filho comigo eu lhe perguntei. Nossos filhos serão melhores do que nós. De noite lerei Julio Verne. Pela manhã quando eu não estiver morto desenharemos mundos melhores. À tarde lhe ensinarei vários tipos de assobios.
Porque você não existe é que eu te amo, ela me explicou. E fomos embora da cama e dos nossos planos. Nunca quis ter um filho por isto perguntei. De mim herdará apenas a esperança no homem. De você este carinho pelos poetas e loucos.
Sexta-feira, 29 de Junho de 2007
o seu fantasma
Não quero que amanheça. Não preciso do mundo lá de fora. Eu queria que fosse sempre noite e o seu fantasma para me fazer companhia. Ninguém até hoje amou um segundo sequer por isto não faz a mínima idéia do que eu estou sentindo. Dispenso piedade, cristianismo. Em matéria de amor estão todos boiando, eu sei a verdade, eu sei o quanto rasga, estraçalha, arrebenta e não pede desculpa: isto aqui no meu peito nem de coração mais pode ser chamado. Também sei o quanto esta porra vicia, eu falo, faço discurso, escrevo pro jornal e o escambau, mas sei que daqui a pouco tô eu de novo na praça rodando bolsinha – na luta pela minha trouxinha de poesia. Deus, como eu me vendo barato.Eu penso nas muitas canções de amor que fizemos aqui nesta mesma cama. Foram noites de ensaio e improviso. Nada mais importava no universo do que o próximo verso que deixaria tudo ainda mais perfeito. Como se dependesse de nós a harmonia do cosmos. Agora eu sinto como se um meteoro do tamanho da lua se aproximasse cada vez mais do nosso planeta – tenho quase certeza disso.
Não quero caminhar pela rua incompleto. Preciso que alguém me chame, que saiba o meu nome, meu nome secreto. O mais difícil é voltar à vida, ressuscitar depois de três dias. Estou que é só resto. Procuro uma camisa limpa e uma direção. Foto: Ricardo Pereira/modelo: Bruna S.
Quarta-feira, 27 de Junho de 2007
não é o amor que interessa
Não é o amor que interessa a B., mas antes a habilidade do outro corpo para o prazer, alguém sem preconceitos, que abocanhe, que insulte, que grite muito, que goste de dar e receber ordens. Esse outro corpo adormeceu no lado mais fresco da cama, onde o lençol ainda cobre o colchão. As veias e os músculos de B. continuam a pulsar, os dedos dos pés libertaram uma descarga que começou no sexo e que se alastrou para o estômago e depois por todo sistema nervoso. A carne cresceu e voltou a encolher ao redor dos ossos, os pulmões sossegam, há um risco de sangue no lábio inferior que B. limpa com a língua. A roupa e os sapatos são apanhados do chão e B. veste-se na cozinha, diminuindo a velocidade dos movimentos para lhe reduzir o som. Limpa o gargalo com a palma da mão, bebe água pela garrafa e certifica-se que recolheu todos os seus vestígios pessoais no apartamento. Sempre que B. encontra um corpo virtuoso guarda um endereço, um número de telefone, qualquer referência. Mas quando os corpos – como nesta noite – apenas servem de alimento, recusa repeti-los.Em casa, B. senta-se na cama, diante do espelho, e masturba-se, fechando os olhos depois para recorrer às imagens selecionadas em outras noites, várias pessoas numa cama, uma praça pública durante a noite, ou uma varanda e vizinhos que espreitam, às escondidas, na janela do edifício do outro lado da rua. Antes de adormecer, abre um livro erótico, escolhe um capítulo e começa a se tocar, procurando sintonizar o orgasmo com o orgasmo da protagonista. De manhã, na banheira, com a água escorrendo na pele, atravessando o sexo, B. já não sente repulsa do corpo que conheceu na noite anterior, e começa uma vez mais, a escolher imagens, gestos, palmadas, frases, que utiliza quando se manipula à procura de mais prazer.
Na rua, no emprego, num supermercado, B. persegue pessoas com quem quer se deitar, ou apenas ficar em pé, contra a parede, no banheiro de algum restaurante. É um exercício quase sem interrupções. E mesmo o trabalho serve apenas para conseguir dinheiro e poder, é um instrumento de conquista, uma outra maneira de conhecer pessoas para consumir. A noite, entra num bar onde casais procuram parceiros, e abusa do álcool para eliminar o desconforto de se aproximar de estranhos. Os diálogos perdem a importância, e os jogos verbais de sedução substituem-se por um pormenor, às vezes uns óculos, as mãos, os sapatos, objetos, ou apenas linhas de carne que aparecem entre a roupa. A exigência de corpos sem imperfeições, começa a desaparecer. Depois de tantas experiências, sabores e lugares. Importa encontrar sempre algo de inédito, porque a repetição destrói a intensidade do prazer.
No carro de um casal, B. despe a mulher e aprecia a atenção do homem que aproveita os semáforos vermelhos para observar o espetáculo do sexo no banco traseiro. Quando tudo termina, ainda antes de chegarem ao motel, B. salta do carro e corre pelo passeio sem se justificar. Continua a correr até entrar num táxi, fechar a porta e sentir as marcas da boca e das mãos da mulher nas próprias pernas, no rosto, pescoço, espalhando-se no ventre e nos mamilos. Esta é a fuga que executa sempre após a violência, o descontrole, a luta, o triunfo e o temporário estado de graça. Observando o taxista no retrovisor, B. puxa uma meia pela superfície da perna até alcançar a carne da coxa. Prende o cabelo e empurra os lábios contra o batom. Não é amor que procura, uma casa, uma família, alguém que a espere ao anoitecer. Os pedaços dos outros chegam para aliviar a solidão. E enquanto descansa os pés do salto, B. analisa as pessoas que caminham no passeio, escolhe alguém que consiga cansá-la mas que depois a deixe dormir sem se aproximar do seu corpo durante o sono.
(B. realmente existe, a inicial do seu nome nem é esta, achei que B. seria mais obscena que a sua própria, ela aprovou. O conto acima foi uma homenagem que lhe fiz. Como a conheci? Uma noite me puxou para um canto e foi clara comigo – “não estou a fim de você”, disse ela, “estou a fim de dormir com você”) Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Renata Punk
Domingo, 24 de Junho de 2007
this is not a love song
Para Raquel DrummondEu queria que você não desse tanta importância. Nem tomasse como algo pessoal. Fui com você como fui com todas. Ninguém teve a mais. Parece que não mas tenho princípios. Esta é a minha ética por mais cabeluda que ela lhe possa parecer. Não se culpe que eu não lhe culpo. Nem me culpe que eu não enganei você um minuto sequer. Fui sempre bastante sincero, você sentiu isto cada noite que passou comigo. Sei que quer passar mais algumas, eu também, a gente dá um jeito, mas você leva a sua vida e eu a minha. Eu sempre estarei aqui para você. Cabe a você vir ou não. Eu te amo assim do meu jeito. Acontece que há muito que elas me provocam. Bem antes de você descobrir que eu existia. Não precisa brigar comigo porque eu não sou perfeito. Eu sei que daqui há algum tempo eu nem estarei na sua lista de telefones e minha voz não a fará mais tremer de paixão. Eu sei como funciona estas coisas. Sei porque já cortei meus pulsos infinitas vezes. Eu queria que você saísse por aquela porta perfeita como entrou. Eu não te tratei como mais uma e você se apaixonou. Leu meus livros, trechos do meu romance, quis fazer parte dele, escrevi algumas linhas sobre você, revelarei só mais tarde quando tudo for história e você vai sorrir numa tarde da sua vida numa livraria em pé como se aquelas palavras fossem um sussurro no seu ouvido que você procura ao redor para saber se mais alguém escutou. Eu deixo você ir embora mas você insiste em ficar. Tudo bem, esteja à vontade, a casa continua sendo sua, mas na minha cama tem mais lugar: quero aproveitar o espaço. Não sei por quanto tempo mais vou estar inteiro. Tenho ficado velho ganhando dinheiro. Antes eu era mais livre, não tinha quase para nada, mas dava um jeito. Agora que eu tenho para gastar as coisas estão mudando de sabor, preciso aproveitar o que resta de doce naquilo que sobrou. Claro que eu quero mais um. Quantos você quiser me dar. Não sei recusar. Acho que se soubesse tudo se resolveria mais facilmente mas eu não sei, minha carne é óbvio que é fraca, mas nem a mais e nem a menos do que às dos outros mortais. Você decide se participa ou se finge que não escuta. Não dá para abaixar o som. A vizinhança que se dane e o que ela quiser pensar. Não pense que não é difícil para mim admitir o quanto cedo fácil às tentações. O quanto sou também pequeno, vulgar, humano. Só não quero lhe enganar. Muito menos me trair. Já aconteceu e você sabe. Não tem porque disfarçar. Não, não era uma prima de longe que veio me visitar. Foi você quem quis entender assim. Lembra quando você era a prima de longe que vinha me visitar? Não fazia esta cara que faz agora. Dizia que na calada da noite era mais gostoso mesmo que isto significasse à uma da tarde. Antes de começarmos sabia bem em que estava se metendo. O que eu prometi eu cumpri. Suas amigas lhe falaram de mim. Com quantas delas eu já havia estado? Duas, três. Duvido que elas só me tenham feito elogios. Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Cátia Elétrica
Quinta-feira, 21 de Junho de 2007
às quatro da manhã
“Eu era uma ilha qualquer até você aparecer”“Mas eu não sou ninguém”
“Então fomos feitos um para o outro”
A noite estava linda. O nosso conceito do que faz uma noite linda é bem particular. Não se atrevam a pensar como nós, vivam suas vidas e nos deixem em paz. Ela me contava da sua infância, eu não queria ouvir aquilo, mas gostei do timbre da sua voz, disse que ela podia ser uma cantora e ela riu gostoso – seu trabalho é atender telefones e dar desculpas em nome do seu chefe para garotas de nome Shirley numa empresa grande e fria, o salário é razoável, paga o aluguel e o que sobra ela gasta em vestidos e penteados. E você o que faz?, ela quis saber. Eu minto que sou um escritor. Mas a esta hora da noite eu sou só um jornalista mesmo – meu trabalho é dizer que se as coisas não vão bem a culpa é tôda dos adversários políticos do dono do meu jornal e, claro, flertar com as estagiárias numa empresa grande e fria, o salário é razoável, paga o aluguel e o que sobra eu aposto nos cavalos.
Depois ela me contou das viagens que gostaria de fazer, do filme que vira naquela semana e de um ex-namorado ciumento. Toda aquela ladainha começou a me dar sono, o relógio da lanchonete marcava quatro da manhã, eu sabia que se a convidasse para ir até o meu apartamento ela aceitaria, acho que ela mesmo teria sugerido aquilo se não fosse seu medo de parecer uma garota barata. Ora, benzinho, as quatro da manhã todas as garotas são baratas e se não têm coragem de dizer que querem subir para o apartamento de um cara estão na vida errada.
Eu joguei algumas moedas sobre o balcão e o sujeito atrás dele as apanhou rapidinho como se não visse a hora de que fossemos embora. Ela me seguiu como se eu fosse uma espécie de guia pela madrugada. Depois de algumas ruas grudou no meu braço esquerdo, a cabeça esticou sobre o meu ombro e o cheiro dos seus cabelos invadiu-me as narinas como um narcótico dos bons. Corri minha mão pelas suas costas até agarrar sua cintura e puxa-la contra mim. Ela deixou escapar um pequeno suspiro e eu tentei me lembrar de alguma melodia que pudesse assobiar naquele momento. Não teremos filhos, nem seremos felizes, mas isto na vida às quatro da manhã é o que menos importa. image: Edward Hopper - Nighthawks(1942)























