sábado, 11 de março de 2017

quarto e sala

Vamos adorar recebê-la. Meus móveis, eletrodomésticos, cama, mesa, banho e eu. Minha campainha espera o seu toque. A porta que por ela passe. O tapete que o pise, sem dó. Se quiser tire o sapato, fique a vontade, a casa é sua. Meu sofá quer que se acomode. Meu abajur iluminá-la. Meus livros que os folheem. Se quiser leio para você, a insustentável leveza do ser, são só trezentas páginas. Meu fogão quer cozinhar para você. Meu refrigerador manter o vinho na temperatura certa. Meus pratos servi-la. Se quiser ensino meu tempero, é salsa chinesa, tem em qualquer mercado. Meu toca-discos quer tirá-la para dançar, as taças brindá-la, as paredes guardar segredos. Se quiser pode ficar, não importa o que os vizinhos vão pensar, ambos somos solteiros. Minha cama quer aconchegá-la, meu lençol se impregnar do seu cheiro, o meu relógio que as horas demorem a passar. Se quiser pode me amar, se quiser vou recebê-la por inteiro, apertando um pouco sobra até lugar. A mesa do café quer lhe dizer bom dia, a água do meu chuveiro percorrer todo o seu corpo, a toalha envolvê-lo todo. Se quiser pode vestir uma de minhas camisas, se quiser pode ficar como está, as cortinas servem para isto mesmo. Meus móveis não querem que você vá. Meus eletrodomésticos deixarão de funcionar sob protesto. Até você voltar ao meu quarto e sala modesto. Foto dela: P. Palmieri.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

desculpas

Tinha vinte e nove anos quando ela partiu. Depois disso nunca mais me envolvi com ninguém completamente. Estive em inúmeras camas, só de corpo presente. Peço desculpas por isto. Principalmente às que não perceberam. Em nossa última conversa fizemos planos. Nunca mais fiz planos com ninguém. O futuro não é certo como aprendi aquele dia – quando voltei para a casa para onde a gente se mudaria e dei de cara com as nossas fotografias. As poucas que fizemos em um ano e meio. Ela queria registrar tudo, eu era mais reticente. Acreditava que duraria para sempre, que não precisávamos gastar filme com algo que era tão presente. Hoje não acredito em nada que pareça para sempre, não digo que amo nem gosto de ouvir, peço desculpas por isto, a todas que me disseram, a todas a quem queria ter dito. Dediquei a ela minha última poesia. Depois disso eu só me repetia. Conquistei com versos que nada diziam. Peço desculpas por isto também: a todas as mulheres que não amei como mereciam. Muitas perdi, algumas preservei: amigas queridas na noite comprida. Na modernidade líquida me agarrei, nos amores líquidos, queria ser diferente, mas não sei. Foto dela: Liliann.

domingo, 23 de outubro de 2016

você não precisa de mim


para helena m. 

Você não precisa de mim para ser por isto posso partir pela manhã como quem nem esteve ali. Não há nada para dizer, nada que me mantenha aqui além do que você já me quis, deixo a cama devagar como quem sabe ocupar um lugar que não lhe diz. Antes de sair procuro apagar todos os vestígios meus, não fiquei de te ligar nem mesmo de voltar, nada se prometeu. Fecho a porta atrás de mim como se fosse o fim. Já na rua, respiro o ar de um novo dia, um minuto a mais e, um ao outro, sufocaria. Você acorda como quem sonhou, dormiu nua porque estava calor, embora seu corpo todo saiba que fez amor. É uma segunda-feira cheia de coisas mais importantes: terminar uma tela, cortar só as pontas, viver a sua maneira, ninguém paga suas contas. Ainda demora para ser noite de novo, para esticar o braço para o que está fora da gente, não dentro, não por um vazio que se preenche. Pode ser que me procure, pode ser que não me encontre, não precisa ser o mesmo da noite de ontem. Não há cobrança nem dor, o que um dá o outro não sente que conquistou, importa só quando se tem entre – as pernas, os braços, os dentes. Foto dela: M. Palmieri.

domingo, 26 de junho de 2016

o meu aprendizado

Poderia ter o homem que quisesse e, ainda assim, escolheu-me, mesmo que seja por algumas noites é grande a responsabilidade. Se está fugindo de algo, sendo quem, de fato, é, entregando-se ao que tem vontade, não me foi dado o direito de descobrir, então, aceito o que me diz, aquilo que me der, o quanto precisar de mim, busco, dentro do possível, retribuir. Não sei se estou a altura, e é isto o que mais me tortura, porque entre ela chegar e partir, não há como não apaixonar-se – e, então, agarro-me ao que resta, a cama para arrumar depois da festa, como vestígios de que fui feliz. Abaixo os meus braços antes que os perceba estendidos em sua direção, quando levanta e começa a se vestir, querendo que ela fique mais do que o combinado, quando o combinado foi o que ela decidir. É apenas sexo, pelo menos deveria ser, “assim ninguém se machuca” eu mesmo dizia no começo, sem imaginar que isto cobraria um preço. No íntimo, sei que mereço, que reajo, assim, por egoísmo ou brio, já que nunca me entreguei a ninguém, só o suficiente para me proteger do frio; e que, portanto, teria contas a acertar com o meu passado, que ela representaria todas as mulheres a quem não teria se entregado, a vingança do seu sexo e o meu aprendizado. Foto dela: Laura.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

hoje é domingo


Mas não me olhe assim como quem precisa se explicar, o que aconteceu fica entre a gente, não deixa esse quarto, se pedir mais podemos conversar, mas se considerar que uma noite foi o suficiente, entenderei perfeitamente, sei tudo o que tem passado, sentido, guardado, que ontem precisava mais do que de um simples confidente e que como era eu quem estava, como sempre, ao seu lado, foi me dado este presente. Mas não me olhe assim como quem precisa se vestir depressa, chamo um táxi se quiser, mas o que eu queria mesmo era te preparar o café, fazer você entender que a noite passada não muda nada entre a gente, se ela durou exatamente o que tinha de durar. Mas não me olhe assim como se tivesse me usado, aqui nessa cama não há inocente nem culpado, tudo o que você me deu eu já havia desejado, embora temesse que quando acontecesse pusesse fim ao que tínhamos antes – quantos bons amigos deixaram de sê-lo após se tornarem amantes? Mas não me olhe assim como se tivesse de tomar uma decisão, hoje é domingo pede cachimbo, o que for melhor para o que está sentindo tem a minha aprovação, se for para te ver sorrindo sem esse ar de preocupação. Foto: F. Weiller.

sábado, 31 de outubro de 2015

sinto que lhe devo


Sinto que lhe devo, gostaria de pagar. Não serve como desculpa eu sei, mas estava com a cabeça em outro lugar. Quando apareceu na minha vida, eu vinha de uma história mal resolvida, onde ainda lutava para ficar. Nada disto lhe dizia respeito, mas de alguma forma acabou atingida, porque merecia que eu estivesse com ela por inteiro e não apenas para curar uma ferida. Na cama era outro o corpo que eu amava, o seu apenas o substituía, o meu apenas representava, fazer amor doía, machucava. Não dei ouvidos ao que sentia por mim e, apaguei, assim, o brilho que produzia no seu olhar, a vontade de me beijar dos seus lábios, o homem pelo qual se apaixonava. Como convencê-la que não sou o mesmo de antes, aquele que não soube ser seu amante, que de forma tão fria fez pouco do que me oferecia, que deitado ao seu lado sentia que a cama continuava vazia, vazia? Não há perdão para o que fiz, nem é isto o que procuro, ela, provavelmente, já faz outro feliz e eu parte do passado. Convencê-la, então, não é o mais importante, convencer-me parece o mais adequado, de que não estou fazendo exatamente o mesmo com quem agora se deita ao meu lado. Foto dela: F. Weiller.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

de noite

De noite é a melhor hora do dia, de noite quando você vem, fica tudo te esperando em mim, este meu corpo que não se contém. De noite apaga a luz e esquece, esquece as contas, a tese, esquece até de fazer uma prece, esquece que brigamos também. De noite me chama como quiser, de noite deixamos de ser quem se é, para ser como desejamos, de noite quando nos amamos. De manhã voltamos a ser quem somos, de manhã o trânsito não nos deixa esquecer, a vida que vamos levando, a vida que temos para viver. De manhã nos separamos, de manhã cada um pega o seu caminho, de manhã não nos encontramos, de manhã nos encontramos sozinhos. De tarde bate aquela saudade, aquela vontade de se ver, contamos os minutos do tempo passando, de tarde começa a escurecer. De tarde combinamos o que faremos, de tarde combinamos como vai ser, se saímos para beber, jantamos, vamos ao cinema ou alugamos um dvd. De noite tudo se resolve, você sobre mim, eu sobre você, de noite tudo se encaixa, acha sua razão de ser. De noite não há tempo para mais nada, de noite não há tempo a perder, de noite encontro o que faltava, de noite me encontro dentro de você. De noite parece que não há mais nada, nada entre eu e você, e é assim até adormecermos, e é assim até o dia amanhecer. Foto dela: Marcelle.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

idas e voltas

Ela reaparece com o frio, chega como quem não quer nada, uma dica de filme, um livro emprestado – e fica todo o feriado. Não vem atrás do passado, apenas de alguém que a conhece bem, o seu corpo de cor e salteado, todos os segredos que ela tem. Guardo tudo de cabeça, de tanto que já fui apaixonado, é o que me prende a ela, o motivo pelo qual ainda vem. Não conversamos mais sobre como seria, já estamos mais do que vacinados, satisfeito o que queria, ficamos o resto do tempo calados. Nos fazemos companhia porque já temos, como dizia, um passado, de idas e voltas, algumas curtas outras compridas, a gente se prende e se solta – é como esperamos que sempre aconteça, por mais que não possamos ter certeza, existe sempre o risco, de que seja mais do que isto; mas até para isto estamos preparados, inclusive para fazer dar errado, posso traí-la como já fiz, ela algo mais que não possa ser perdoado. A despedida é sempre fria e eu fico com a casa maior do que parecia, mas é só por alguns dias, depois tudo volta a sua normalidade, até que ela sinta, novamente, de mim, necessidade. Foto dela: Camila. 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

para que lado olhava que não te via?


Algumas decisões vão sendo tomadas pelo corpo, nem sempre é possível precisar como tudo começou, se alastra pela gente como uma corrente, porque o desejo arrasta tudo o que vê pela frente, cercas, muros, portas apenas encostadas e até aquelas que estão à sete chaves trancadas. Não foi o beijo, foi a ciência de que te beijaria, aquele momento em que se presta mais atenção nos lábios se movendo do que nas palavras que estão dizendo. Mas ainda é algo antes disso, antes do beijo, antes de sentir que te beijaria, quando tudo o que ela diz passa a ser poesia e você se pergunta “para que lado olhava que não te via?” porque caminhávamos pelas mesmas empoeiradas livrarias, pelas mesmas salas de cinema vazias, tudo que nos aproximava ao mesmo tempo nos distraía. Mas agora “acordo” e sinto que ela está presente, não como algo que toco sempre, porque dentro, como se meu corpo existisse apenas para envolver este sentimento, que busco a todo custo proteger dos efeitos do tempo - porque quem já viveu antes sentimentos semelhantes sabe como é difícil mantê-los imensos como neste momento. Foto dela: Laura.

sábado, 20 de dezembro de 2014

retrospectiva


Em janeiro já não exigíamos mais um do outro, mesmo assim resistimos até fevereiro, estávamos tranquilos quanto ao fim, só adiávamos a última noite mais um pouco. Em março senti sua falta, mas era algo que eu já previa, mesmo assim levei abril inteiro em banho-maria, só me importava mesmo que a cama nunca parecesse vazia. Em maio entendi que não era o suficiente, até conheci gente interessante, mas nosso santo não batia, foi ficando difícil e eu preocupado com o inverno que logo chegaria, em junho deixamos algumas questões de lado e nos fizemos companhia. Durou até agosto a temporada de noites frias, em setembro nos sentíamos mais amigos que qualquer outra coisa, uma pena que isso nunca pode durar eternamente, porque tanto você quanto eu sabíamos que deveríamos seguir em frente. Em outubro conversamos longamente, se entre nós não seria assim para sempre? Se não viveríamos entre idas e vindas, intercalando outros amores entre a gente? Em novembro ainda nos víamos, mas já não foi assim tão frequente, dezembro chegou e não nos encontrou muito diferente de um ano atrás, eu sem saber se acabou e você linda demais. Foto dela: Irina. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

chega a notícia

Tudo parecia em seu lugar, mesmo o que fez falta um dia parecia tão distante que eu sequer pensava na possibilidade de que ainda pudesse fazer tremer o mundo ao meu redor, mas chega a notícia de que dentro de algumas semanas ela volta de Londres e eu sinto que em quem me agarrei esse tempo todo não será o bastante. Hoje eu abri uma gaveta onde suas lembranças estavam guardadas, seu cheiro impregnou-me todo, não havia como disfarçar, sorria feito bobo. Não me deu nenhuma indicação de que vamos retomar de onde paramos, afinal passaram-se cinco anos, se tivesse ficado por aqui, talvez, nem tivéssemos sobrevivido, mas como lidar com a sensação de que algo foi injustamente interrompido? Você precisava partir, era uma oportunidade e tanto, eu te apoiei como se apoia aqueles que sabemos que podem ir muito além de nós, sempre te achei uma versão melhorada dos meus sonhos. Precisamos nos encontrar nem que seja para nos afastar logo em seguida, para que cada um de nós possa seguir com a sua vida, para que eu possa seguir com a minha vida, sem o peso do que poderia ter sido toda vez que te visse. Foto dela: Irina. 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

entrelaçamos braços e pernas


Não, a gente não espera que nasça algo disso, estamos apenas damos “um tempo” um com o outro, seguimos abertos a tudo o que acontece ao nosso redor, nos fazemos companhia enquanto nada mais profundo nos atinge: é que quando começa a temporada de noites frias não dá para dormir só. Não precisa ser amor na maioria das vezes, até porque, na maioria das vezes, nem é amor realmente, apenas uma vontade de que nos esquentem, que vem desde nossos antepassados, homens das cavernas – e como ainda não inventaram nada melhor que o corpo humano, nem acredito que inventem, entrelaçamos braços e pernas. Gosto de você porque, como eu, é transparente, é honesta na hora de dizer o que sente, podia ser outro no meu lugar, também podia ser outra no seu, mas gosta que seja eu, porque a gente se entende. O inverno parece que promete, nós não prometemos nada, nem outra noite além desta, nem mesmo esta estava programada, aconteceu como acontecem as caronas na estrada, duas pessoas com o mesmo objetivo, passarmos ilesos por mais uma madrugada – de preferência, bem aquecidos. Foto dela: Lídia Sabini.

domingo, 16 de março de 2014

sei partir, sei me retirar em silêncio


Sei partir, sei me retirar em silêncio, prefiro assim quando de tão claro não se precisa dizer mais nada. Ainda que um pouco de si sempre se deixe, olho em volta para ver se não esqueci algo, como foi bom por exemplo, mas ‘como foi bom’ foi a primeira coisa a ser guardada. Achei maduro da nossa parte nos despedirmos com um beijo, ainda que bem diferente daqueles que a gente se dava, “você me liga?” e “eu te ligo” foram as nossas últimas palavras, ditas assim enquanto a porta se fechava. Mas continuaremos amigos, amigos que não precisam esconder tudo o que sentiram, mas que, talvez, precisem esconder o que ainda sentem até não sentirem mais nada, mas quanto tempo leva isso? – pergunto na volta para casa. Estranho que de uma história tão leve como a nossa carregue uma mala tão pesada, disse a mim mesmo tantas vezes que não era importante para só me dar conta agora do quanto importava. É que algumas decisões já estavam tomadas, independente do que acontecesse entre a gente, mas isso não significa que não passarei a madrugada imaginando como seria se pensasse diferente. Foto dela: Ká.

domingo, 13 de outubro de 2013

não guardo rancor, só amor


Não é porque você não me deu uma chance antes que eu não vou te dar a tua – não guardo rancor, só amor. Estou errado em ser tão indulgente? O que importa é que antes eu só te sonhava nua e que agora meu sonho se realizou; o resto me é indiferente. Desculpa se quero aproveitar cada segundo, se nunca te quiseram tanto assim, é que eu cheguei a pensar que nunca te teria e aqui está você diante de mim. Pode ser que você não me queira exatamente, que esteja apenas se esfregando em algo quente, mas se tuas razões não estão claras, as minhas estão mais do que evidentes. Mas não pense que sou de sufocar, gosto de você esta noite, não sei se será assim para sempre, se uma manhã não acordarei sentindo que já tive o suficiente? Não se preocupe em explicar por que fez pouco do que eu sentia anteriormente, só se eu fosse um tolo para dar mais importância ao passado do que ao presente. Digamos que você se atrasou, que pegou o caminho errado, importa que fizemos amor, que eu não me arrependo de ter esperado. Foto dela: Rebeca.

domingo, 15 de setembro de 2013

"te soltar mesmo querendo te prender"


Fomos fazendo as nossas próprias regras, “te soltar mesmo querendo te prender” é uma delas, o que me faz conviver ao mesmo tempo com a sensação de que estará por perto sempre que eu precisar e a de que nunca terei realmente certeza disso. Mas saberíamos ser de outra maneira? – pergunto-me quando você demora mais do que eu gostaria e também quando chega de repente sem avisar que vinha. É que ás vezes é como se lesse meus pensamentos, outras como se nem estivesse me ouvindo, ainda estou aprendendo a interpretar os sinais, temo conhecê-los todos tarde demais. Mas você diz que isso é o de menos, que devemos nos concentrar no que estamos vivendo, não no que nos tornaremos, se um dia seremos como os outros casais. E pensar que foi justamente por não querer ser como os outros que fomos fazendo as nossas próprias regras, das quais às vezes me arrependo, não tenho certeza mais. É que a liberdade é um desafio, assim como o amor sob seu crivo: se te prendem te tiram o direito de querer ficar, mas se te soltam compreende o que te faz voltar. Foto dela: M.B.

domingo, 25 de agosto de 2013

tudo se transforma


Gosto de pensar que os amores vão se acumulando dentro da gente, que o que sentimos nunca se perde, torna-se parte de nós, algo latente. Não falo de alguns amores em especial, falo de todos indistintamente, sejam aqueles que tiveram o seu tempo, sejam aqueles interrompidos precocemente. Lavoisier dizia “na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, penso que com o amor não é diferente, toda história nova que se inicia tem algo da que passou presente. O corpo aprende com o amor, nossa boca com todas as bocas que se beijou, nossas mãos mesmo com aquelas mãos que se soltou, os braços, a pele e assim por diante: cada mulher que me amou me tornou melhor amante. O que você gostou de ontem a noite peguei emprestado de outras noites, fui juntando os pedaços, posso até esquecer com quem aprendi, não o aprendizado. O que você gostou em mim vem deste meu passado, não faz sentido sentir ciumes do que me foi deixado, do que está em cada um dos meus gestos, atos, movimentos para cima e para baixo. E como os amores que se acumularam anteriormente, o seu também resistirá a gente, se tornará parte de mim, algo para sempre. Foto dela: M.B.

domingo, 30 de junho de 2013

você veio


Não pensei que viesse, embora tivesse, claro, esperança, afinal, depois de tanto tempo pinta a desconfiança de que talvez já fosse passado, que não desse as noites que tivemos a mesma importância que ainda dou, por isso guardei seu número, imaginava que isso pudesse acontecer, que um dia mais do que te rever quisesse de volta o que 'acabou'. Mas não queria interromper nada, se estivesse em outra me desculparia, um misto de curiosidade e saudade me movia, de saber como estava, se a gente ainda 'podia'. Não pensei que reconheceria minha voz, embora tivesse me ouvido dizer tantas vezes o que sentia, será que guardou minhas poesias?, queria incluir muitas delas numa antologia, nunca fui tão explícito, nunca fui tão bonito como naqueles dias; podia fingir que estava ocupada, eu entenderia, mas você conversou comigo ‘durante horas’ como se fosse algo que há muito queria, combinamos que viria, que daria uma passada, sem pressa, quando pudesse, quando quisesse, eu te esperaria. Você veio, para minha surpresa, para minha alegria, como quem muda seus planos para aquele dia, como quem se veste para uma ocasião que há muito não se vestia, como quem se despe para quem há muito não se despia. Foto dela: Ana Martin.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

ela não queria se envolver


Ela não queria se envolver, foi a primeira coisa que me disse, foi assim que nos conhecemos, mas isso é algo que não se pode prever. Deixei que ela expusesse seus argumentos, não me opus, aceitei o que esperava de mim e as noites foram se sucedendo assim: sem necessidade de mais nada a não ser o que me dava e que eu procurava corresponder. No fim de algumas semanas estávamos cada vez mais ligados, ela ainda se prendia ao passado, não se soltava dele e desatava a correr, eu como de hábito preso ao presente, como acredito que ‘gostar’ tem de ser, mas isso era algo que não se discutia, simplesmente vivia-se, até onde desse, até quando a gente se quisesse, até quando deixasse de se querer. Ela não queria se envolver, eu não queria que ela fizesse nada que não quisesse, por isso fomos deixando acontecer, ao sabor do tempo, como se cada momento fosse em si mesmo e em si mesmo pudesse nos satisfazer. Há uma semana do dia dos namorados, ela não sabe se me compra algo, eu como a chamo, mas isso é algo que não se põe na mesa, mas espalha nossas roupas pelo chão, sem necessidade de “eu te amo”, sem necessidade de explicação. Foto dela: Lizie.

sábado, 30 de março de 2013

só pensando como foi bom


para M.

Respeito o que eu sinto, gostaria que você fizesse o mesmo, se desconhece a força da correnteza não diga nada que possa romper uma represa. Hoje eu acordei na sua cama, só pensando como foi bom, você me ame ou não. Não é difícil, para mim, levantar e me vestir, tomar um café se tiver e sair – como se tudo já estivesse acertado entre a gente, desde ontem, desde sempre. Aceito o que me dá, se desse jeito é mais transparente, só não me peça para ficar sem saber exatamente o que sente. Prefiro não complicar, se gostei quero de novo, gostaria que quisesse o mesmo, nem que fosse só mais um pouco. Não precisa ser importante, não precisa ser mais do que isso, o que queremos pode ser simples, não envolver qualquer sacrifício. Não quero confundir sua cabeça, dizendo mais do que desejo, para ter você em minhas mãos como a um brinquedo, gostaria que fizesse o mesmo. Eu não me importo que me veja só como um corpo, faço uso de mim como bem entendo, sou eu quem decido, no fim, se parto ou se me rendo. Hoje eu acordei na sua cama, só pensando como foi bom, gostaria que sentisse o mesmo, eu te ame ou não. Foto dela: Lara.

domingo, 17 de março de 2013

para começar numa outra cama


O que é ‘bom’ no amor é que ele acaba – para começar numa outra cama. Aprendi isso um milhão de vezes, por isso não faço drama: se ela não me ama não me ama, é um direito dela, é um direito meu, não faz sentido manter vivo algo que já morreu. Todo mundo quer que dessa vez seja diferente, mas não é porque não foi para sempre que não valeu, penso nas noites que tivemos, cada beijo que demos, tudo o que aconteceu, ali no quarto escuro, não pensávamos no futuro, tínhamos mais o que fazer, e fizemos o que queríamos – e porque fizemos o que queríamos fizemos com prazer. Todo mundo quer que dessa vez seja especial, mas não é porque chegou ao final que deixou de ser, penso em todos os poemas que me fez escrever e que um dia voltarei a ler, para outra que me lembre ela, para outra que não tenha nada a ver. O que não tem hora para terminar não tem hora para começar e entre uma história e outra pode ser que faça frio, mas se o verão não é eterno, também não o é o inverno, aprendi isso um milhão de vezes, por isso não faço drama: o que é ‘bom’ no amor é que ele acaba – para começar numa outra cama. Foto dela: Tamara.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

hoje eu queria te dizer isso


Hoje eu queria te dizer isso, mas não sei como irá interpretar, é que você vai ser uma mulher incrível, te olho e vejo quem está para se tornar. Era nisso que eu pensava quando você me perguntou o que eu tanto olhava, parecia que via qual era o teu destino e nele me procurava – ah, como eu gostaria de estar lá. Pode ser que até esteja, talvez não como desejo, por isso que cada beijo seu me é tão precioso, porque não sei até quando vai durar. E de onde vem tudo isso? Essa minha previsão? Vem dos livros que tem lido, das conversas que temos tido, das vezes que pensamos parecido e até quando não – porque você faz questão de ter a sua própria opinião e isso de querer ter a sua própria opinião me dá uma vontade ainda maior de te beijar. Porque presencio o seu amadurecimento, como vão melhorando os seus argumentos, como questões que antes nem se fazia vão ocupando pouco a pouco o seu pensamento. Era nisso que eu pensava quando você me perguntou o que eu tanto olhava, lembrava a timidez no primeiro jantar, como nem me encarava, até hesitava antes de falar, tão diferente dessa que me olha nos olhos e cita Simone de Beauvoir. Hoje eu queria te dizer isso, mas não sei como irá interpretar. Foto dela: Tamara.

domingo, 20 de janeiro de 2013

tudo o que é sólido desmancha no ar


Até gosto de uma certa ordem, dos meus livros todos no lugar, para quando eu tiver alguma dúvida sobre “quem disse isso mesmo” saber onde procurar, mas a você dou essa liberdade que se concede apenas às crianças e ao vento de tudo bagunçar. Até gosto de um certo silêncio, de poder ouvir dos meus pensamentos ao barulho de uma agulha que cai num outro aposento, mas quem disse que para o seu violão eu não abro uma exceção? Até gosto de uma certa rotina, da minha vida perfeita só que não, de saber onde me encontro, como me acho, mas vem você e põe minha agenda abaixo, então sou eu quem me encaixo no seu dia-a-dia como um verso numa poesia. Até gosto de uma certa solidão, de parar tudo o que estou fazendo, de um momento de reflexão, mas prefiro que não se afaste muito, que seja só esticar o braço, apenas estender a mão. Até gosto de um certo equilíbrio, entre o que sinto e digo, o que penso e revelo, mas diante de você não consigo ser assim tão austero – não consigo e nem quero. Foto dela: Denise.

domingo, 23 de dezembro de 2012

apenas uma noite


Estamos juntos desde ontem, isto é, há apenas uma noite, não dá para dizer muito ainda, acordei de manhã e ela é linda – não sei se levanto e faço o café ou tiro uma fotografia, para me lembrar como era antes de saber como seria. A gente sempre estava com pressa toda vez que se encontrava, não trocava muitas palavras, ‘um dia quero saber mais sobre ela’ – era o que eu pensava enquanto se afastava sem que eu soubesse de onde vinha, para onde ia. Ela que vestia minhas cores preferidas, que tinha um perfume que não me deixava e o jeito que sorria toda vez que me via – ah, era tanta coisa nela que eu já queria. Só precisávamos mesmo era de uma noite, de uma noite para começar, sem se preocupar com o que viríamos a ser, com o que nos tornaríamos. Era mais para se beijar, para se conhecer, saber como nossos corpos se dariam, tudo o que a gente sentia, achava que sentia, sentia de fato. Sei que acabou, que não agiremos mais como antes, que algo pode ter começado, quem sabe se importante, não dá para dizer muito ainda, acordei de manhã e ela é linda. Foto dela: Sarah Herman.

domingo, 18 de novembro de 2012

de volta ao que já sabemos


É simples porque já nos conhecemos, deu vontade de fazer e fizemos, os adultos agem assim – ou ao menos deveriam agir. Eu não me lembro de tudo o que vivemos, guardo somente o quanto me fez feliz, acho que você faz o mesmo, o modo como se rende é que me diz. Estamos de volta, portanto, ao que já sabemos – ao que já sabemos teve um fim, mas por algumas horas, nos esquecemos; podia ser sempre assim. Novidades todos temos, seu corpo já não é mais o mesmo: teve filhos – filhos que eu nunca quis. Também mudei, não só aparentemente, hoje penso diferente, penso n’o filho que não fiz – que como no poema de Drummond, hoje seria homem. Ele corre na brisa. Sem carne, sem nome*. Mas sinto que é tarde, para os muitos planos que a gente se fez, você me pergunta as horas, tem que ir embora antes das seis. Vai me ligar, vou atender, faremos isso uma outra vez, quem sabe volte a fazer sentido, quem sabe acabe daqui um mês. Foto dela: Nicole. *versos do poema ‘Ser’ de Carlos Drummond de Andrade.

sábado, 13 de outubro de 2012

ainda me perguntam de você


Ainda me perguntam de você. É como se quando me vissem sentissem que algo está faltando, como se a qualquer hora fosse entrar, só estivesse estacionando. Respondo rápido que não estamos mais juntos, tenho o receio de que você se torne o assunto e eu tenha que discorrer, ainda que resumidamente: por que não duramos para sempre? Sinto que todos, mesmo que por alguns segundos, perdem a crença no amor: se a gente se separou, o casal mais perfeito do mundo, que dirá eles que não tem a mesma poesia, nada possuem de mais profundo? E não adianta eu estar acompanhado, parece que algo não está direito, ou ela é jovem demais ou encontram algum outro defeito. Sei que você não passa pelo mesmo interrogatório, quando te encontram nada vêem de errado, você seguiu em frente, nada a prende ao passado: eu não escrevi meu livro, você vendeu os seus quadros. Desconverso, não entro em detalhes, mas sei que perguntarem de você continua me abalando, tanto que sinto como se a qualquer hora fosse entrar, só estivesse estacionando. Foto dela: Julia Manicase.

sábado, 15 de setembro de 2012

na noite em que ela fez 29 anos


Parece que diante de você fico transparente, sinto-me nua na sua frente. 

Fiquei depois da festa, quando todos já tinham ido embora, ajudei com os copos, as cadeiras, esvaziei os cinzeiros, empurrei o sofá. Vieram amigos seus do trabalho, da faculdade os que restaram, acho que só eu não me encaixava em nenhum lugar. Beberam vinho, ouviram música, todos riam, não paravam de falar – de como a conheciam, de viagens que fizeram, de pessoas que sumiram, de onde deveriam estar. Trouxeram presentes, não precisava, ela dizia, antes de desembrulhar: loções, bijuteria, maquiagem, o que toda mulher gosta de ganhar; escrevi uma poesia, no verso de uma fotografia, como sempre sorria, não havia como não se inspirar. Mostrei quando estava só a gente, não queria, mas a fiz chorar, quis dizer tudo profundamente, tenho essa mania de me aprofundar. Parece que diante de você fico transparente, sinto-me nua na sua frente, Anna Karina e Jean-Luc Godard. Nos olhamos como se fosse para sempre, sabendo que tinha hora para acabar, ajudei com os copos, as cadeiras, esvaziei os cinzeiros, empurrei o sofá. E se não ficamos juntos o quanto pretendíamos, ficamos juntos o quanto sabíamos que podíamos ficar. Na noite em que ela fez vinte e nove anos eu estava lá. Foto dela: Desirée.

domingo, 26 de agosto de 2012

ainda que não mais nos vejamos


OK, mudo de “grande amor” como quem troca de camisa. É que eu quero mais do que o corpo pode, a alma precisa. A vida é muito curta, as possibilidades infinitas, não me interessa ser feliz e só de alguém, interessa-me a felicidade num vai e vem – num vai e vem como a brisa. Por isso essas minhas histórias mínimas, onde “ela” e “você” não se identificam bem, ainda que uma poesia aqui outra ali arrepie a pele de alguém – às vezes até imagino de quem, outras nem. Cada uma me deu algo para contar, não se desperdiça o que faz tão bem, minha poesia é cheia de parcerias, gostaria que soubessem o que minha literatura contém. Ontem a noite, ainda que não mais nos vejamos, ontem a noite me aquecerá por anos, ainda que não mais nos vejamos. Hoje de manhã, hoje depois que nos separamos, voltei para casa respirando os cheiros que exalamos, lembrança de que nos amamos, ainda que não mais nos vejamos. É dessa mistura que estou falando, de tudo o que compartilhamos, por isso essas minhas histórias mínimas, onde todas se vêem, lembrança de que nos amamos – há séculos, anos, ontem. Foto dela: Valeria Heine.

domingo, 27 de maio de 2012

fique o tempo que quiser


Deixei-a dormindo, toalhas limpas, café e um bilhete dizendo a hora que voltaria. Tempo suficiente para decidir se me esperava ou partia. Até onde eu sei foi bom, gostaria de repetir, pensei isso enquanto dirigia. Dizia seu nome e com quais palavras eu o rimaria. O rádio do carro ligado com as primeiras notícias do dia – mas quem disse que eu o ouvia? Lembrava a noite passada, do que me falava, como sussurrava e ardia. E até o jeito que se mexia, o rangido mesmo que a cama fazia. Podia jurar que a cidade toda tremia – pelo menos, dentro de mim, ainda tremia. Imaginava ela acordando, espreguiçando, cada gesto que faria – que aos poucos tudo ia voltando, inclusive o que seu corpo ainda sentia; que reconheceria onde estava, de quem era aquele quarto e sorriria; que não se vestiria apressada, não era uma manhã fria, que caminharia assim como estava pela casa vazia; que se interessaria pelos meus livros, disse ser daquelas que lia, que um título ou outro lhe atrairia, que os tiraria do lugar e folhearia; que se lembraria do disco que ouvimos ontem, que colocaria de novo para tocar, Nina Simone at Newport e que começaria a dançar. Imagino que dançaria. Foto dela: Ana Martins.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

sempre que ouvir chet baker

Depois de um tempo você nem se lembra mais quais discos eram seus, quais discos eram dela, de tanto que os ouviram juntos. Eu não sabia o que era Portishead até te conhecer, você nunca tinha ouvido falar em Chet Baker. Nunca pensei que me interessaria por alguém que nunca ouviu falar em Chet Baker, mas aconteceu – como aconteceu de uma noite ser a última em que o ouviríamos juntos, ainda não sabíamos o que aquela noite seria, até sabíamos, mas evitávamos dizer, também foi a última vez em que fizemos você sabe o que. Sei que levou o disco com você. ‘Levou’ é um modo de dizer. ‘Levou’ o que ele passou a significar. Sempre que ouvir Chet Baker me lembrarei de você, deste lugar, disse antes de sair como uma forma de se despedir e ficar, acho que é uma forma de guardar o que não nos pertence mais mas ainda é da gente, fazemos coleção disso, daquilo que não se arrepende de ter vivido. Entendo perfeitamente o que ela quer dizer, às vezes me pego fazendo o prato preferido de alguém que não vem comer. Não sei escolher um vinho sem lembrar de uma sommelier, o gosto dela sempre me vem a boca antes de beber. E aquele violão no canto que nunca aprendi a tocar, lembra alguém que se foi mais deixou sua música no ar. Todos temos algo assim guardado, numa gaveta chamada passado, cuja chave para abri-la pode ser um cheiro, uma cor de cabelo, um prefixo de telefone, um nome com o mesmo som, a voz melancólica de Beth Gibbons. Foto dela: Ana Martins.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

para guardar e ler

Quando ela disse ‘vinte’ eu mudei de assunto, não havia esperança alguma para nós, só havia hoje, aquela noite, o livro que me pediu emprestado, disse que podia levar, que não precisava devolver, era um presente, algo de mim que ela podia ter, para guardar e ler. Gosto de permanecer assim em alguém, como algo que ainda tem significado, mesmo que seja uma música que há muito se parou de escutar e que de repente começa a tocar do outro lado do bar – sei que ela samba, sei que no seu íntimo me tira para dançar. Às vezes me escreve, cartas que eu gostaria de ter escrito, com aquele seu jeito de contar que parece riobaldo, diz que muda para São Paulo, que passa umas noites no meu sofá, que fez uma tatuagem onde disse que faria, que trocou o direito pela dramaturgia, o silêncio pela vontade de gritar. Pede o meu número de telefone de novo, mas nunca que me liga da rodoviária dizendo que acabou de chegar, que trouxe consigo uma mala pequena, cheia de poemas que ela tentou, mas não conseguiu sufocar. A última notícia que tive dela foi que fugiu com o circo, o que eu aprovo com um sorriso, imagino ela com seu nome de trapezista fazendo piruetas no ar. Foto: Paula Repezza/ ela: Polly Di.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

algo que você pudesse interpretar

Com quantas mulheres estive depois de você? Com quantas delas estive a ponto de lhe esquecer? Com quais delas queria acordar esta manhã? São perguntas que espalho pelo quarto, tentando entender aquele cenário, que a luz do sol, aos poucos, ajuda a esclarecer. Por onde andou todo esse tempo? Em quantas camas me esqueceu? Em quantas não conseguiu dormir? Você que é só esticar o braço, você que disse que não podia ficar, você que eu nem precisei convencer. Parece que nossos corpos retomaram uma velha conversa, como atores de volta ao mesmo palco para a mesma peça que é o amor como conhecemos, sem maiores explicações para dar. É como se tudo estivesse de volta no seu lugar, mesmo que pareça de pernas para o ar, esta minha vida que você insiste em (des)arrumar, com seu jeito todo próprio de decorar. Não sei o que dizer quando acordar, se tento lhe prender ou devo lhe soltar – você que já foi embora por aquela porta e que já decidiu por si própria retonar, mas eu queria deixar um gesto, um olhar, algo que você pudesse interpretar como sendo aqui desse lado esquerdo onde sua cabeça repousa terá sempre um lar. Foto dela: Mariza.

domingo, 15 de maio de 2011

entre a gente

para tatiana

Você vai embora e eu fico sem cigarro. Queria que amor fosse só esticar o braço. Meu corpo é flexível, meu coração nem tanto, precisa aprender a viver sem você em cima, em baixo, de tudo o que é jeito que a gente inventou de fazer. Achei que não fosse importante, achei que não me arrependeria, não pesei direito o que sentia, pensei ‘um dia acaba como qualquer poesia’. Outros foram embora antes de você, outros que eu deixei, alguns de quem nem me lembro o nome, o que vieram fazer: se me diverti ou tive vontade de morrer. Sei que a porta se fechava e abria, a luz se apagava, o quarto escurecia, a gente se amava, a gente se despedia, dizia que se via e nunca mais se via, mas onde tinha de doer não doía, porque durava o tempo que tinha de ser. Mas sinto que entre a gente ainda não perdeu a validade, o que explica toda essa minha necessidade, ainda temos alguns dias antes do prazo vencer, algumas noites por assim dizer, vamos viver tudo o que há pra viver’*, tudo o que nos der vontade; te espero a hora que quiser aparecer, fico acordada até mais tarde, sonhando que te prendo entre as minhas côxas até quem sabe te convencer que não pode viver sem meu corpo em cima, em baixo, de tudo o que é jeito que a gente inventou de fazer. Foto dela: Mafer.

*(de Lulu Santos, Tempos Modernos)

quinta-feira, 17 de março de 2011

menor que liechtenstein

Têm noites em que não tenho ninguém, mas mesmo assim você vem, como se me contasse uma história para dormir, cada detalhe guardado, como suas unhas me arranhavam, como meus poemas a tocavam, podia estar num escritório fechada, sem ar-condicionado, mas sentia cócegas como se estivesse em paris. Nem sempre o que a gente sente faz sentido, quase sempre só faz sentido para nós, os outros nos olham espantados, parecemos loucos quando começamos a ser feliz e não conseguimos parar. Um dia me peguei querendo fundar um país em nossa cama, menor que liechtenstein, mais fácil de pronunciar, cuja fronteira somente a gente pudesse ultrapassar, um regime soviético baseado em lennon, não em marx. Ninguém vai embora por completo, há sempre a possibilidade de que possa voltar, como no filme que acabou de passar, brilho eterno de uma mente sem lembranças. Contar é uma forma de resistir, escrever é uma forma de guardar, se meus poemas a tocaram um dia, quem sabe ainda possam te tocar. Foto dela: Alice.

terça-feira, 8 de março de 2011

enquanto não conhecemos ninguém

A gente não volta, não exatamente, apenas sente falta e se pergunta por que não. Conheço tua cama, de que lado você dorme, como desperta de manhã, seu mau-humor nos primeiros minutos. Podemos ser só amigos, podemos ser mais do que isso, ninguém precisa saber que ainda nos vemos, que é só enquanto não conhecemos ninguém. Mas hoje eu não posso, amanhã até pode ser, então você tem um ataque de ciúmes, como aqueles que costumava ter, desliga, não quer mais saber. Minutos depois me liga de volta, diz que é uma louca, que não tem nada a ver, que está a minha espera, na hora em que eu quiser aparecer, mas não vestirá nada especial, mesmo que vestisse eu fingiria não perceber, tenho uma história para cada um de seus vestidos, para cada noite que despi você. Não precisa mais me mostrar o caminho, posso escrever um manual de como te enlouquecer, que parte de você prefere um carinho e onde posso morder. Mas nada será como antes, nem precisa ser, já tivemos amor o bastante, só queremos nos aquecer, ainda mais com esse friozinho que começou a fazer. Foto dela: Valeria.

domingo, 5 de dezembro de 2010

ainda gosto dela

Algo me dizia que mais cedo ou mais tarde a gente se encontraria. Voltara há poucos dias, duas semanas para ser mais exato, podia ter telefonado, gostaria que tivesse feito, sabia que não faria. Entre nós estava tudo terminado, até onde eu sabia, pelo menos até descobrir que ela voltara há poucos dias, que mais cedo ou mais tarde a gente se encontraria. A cidade é um ovo, não existem muitas alternativas, confesso que andei evitando certos lugares, mas aquele filme eu não perderia, aquela seria sua última sessão. Se eu soubesse que a encontraria na fila, teria vestido outra camisa, teria feito a barba aquele dia, teria ensaiado o que diria. Fiz que não a vi, queria saber como reagiria, engordara um pouco, mas eu a perdoaria. Quanto tempo ela disse, faz mesmo, se quiser posso dizer o número exato de dias, estranho que nem percebia que estava contando. Nos sentamos em fileiras diferentes, eu atrás ela na frente, um olho na tela outro no que ela fazia, pensava se de novo a beijaria. O filme ganhara a palma de ouro talvez o urso de berlim, mas não me peçam para falar dele, só queria que chegasse ao fim, queria saber se bebia algo comigo, tive medo que não dissesse que sim. Conversamos sobre onde esteve, disse que voltara há poucos dias, pediu desculpas por não ter ligado para mim, não sabia se devia, algo lhe dizia que mais cedo ou mais tarde a gente se encontraria. Foto: Liane.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

eu não me arrependo de você

“... não, nada irá nesse mundo/ apagar o desenho que temos aqui/ nem o maior dos seus erros/ meus erros, remorsos, o farão sumir...”
(caetano veloso, não me arrependo)


Nada do que você me disser vai mudar o que tivemos: as noites em que me fez feliz, as manhãs em que não quis me acordar, o seu beijo antes de partir, o seu beijo depois de chegar, o peso do seu corpo contra o meu, aquela vez sobre a mesa do jantar, só de lembrar minha pele arrepia e esse arrepio é mais forte do que eu, não tem como dizer que não aconteceu. Eu vou saber guardar, tenho uma gaveta para coisas assim, cheia de versos que esqueceram que escreveram para mim. Não vejo razão em discutir, aceito se diz que é o fim, só que parece que é você quem está tentando se convencer, mas se te faz bem pode falar, daqui a pouco saio para dançar, nem faz idéia do efeito que a música tem sobre mim. O que for seu pode levar, o que me deu não tem como voltar, faz parte da nossa história, fica vivo em algum lugar, pode ser que um dia bata de novo na minha porta e que eu até te deixe entrar, numa noite que de tão sozinho não importa com quem se está. Não me arrependo daquilo que faço, se fiz o que queria fazer, gostei de milhões de pessoas, também gostei de você, não será a primeira nem a última que eu saberei esquecer. Foto dela: Raluca.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

esta noite e quantas mais tivermos

Por mim tudo bem, não diremos nada a ninguém, guardaremos só para nós, esta noite e quantas mais tivermos. Importa o que sentimos, não as explicações que dermos, a cumplicidade é um estágio difícil de atingir, a maioria nem chega perto. Contei quantas ‘pintinhas’ seu corpo têm, não tinha nada para fazer além de te achar linda, você dormia como se fosse minha refém, mas era assim que eu me sentia. Quis saber o que eu pensava de uma tatuagem, sonha fazer mas lhe falta coragem, desenhei como ela seria na sua pele com a ponta dos dedos, comecei em volta do umbigo, onde a terminei é segredo. Fiz um poema enquanto você se vestia, deixei embaixo do seu travesseiro, com aquelas palavras que segundo me dizia, arrepiam seu corpo por inteiro. Posso te ligar no meio do dia, apenas para ouvir a sua voz, quem sabe até te deixe vermelha, lembrando de quando estamos a sós. Sempre nos despedimos sem saber se vamos nos ver novamente, aquela bem pode ser a última vez entre a gente, por isso você parece me morder como se quisesse me prender entre os seus dentes. Foto dela: Ana Martins, ‘japonesa de pequim’.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

microcosmo

Fingi que dormia, ela se movia pelo quarto sorrateira, devagar, não queria me acordar, pensava no que me diria além de ‘bom dia’, mal sabia como tinha vindo acabar naquele lugar. Lembrava-se de uma festa, da banda que tocava, de que ria e não conseguia parar, que ‘barba por fazer’ a enlouquecia, depois que me mordia, que meu corpo a prendia, que não queria se soltar – e de como tudo isso lhe parecia agora tão distante: sabia quem era a mulher que se vestia, mas não se reconhecia na mulher de antes, ainda que esta lhe parecesse bem mais interessante. Eu não tinha como ajudá-la, não a conhecia, embora ela não me fosse de toda estranha, talvez até já a tivesse trazido uma noite para cá, a música estava alta, não ouvia direito o que me dizia pouco antes de começar a me beijar. Ela me observava em pé ao lado da cama, pensava como de costas parecia-lhe com todos os homens com que já esteve, ainda mais quando não se lembrava de seus rostos, embora sua boca ainda guardasse o meu gosto. Tirou um pedaço de papel da bolsa, mas nada escreveu, conferiu se havia esquecido algo, mas nada esqueceu. Fechou a porta atrás de si e saiu, ainda vi quando seu táxi dobrou a esquina e sumiu, pensava que se a visse novamente não sei se a reconheceria e que, talvez, aquela noite se repetisse infinitamente entre a gente como algo me dizia já se repetiu. Foto dela: Ana Martins ‘na ponta dos pés’.

terça-feira, 20 de julho de 2010

difícil ficar sem

A verdade é que a gente já se acostumou com o corpo um do outro. Isto de saber onde tocar, onde mergulhar, o que não precisa mais consentimento. Intimidade assim leva tempo, não se consegue da noite para o dia, tanto que quando ela me diz que está a caminho, minha pele já se arrepia. Combinamos que não seria sério, seria algo que não nos preocuparia, podemos ser só dois bons amigos, podemos ser bem mais do que isso, não sabemos quando nem como vai acontecer, mas depois que acontece, nos entreolhamos sem nada dizer – nos perguntando se é certo, se agimos errado, sabemos apenas que é bom, dificíl ficar sem. Estamos sempre retomando de onde paramos, enquanto outros passam por nós, com suas idéias de amor diferentes da nossa, que às vezes quase nos convencem. Ela diz que não pode ficar mas fica, não conseguimos nos desvencilhar simplesmente, o que acontece entre nós nunca se explica, sempre mudamos de assunto quando o assunto é a gente. Quando vê já passou da sua hora, veste-se depressa, precisa ir embora, não sabe quando volta, sabe que vai voltar, sente que o fará eternamente. A verdade é que a gente já se acostumou com o corpo um do outro. Difícil ficar sem. Foto dela: Ana Martins.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

o passado

Você já me perdeu e me encontrou mais de uma vez. A gente já se reconheceu e fez que nunca se viu. Eu já bati na sua porta e você fingiu que não tinha ninguém. Você ainda guarda os meus poemas porque lê-los, às vezes, lhe faz bem. Eu deito na minha cama esperando quem não vem. Você se despe no seu quarto imaginando para quem. Quando toca a nossa música, muda de estação e eu também. Esqueci seu livro preferido, mas depois eu me lembrei. E li ele inteiro novamente para descobrir por quê. Estaciona em frente do meu prédio como se viesse me ver. Pergunta o que deu errado como se já não tivesse tentado responder. Comprei um de seus quadros, mas dei um nome nada a ver. Pendurei na minha sala, mas isso nunca vai saber. Você é muito mais artista do que eu jamais vou ser. Reduzo-me à minha insignificância escrevendo versos para você. Peço que publiquem só depois que eu morrer. Até lá é como se não tivéssemos mais nada para dizer. Acha que estou apaixonado por toda mulher com quem me vê. Mais até do que estive, algum dia, por você. Mas o que era para ser seu já lhe foi dado, igual nenhuma vai ter. Quem fez parte do nosso passado, nunca vai deixar de fazer. Imagem: Mariana Anghileri e Gael Garcia Bernal em cena do filme “O Passado”(2007, Hector Babenco).

terça-feira, 27 de abril de 2010

fazia tempo que eu não vinha aqui

Fazia tempo que eu não vinha aqui. Acho que pelo motivo errado, quando você cisma com algo não quer ouvir o outro lado, então a deixei falando sozinha e, pela mesma porta que entrei, saí. Não repare a bagunça, você diz. Uma taça esquecida sobre o aparelho de som: pergunto-me quanto teria bebido, que disco havia escutado até o fim, o que passava pela sua cabeça, que filme projetava no teto, será que apagou as luzes e se deixou ali? A cidade ainda é a mesma da sua janela, é o que observo, disse-lhe o nome de todas as ruas que podia se ver daqui, que caminho teria de fazer até a universidade, a estação de metrô mais perto – e até uma fita cassete com as músicas que deveria ouvir durante o trajeto, eu fiz. Você mudou o pano do sofá, a estante de lugar, tem um óleo sobre tela onde havia um cartaz de Fale com Ela, mas o cheiro ainda é o mesmo, dos seus incensos, das suas velas, que eu quase me convenço que foram acesos à minha espera. Eu sabia que me convidaria para subir, você que eu aceitaria, o que mais podemos fazer aqui se não colocarmos ‘o que sentimos’ em dia. Foto: Ricardo/ dela: Duda.

quinta-feira, 25 de março de 2010

onde?

Andei nos procurando pelas ruas onde passamos, voltando de uma festa, indo para a nossa. Ríamos alto, não nos importava, tudo o que havia ao nosso redor se ali estava era por nós, para nós, era assim que eu me sentia, era assim que você me fazia sentir. Perguntei se nos viram nos bares onde íamos, descrevi a roupa que vestíamos na última noite em que saímos, se eu soubesse não tinha pedido para ir embora, levantaria e começaria a dançar. Você fez uma lista dos livros que eu deveria ter lido aos vinte anos, encontrei no bolso de um casaco, vibrei quando vi que era a sua letra, pensei que era um poema que havia me esquecido e, pensando bem, talvez seja: vou começar pelo caio fernando, quero recuperar o tempo perdido, leio alto como se estivesse me ouvindo, queria lhe contar tudo o que estou sentindo a cada página que termino, quem sabe escrevo uma carta e até ponho no correio, faço uma camiseta, reuno uns amigos e te convido, coloco cordas novas no violão e componho uma canção. De amor como seus bilhetes na geladeira. Eu ainda tenho esperanças no elevador, quando aperto o sete e ajeito o cabelo, antes quando abríamos a porta tudo parecia a nossa espera, mas encontro a casa exatamente como a deixei, tão diferente da bagunça que a gente era. Foto dela: Tay Gomes.

domingo, 7 de março de 2010

depois que a luz acende

Depois que a luz acende, não há sonho nem corpo mais, apenas a lembrança de algumas noites atrás no relógio dizendo quanto tempo faz que ela se foi, na cama maior do que eu me lembrava, mesmo assim me encolho todo como se sua ausência ocupasse espaço demais, me roubasse o lençol, me apertasse contra a parede, me sufocasse com o travesseiro. A realidade é como estar doente, sua cabeça pesa, sua voz quase que nem sai, você simplesmente segue com a sua vida, ganha o seu dinheiro, pergunta quanto foi o corinthians, diz bom dia ao porteiro, ninguém precisa saber que um ventinho mais forte te fragmentaria por inteiro. E nem queria minha vida toda de volta para me arrepender dos demais erros, estou feliz com a minha verdade, com o que restou dos meus cabelos, só gostaria que essa história tivesse um dia a menos – e nem precisava ser assim eternamente, apenas um dia que eu pudesse escrever novamente e eu o escreveria diferente, mas não tem papel, não tem tinta, não tem poesia que me permita fazê-lo. Foto dela: Carla.

terça-feira, 2 de março de 2010

como alice no país das maravilhas

Conheci outra mulher depois que a luz se apagou, uma mulher que não estava lá antes, não com aqueles dentes. A noite durou exatamente o quanto ela me queria, enquanto isso o sol não vinha nem nascia o dia. Ela me contou seus segredos e me fez um de seus segredos, se me contassem sobre nós nem eu acreditaria, ficaria imaginando como e quando a teria conhecido, mesmo que fosse um minuto depois do ocorrido, com o gosto da sua boca ainda na minha, porque uma mulher como aquela ninguém diria que existia no corpo da guria que ao meu lado agora dormia, como se fosse Deus descansando de ser Deus no sétimo dia, com a sensação de dever cumprido percorrendo cada centímetro de sua pele macia. Se ela acordar perguntando onde está como Alice no país das maravilhas juro que não me surpreenderia, também não anotei a placa do caminhão, tive que me beliscar para saber se era de verdade, tive de procurar minha identidade entre nossas roupas espalhadas pelo chão. Quando amanhece ela se veste como se nem desconfiasse que outra mulher do seu corpo se apodera quando a luz se apaga, quando a bela vira fera. Foto dela: Quel.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

ano novo, canções antigas

A gente se deu um tempo. Escolheu lugares estranhos, ruas por onde nunca caminhamos, as salas de cinema com os piores filmes passando, de outro jeito acabaríamos nos encontrando. E rimos mesmo assim das tolices que escutamos, com muitas dúvidas a respeito de nós próprios e do gênero humano, às vezes de uma mediocridade que assusta. Acho que o amor nos protegia, no nosso mundo não havia as tragédias que tenho lido nos jornais todos os dias, ir para a cama era como fugir para uma ilha, colocávamos uma música e ela nos envolvia como se fossemos personagens de um filme que só a gente alugava, a única cópia que existia. Foi como abandonar o cigarro que me fazia companhia, passar a me preocupar com a quantidade de calorias que comia, estudar administração em vez de escrever poesia, no lugar de fazer amor matricular-se numa academia. Deu para conhecer uma garota, mas eu ficava pensando onde você estava depois que ela dormia, quando a gente conversava me vinha a cabeça o que me responderia, não estava sendo justo com a guria, pedi desculpas, mas ela não entendeu patavina nem podia: ela entrou por uma porta por onde você ainda não saíra. Soube que você viajou para lugares que sempre me dizia, estava vendo seu album de fotografias: em cada foto que você aparecia eu imaginava de que lado estaria, a pose que faria. Foto: Ricardo/ dela: Quel.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

o que 'ainda' sentimos

Acontece que a gente não joga tudo fora, sempre guarda alguma coisa, um pedaço de papel por menor que seja, o primeiro verso que me veio a cabeça. Fui te ver achando que não a reconheceria mais como se tivesse passado anos, mas me lembrei de cada segredo que seu corpo disse ao meu, é impossível não ver um filme passando toda vez que nossos olhos se encontram, nem se perguntar porque sua boca não toca mais a minha quando seus lábios se aproximam do meu rosto - ainda posso sentir o gosto. Cheguei mesmo a pensar que não, mas ainda podemos conversar durante horas: não esgotamos todos os assuntos; não é porque não dormimos mais juntos que não quero saber a sua opinião, não demora e estamos num canto isolados do restante da festa, imaginando o que estarão pensando, rimos daquilo, rimos e não rimos, não chegamos a uma conclusão definitiva a respeito do que 'ainda' sentimos - como se o que 'ainda' sentimos pudesse ser só uma embriaguez, uma música que ouvimos, um comichão. Confesso que só vim porque achei que viria, foi assim que me convenceram, se saísse com a V... com quem você acha que eu a ficaria comparando, ela não merece isso: é doidinha, me faz rir, até que está se esforçando. Estou tentando escrever sobre ela em cima daquilo que escrevi sobre você, mas é difícil cobrir todas as linhas, ainda não tem a mesma poesia - às vezes, interrompo o que estou fazendo e fico te lendo como só eu te via - pena que ninguém mais vai saber. Uma noite eu queria que sentássemos e conversássemos, não da vontade que temos de fazer porque a vontade que temos de fazer é a mesma vontade de fazer que todo mundo tem em noites como esta, mas sobre o que deixou em mim que eu queria saber se existe como devolver, já que não consigo mais 'tocar' ninguém sem lembrar que não 'toco' mais você. Foto: Ricardo/ dela: Carla.

domingo, 1 de novembro de 2009

até mesmo onde nem está

Tenho te visto em todos os lugares. Dos mais comuns aos menos prováveis, às vezes, até mesmo onde nem está. Como se esperasse a melhor oportunidade, fosse me surpreender a qualquer instante. Se isso não é sinal de alguma coisa, eu não sei mais o que é. Chego a ter a impressão que de você existem milhares, todas vindo na minha direção, algumas mais firmes em seu propósito, outras me deixando para mais tarde, gostaria que fosse verdade e que cada uma me ocupasse todo o tempo, como já ocupa meus pensamentos – que enquanto uma de você se vestisse para ir a faculdade, outra ficasse o resto da manhã. Você passa por mim no trânsito, canta uma canção no rádio do carro, faz propaganda da Duloren nos out-doors espalhados pela cidade. Sinto seu perfume quando entro no elevador, acho que me segue se ouço passos no corredor, na secretária eletrônica quantas vezes me ligou, cada vez com uma voz diferente, a cada nova mensagem ficava mais urgente. Se houvessem tantos de mim quantas parecem haver de você, seríamos milhares de casais fazendo amor ao mesmo tempo enquanto outros de nós espiariam da janela de seus apartamentos. Foto dela: Érica Simone.

sábado, 10 de outubro de 2009

duas mulheres

para francine, regina, carla

Eu já estive aqui, isto é, já senti que era o fim, encontro-me no mesmo ponto de uma outra história, como se fosse um déja vu – não é assim que se diz? Só que desta vez sou eu quem se levanta da cama, quem não consegue dormir, é como se refizesse uma cena que ficou gravada só que na pele de outra personagem contra a qual antes eu me debatia: se é que me deram a chance de fazê-lo, faço o mesmo agora? – pergunto-me. Espero você acordar ou me visto devagar, um milhão de coisas passa pela minha cabeça: quem eu quis matar quando era eu no seu lugar, como eu quis morrer, meus amigos vão se lembrar, jurei que nunca mais deixaria acontecer. Mas você aconteceu – você que nada tinha a ver com o que aconteceu corre o risco de ser quem vai pagar, afinal. Se eu soubesse não tinha deixado que nos apresentassem, nem te olharia de cima abaixo como se quisesse saber o que me aguardava se eu me jogasse, como terminava aquela tatuagem que você tinha acima do púbis, minha boca salivava de curiosidade. Hoje eu acordei e seu corpo pesava sobre o meu, como se eu fosse sufocar, não tenho forças, não tenho mais como te carregar, eu sou assim mesmo – lembra como eu me impressionei com cada uma de suas tatuagens, uma mais linda que a outra, demorou para eu criar coragem, você me ajudou a escolher que desenho seria: uma borboleta que depois que pousasse nunca mais me deixasse. Pensei em fazer um café para nós, um carinho nos seus cabelos, dobrar suas roupas e guardar no armário, nada muito especial, nada que te faça perguntar se há algo errado, que eu precise fingir não ter escutado. Foto: Ricardo/ dela: Carla.

domingo, 4 de outubro de 2009

onde quer que esteja nesta noite

Acho que ninguém ficou no seu lugar, apenas troquei os lençóis, o cigarro pela goma de mascar. Estou vendo filmes num cinema completamente vazio, a essa hora do dia só você podia. Depois de algumas músicas já não quero mais dançar – e pensar que nenhuma noite terminava antes das seis. Não é difícil conhecer alguém e levá-la para casa, só esta semana foram três. Os nomes esqueci em algum lugar, no bolso de uma camisa, podem ter caído atrás do sofá. Não estou dizendo que exista muito mais do que isso, mas às vezes quando se roda durante um bom tempo por um mesmo caminho fica mais difícil de retornar. É verdade que não chegamos a nenhuma grande cidade, nenhuma em que quiséssemos morar, mas passamos ótimas noites – se me lembro bem – em alguns hotéis de beira de estrada, pensamos até em fazer um guia, anotamos nomes, fizemos pequenas cotações, tíramos mil fotografias, algumas não dá para publicar, não neste horário. Às vezes não faço força alguma, deixo-me levar como se fosse num carro cheio de grandes amigos e quando me vejo estou dizendo bobagens para um ouvido qualquer, algo mecânico e que tirei de um velho disco, apenas porque não terei a vida inteira e preciso aproveitar que ainda exista quem esteja alta o suficiente para achar meu papo atraente, sei que você age exatamente igual nesta noite – nesta noite onde quer que esteja. Onde quer que esteja nesta noite meu corpo a deseja. Quem foi embora? Quem ficou no seu lugar? Estou me fazendo perguntas antes dela acordar. Foto dela: Lady.

sábado, 26 de setembro de 2009

chove

para alini numa manhã linda de sol

Está chovendo, mas você disse que vinha assim mesmo, mas quando disse que vinha assim mesmo não estava chovendo ainda, fazia uma manhã linda de sol e para mim fazia uma manhã linda de sol porque você viria. Mas tudo acontece comigo, inclusive chover quando não deveria, por isso esse meu ar de que o mundo todo conspira contra, mas você disse que eu fico linda emburradinha e às vezes eu fecho a cara diante do espelho só para imaginar o que diria. Você está atrasado, mas você disse que talvez atrasaria, que tinha de passar num outro lugar antes de vir para cá, eu queria que você viesse correndo, se eu fosse você eu correria, não teria nada mais importante nesse dia, nesse e nos outros dias. Será que você sabe o que eu estou pensando nesse exato instante, se fosse no meu corpo eu saberia, minha pele toda arrepiaria, acho que você acaba de pensar o mesmo que eu porque me deu um calor na espinha. Estou lendo o livro que você disse que eu gostaria, já li mais da metade e não entendi porque, deixei umas partes grifadas que quero perguntar para você, será que sou diferente de como me vê? Às vezes me irrito de saber que o carro que acaba de dobrar a esquina não é o seu, outras vezes, estranhamente, fico feliz que não seja, é como se eu temesse aquilo que o meu corpo deseja, não quero que esse sentimento tome conta de mim, tampouco quero que desapareça. Foto dela: Queen Jane.