
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
o que 'ainda' sentimos

domingo, 1 de novembro de 2009
até mesmo onde nem está

sábado, 10 de outubro de 2009
duas mulheres

Eu já estive aqui, isto é, já senti que era o fim, encontro-me no mesmo ponto de uma outra história, como se fosse um déja vu – não é assim que se diz? Só que desta vez sou eu quem se levanta da cama, quem não consegue dormir, é como se refizesse uma cena que ficou gravada só que na pele de outra personagem contra a qual antes eu me debatia: se é que me deram a chance de fazê-lo, faço o mesmo agora? – pergunto-me. Espero você acordar ou me visto devagar, um milhão de coisas passa pela minha cabeça: quem eu quis matar quando era eu no seu lugar, como eu quis morrer, meus amigos vão se lembrar, jurei que nunca mais deixaria acontecer. Mas você aconteceu – você que nada tinha a ver com o que aconteceu corre o risco de ser quem vai pagar, afinal. Se eu soubesse não tinha deixado que nos apresentassem, nem te olharia de cima abaixo como se quisesse saber o que me aguardava se eu me jogasse, como terminava aquela tatuagem que você tinha acima do púbis, minha boca salivava de curiosidade. Hoje eu acordei e seu corpo pesava sobre o meu, como se eu fosse sufocar, não tenho forças, não tenho mais como te carregar, eu sou assim mesmo – lembra como eu me impressionei com cada uma de suas tatuagens, uma mais linda que a outra, demorou para eu criar coragem, você me ajudou a escolher que desenho seria: uma borboleta que depois que pousasse nunca mais me deixasse. Pensei em fazer um café para nós, um carinho nos seus cabelos, dobrar suas roupas e guardar no armário, nada muito especial, nada que te faça perguntar se há algo errado, que eu precise fingir não ter escutado. Foto: Ricardo/ dela: Carla.
domingo, 4 de outubro de 2009
onde quer que esteja nesta noite

sábado, 26 de setembro de 2009
chove

Está chovendo, mas você disse que vinha assim mesmo, mas quando disse que vinha assim mesmo não estava chovendo ainda, fazia uma manhã linda de sol e para mim fazia uma manhã linda de sol porque você viria. Mas tudo acontece comigo, inclusive chover quando não deveria, por isso esse meu ar de que o mundo todo conspira contra, mas você disse que eu fico linda emburradinha e às vezes eu fecho a cara diante do espelho só para imaginar o que diria. Você está atrasado, mas você disse que talvez atrasaria, que tinha de passar num outro lugar antes de vir para cá, eu queria que você viesse correndo, se eu fosse você eu correria, não teria nada mais importante nesse dia, nesse e nos outros dias. Será que você sabe o que eu estou pensando nesse exato instante, se fosse no meu corpo eu saberia, minha pele toda arrepiaria, acho que você acaba de pensar o mesmo que eu porque me deu um calor na espinha. Estou lendo o livro que você disse que eu gostaria, já li mais da metade e não entendi porque, deixei umas partes grifadas que quero perguntar para você, será que sou diferente de como me vê? Às vezes me irrito de saber que o carro que acaba de dobrar a esquina não é o seu, outras vezes, estranhamente, fico feliz que não seja, é como se eu temesse aquilo que o meu corpo deseja, não quero que esse sentimento tome conta de mim, tampouco quero que desapareça. Foto dela: Queen Jane.
domingo, 20 de setembro de 2009
ninguém nos chama de baudelaire

Não temos ninguém, somos os únicos que sobraram, todo o resto já foi dormir a esta altura do campeonato. Te dei uma carona e te beijei antes que deixasse o carro. Há, pelo menos, duas horas já fazíamos uma idéia de onde aquela noite terminaria, apenas disfarçávamos e ríamos, acho que era uma festa à nossa volta, chegou um momento em que a gente não se concentrava mais, apenas balançava a cabeça positivamente, tínhamos outras coisas em mente, não me lembro de termos nos despedido de ninguém, você fez um sinal com a sobrancelha e eu te acompanhei, nem sei quantas ruas atravessamos até chegarmos aqui, você me dava coordenadas estranhas, enquanto cantarolava uma canção do rádio. O que você acha de aproveitarmos que estamos os dois sozinhos, que ninguém nos ama, que ninguém nos quer, que ninguém nos chama de baudelaire* e continuar o que pensamos junto lá dentro? Tenho música e cigarro. Posso te mostrar onde quero uma tatuagem e você me diz se acha melhor mais em cima ou mais embaixo. Suas amigas foram passar o final de semana com os namorados. Não são minhas amigas, apenas dividimos o aluguel. Uma estuda geografia e a outra morre de inveja da sua coleção de sapatos. Foto: Ricardo/ dela: Alice.
* Referência aos versos do samba-canção “Ninguém Me Ama”, de Antonio Maria e Fernando Lobo e ao poema de Isabel Câmara.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
eu sei quando é você

domingo, 23 de agosto de 2009
seu corpo sabe

terça-feira, 11 de agosto de 2009
um amor.
domingo, 2 de agosto de 2009
just like honey

O que você tem? Nada. Ela perguntou e eu respondi. (Está do seu agrado assim ou dois personagens só não bastam? Não sou bom com multidões). Posso colocar uma música para alegrar o ambiente? Os discos estão ali, apontei. Ela foi procurar o que ouvir, achou um vinil empoeirado do Jesus & Mary Chain, Psycho Candy, de quando eu tinha a idade dela e ela nem tinha fumado o primeiro cigarro. Uma amiga me falou desses caras, a Letícia, disse que eu a conhecia, acho que sim. Era domingo e só chovia. Aquela era a única vida que eu tinha. Ela aos dezenove e eu beirando os trinta. Ela e sua tatuagem que nem o pai sabia. Juventude não é muito mais do que isso hoje em dia. Ela é de verdade, mas quando eu escrevo sobre ela gosto de pensar que é poesia. O tempo faz isso com a gente. Tudo de certa forma já aconteceu trocentas vezes e você apenas respira. Às vezes um beijo te surpreende, mas no geral você já conhece todos eles. Uma queria seios maiores, outra acabou de chegar da europa, aquela da praia, esta só come salada, mas os corpos são mesmos estes, alguma timidez aqui, nenhuma ali e você já se deitou com todos eles. O tempo é como contemplar o mar. Depois de alguns minutos o mar é só a ‘massa de águas salgadas do globo terrestre’ e você precisa inventar o resto dele, histórias com piratas, os olhos de quem te faz lembrar. Ela pede que eu traduza o que estão cantando, seu inglês não é tão bom quanto o meu. Mas o vocal é baixo, sussurrado, as guitarras mais pesadas, a bateria, não dá para entender tudo, então improviso, faço uma versão do que estou ouvindo como se fosse uma tradução do que estou sentindo. Foto: Ricardo/ dela: Duda.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
não me olhe assim

segunda-feira, 20 de julho de 2009
29 beijos

Fiquei apenas uma hora, se muito. A festa era dela. Os amigos eram dela. Ninguém ali precisava me conhecer melhor, queria apenas dar-lhe um beijo, dizer que continuo por perto, que vi algo em minha última viagem que me fez lembrar dela, comprei e trouxe comigo, sabia que seu aniversário estava próximo, parece que foi há tanto tempo e você só fez vinte e três anos. Nem pudemos conversar direito, mas eu entendo, tinha de dar atenção a todos, combinaremos uma tarde dessas, tarde que há muito estamos nos prometendo – e pensar que eu te arrastava comigo para todos os lugares, os ‘meus’ lugares, aqueles de que gosto e quis que dividisse comigo, onde eu te mostrei os segredos que guardo em meio aos meus livros preferidos, disse coisas embriagado do desejo de te tocar profundamente, onde fizemos amor docemente; e cada dia se parecia mais comigo, tive medo que se parecesse mais do que era preciso, mas você se saiu melhor do que eu, vejo isso no modo como termina tudo com um grande sorriso, entendo os que se aproximam de você, os que estão em volta, que se apaixonam por você, eu já sabia antes como sei agora, de quando te ligava no celular perguntando se já estava a caminho, eu dizia não demora, tenho vinte e nove beijos pra lhe dar* – da música do novos baianos que eu gostava de tirar no violão e você me ouvir cantar, gritando mais que o moraes. Achei melhor sair sem me despedir, você ia de um lado para o outro, eu começaria a falar, a me explicar, só te atrapalharia, já fiz o que tinha de fazer, vi o que tinha de ver, alguns amigos que apresentei a você na sua estante, na música que tocava e até no seu jeito de falar e de ser, fechei a porta atrás de mim comovido por um dia ter prendido sua atenção, seus olhos brilharem, a boca na minha, posso me lembrar disso quando quiser. A noite estava fria, meu carro estacionado do outro lado da rua, mas você me alcançou antes que eu a atravessasse, abraçou-me de um jeito que não tinha feito naquela noite, a cabeça junto ao meu peito por alguns segundos no mundo, o cheiro dos seus cabelos me fez querer escrever sobre, este pequeno texto; não perguntou porque estava indo embora tão cedo, nem insistiu para que eu ficasse, apenas disse "espero lhe ver, lhe encontrar, tenho vinte e nove beijos pra lhe dar". Foto dela: Bárbara.
*verso da música 29 Beijos, de Moraes Moreira e Galvão. Ouça aqui.
terça-feira, 14 de julho de 2009
provocante

Estava aqui lendo os seus segredos. É que para mim eles estão todos publicados na sua pele de sol, na cor dos lábios e até no olhar que desvia do meu – bastou querer enxergá-los. Você nem se lembra da última vez em que te perguntaram algo além do número do seu telefone, sente-se um pouco enferrujada, muda de assunto desconfiada de que as palavras contenham armadilhas e que um sujeito como eu deve manipulá-las muito bem, mas eu não atiro para todos os lados, sei onde miro, por que e em quem. E eu lhe pergunto o que faz com este vermelho nos lábios se esta noite não beijarem ninguém e a tatuagem que disse que tem, para que ser tão colorida se seus olhos são os únicos que a vêem? Eu sei que sou como todos os homens, mas sei que sou como só eu posso ser também. Já sei o que te faz como todas as mulheres, mas me apaixono pelo que nenhuma delas mais têm. Se você queria que a vissem como é de verdade para que se esconder atrás de tanta maquiagem? Não estendo os meus braços por estender, mas apenas para saber se você vem. Será que já viveu tantas vidas assim para se arrepender de viver a única que tem? Eu não estou querendo colocá-la contra a parede, mas até que não é uma má idéia, pensando bem. Posso descobrir do que tem medo só pelo modo como respira. E eu lhe pergunto para que provocar todos os homens se não aceita que a provoquem também? Foto dela: Vanessa Gross.
terça-feira, 7 de julho de 2009
as paredes

domingo, 28 de junho de 2009
a estudante
O que você está olhando, ela quis saber. Eu estou me apaixonando pela mulher que você vai ser. Eu estou imaginando onde quero estar daqui há alguns anos e ao lado de quem – ao lado de quem você se tornar. Eu estou fazendo planos para nós dois enquanto você se veste para ir à faculdade. Penso nos autores que vai ler e no que vamos conversar depois, as descobertas que vai fazer entre aquelas páginas que eu sequer havia pressentido. Em seus lábios cada vez mais próximos dos meus e no gosto que eles vão ter do vinho que ajudou-me a escolher, nos poemas que vai me fazer escrever entre uma aula e outra e em como vou subir as escadas correndo só para saber qual será a sua reação depois de ler. Vejo os filmes que quero que assista, se vou mudar seu ponto de vista ou apenas te entreter, nos jogos que fará comigo e em como vou me sair, no nosso primeiro apartamento e o que faremos com todos os meus livros. Em suas tentativas de fazer o jantar e como vai sorrir no dia em que acertar o primeiro suflê, na bagunça que vai ser a nossa vida e até nas pequenas brigas que vamos ter. Nas fotografias de uma viagem e na sua pose para a posteridade, na estudante de vinte anos de idade que nunca deixarei de ver na mulher que você vai ser. Foto dela para mim.
domingo, 21 de junho de 2009
nesta cama e em pensamentos

domingo, 14 de junho de 2009
a jovem de ontem

domingo, 7 de junho de 2009
por causa do frio
A gente é só amigo, mas, às vezes, por causa do frio, dormimos juntos. E ela me conta do cara com quem esteve algumas noites atrás e eu da mulher que ainda amo, faço votos de que ela consiga e ela me beija a fronte. E o sexo entre nós é só a prova de que temos algo bonito e que nada nos impede já que a vida é dos que a vivem, não estão nem aí com o que podem pensar. Se ela atende o celular eu paro o filme, deixo que conversem, finjo que vou pegar algo na cozinha, dou um tempo para que ela decida como quer prosseguir. Quando volto ela tem aquela expressão que a gente faz quando nem tudo sai como se queria, um abraço resolve muito, um beijo resolve muito mais. E certos segredos que só eu sei sobre o seu corpo e ninguém mais de tanto tempo que eu a conheço naquela cama, em outras, nas duas vezes que tentamos e não deu certo e como rimos bastante disso depois. Porque ela se ajeita junto a mim até seu corpo caber perfeitamente entre o meu, não do mesmo jeito que a mulher que ainda amo caberia, mas de um jeito que me esquente e eu a ela nesta noite fria. Foto dela: Helen.
terça-feira, 26 de maio de 2009
nome de flor
domingo, 24 de maio de 2009
reais e imaginários

Fugimos – se é assim que vocês gostam de chamar. Mas não nos pergunte do que como se alguém precisasse ter culpa. Foi mais simples do que isto e talvez por isso mesmo mais difícil de entender. Tínhamos a tarde livre e decidimos respirar um pouco. Foi já na estrada que entendemos que não tinha como voltar atrás. E nem foi algo que discutimos, apenas nos entreolhamos e dissemos ‘vamos’ como que concordando com algo maior do que nós. Estamos em outra cidade, o nome eu não vou dizer, alugamos um quarto, nem pediram para ver nossas identidades, mas daqui uma semana o dinheiro acaba, amanhã mesmo vou procurar um emprego, não dá para viver de pequenos delitos: falo de tabletes de chocolate quando não tem ninguém olhando. Ele quer ser escritor, eu sonho que me desenha nua, depois, de noite, ficamos conversando sobre onde gostaríamos de estar dali dez anos, aquilo nos aquece mais que o cobertor surrado que arranjamos. Gosto de pensar que nos apaixonamos de verdade, que certos livros que lemos falam de pessoas como nós, que realmente existiram, viveram tudo aquilo e estão agora em algum lugar e não personagens inventadas por algum escritor, algo que se sonhou e não se levou a sério como, sabemos, bem podemos ser. Foto de Carol Sweet.
domingo, 17 de maio de 2009
depois de um ano
sábado, 9 de maio de 2009
a juventude dela

quinta-feira, 30 de abril de 2009
um quarto

segunda-feira, 13 de abril de 2009
da intimidade que havia e outras histórias

domingo, 5 de abril de 2009
às vezes nos encontramos, outras não
(Josh Rouse)
Elas estão por toda parte, às vezes nos encontramos, outras não, nunca se sabe. Pode ser que ela não tenha lido todos aqueles livros apenas para conversar sobre eles comigo durante toda uma tarde, mas gosto de pensar que sim, descobrimos que temos gostos parecidos, autores preferidos quase que pelos mesmos motivos e a gente se apaixona por isso e as coisas acontecem naturalmente, como se tivessem de ser daquele jeito, exatamente. Não se pode prever quando nos encontraremos, naquela tarde eu só tentava me esconder da chuva que começara de repente, entrei no primeiro café que vi pela frente e lá estava ela lendo Anna Karenina compenetradamente, não pude deixar de lembrar que foi assim que Tomás conheceu Tereza em A Insustentável Leveza do Ser, eu tinha que dizer-lhe aquilo, ela sorriu, sabia da história, andava com aquele Tolstói de cima para baixo propositadamente, a espera de que as coisas acontecessem naturalmente, como se tivessem de ser daquele jeito, exatamente. E descobrimos que estivémos nas mesmas festas, num show do Josh Rouse, a ponto de nos tocar, só ficou faltando um amigo que pudesse nos apresentar - e quem sabe essa noite já tivesse acontecido muito mais vezes do que a gente possa imaginar, mas esta noite ainda está tomando um capuccino em algum lugar, esperando que a chuva comece de repente, esperando que eu entre no primeiro café que veja pela frente e que você olhe na direção da porta toda vez que ela se abre, às vezes nos encontramos, outras não, nunca se sabe. Foto dela: Monalise.
terça-feira, 24 de março de 2009
notícias à-toa
quarta-feira, 18 de março de 2009
foi para isso que viemos
terça-feira, 10 de março de 2009
a última pessoa no mundo

(Antonio Cícero)
Era a última pessoa no mundo que eu esperava ver no dia de hoje. Você disse ‘estou na cidade’ como quem diz ‘em cinco minutos, estou aí’. Eu não tinha como dizer que não. Dei uma ajeitada no cabelo, vesti algo decente, demorei algum tempo na frente do espelho, decidia se fazia a barba ou não e o que você acharia – mas que bobagem a minha. Parece até que está de volta. Como se a vida tivesse disso. Eu estou apenas no seu caminho. Vamos conversar sobre o que anda fazendo, eu não farei muitas perguntas, não quero descobrir muita coisa, se está feliz, se foi melhor assim, talvez até mude de assunto, o calor dos últimos dias, o resto de bolo na geladeira. É do meu aniversário, você sabe e me trouxe um presente. Tira da bolsa um embrulho. Nem preciso abrir para saber que é um livro e algo que provavelmente não vou conseguir ler mais do que os primeiros capítulos, mesmo com você dizendo que ‘leu, gostou e se lembrou de mim’. Posso dizer cada segredo seu, lembrar de cada vestido que despiu para mim, cada noite e música que tocava, cada vez que voltava de uma viagem mais longa e você ainda não sabe os gostos que tenho, que livro comprar para mim. Mesmo assim seguro seu braço quando faz menção de partir. Você volta e me dá um beijo – um beijo que dura seis anos e sete meses se fizermos as contas direito. Estou pensando nisso – estou aqui fazendo as contas – enquanto seu táxi ainda está na Doutor Arnaldo, parado em algum semáforo. Foto dela: Karine.
domingo, 1 de março de 2009
eu me lembro de você nesta cama
Eu me lembro de você nesta cama enquanto troco o lençol, a fronha dos travesseiros. Parece que ainda posso ouvir a música que nossos corpos compunham quando fazíamos amor. Começava num ritmo lento, depois ia crescendo. Muita coisa se passou, lembro e me esqueço, mas às vezes você me invade como se eu nunca mais tivesse sido o mesmo. Dentre as camisas no armário, escolho a última que me comprou, só depois é que percebo, lembro de quantas vezes a desabotoou, da sua boca no meu peito. Nunca tínhamos tempo, mas você dizia que dava tempo e a gente saía para o trabalho com um sorriso de orelha a orelha. Escuto no rádio do carro que o trânsito segue lento, calculo quanto tempo daqui até o jornal e daqui até seu apartamento. Escrevo sobre a crise mundial e o bom desempenho do governo, mas o que eu queria mesmo era rabiscar um poema de como me lembro. O telefone toca pouco para o meio-dia, um convite para almoçar, sinto a sua falta, mas preciso continuar comendo. Talvez eu vá ao cinema, talvez eu volte mais cedo, talvez escreva seu nome no corpo de outra mulher com a ponta dos dedos, ela me pergunte o que escrevi e eu diga que é segredo. Cheguei a pensar que era você quem cantarolava agora no chuveiro, mas esta não tinha aquele seu sotaque do rio de janeiro. Eu me lembro de você nesta cama enquanto troco o lençol, a fronha dos travesseiros. Foto: Ricardo/ dela: Quel.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
pequenas histórias de amor

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
como num filme de vampiro

Digamos que você não me conheça, que eu seja apenas um corpo que você deseja, não tenha uma história ainda, um nome na sua língua, nenhuma amiga que nos tenha apresentado. E que você não precise por conta disso ter nenhum tipo de cuidado comigo, que me respeite pelo que eu te provoco e não porque votamos no mesmo partido. Esqueça tudo o que conversamos, quantos drinques já tomei – se é que está contando, meu lema nesta vida e que autores prefiro. Não quero você todo educado, apaixonado, preocupado com nada disso, quero você indecente, mostrando-me os dentes como num filme de vampiro. Há sempre um lado da gente que nem mesmo a gente conhece, por isso não se surpreenda se amanhã eu disser que não conheço a mulher que dormiu esta noite contigo. Sou uma personagem de carne e osso do seu livro. Deixo que escolha a cor do meu vestido mas se vou tirá-lo para você é algo que só eu decido. Não faz esta cara de quem não está entendendo: o feitiço virou contra o feiticeiro, querido. Agora é a minha vez de ficar por cima. Foto dela: Aline Monique.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
dentro de você ou acolá

Você quis saber que música era aquela. Eu disse o nome e a cantora, pediu que eu a colocasse de novo, queria me guardar através dela. O filme podia acabar assim, alguém por favor apague a luz do set, depois disso não haveria mais personagem, só o que sentíamos, naquele sofá que faz barulho quando nos mexemos, duas xícaras de chá esperando esfriar, a gente pensando em tudo o que está acontecendo no mundo independente de querermos e as armas que temos para lutar.
Não posso protegê-la em meus braços pelo resto dos dias, passou-me pela cabeça que gostaria de tentar, mas perguntei-me o que você aprenderia, você pensa o mesmo, embora tenha descoberto naquele último segundo que nunca se sentiu tão confortável nos braços de alguém, como se seu corpo tivesse encontrado onde sempre quis estar, e acha injusto ter descoberto aquilo um segundo antes da gente se soltar. Bem na parte da letra em que a Fátima Guedes canta ‘agora esse mundo é meu’, você não sabe se deve partir ou ficar. Se o mundo é um lugar que você já conhece ou um outro que você precisa explorar. Dentro de você ou acolá.
Eu já vivi a sua vida dez anos atrás, eu já senti a mesma fome, sede e raiva e a mesma vontade de chorar ouvindo esta música quando eu não sabia onde queria estar e dei mil voltas até lhe encontrar e te contei tantas histórias que você quis sair para procurar onde começou cada uma delas e se é aqui comigo que vão terminar – fiz um mapa para você se perder e outro para você voltar, você só precisa escolher qual deles vai usar. Foto:Ricardo/dela: Stella.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
abre uma janela
Você está de volta. O que me conta de novo? Está linda neste vestido, me lembra o que já vivemos. Tenho sede e me apaixono, não sei guardar segredo. Não demora e nos beijamos, como se estivéssemos vendo o mesmo filme. A cidade é um convite, mas eu tenho muitos discos. O tapete da sala está aí para isso, assim como as almofadas. Não é o que estou dizendo, mas no que faço você pensar que nos aproxima. Que bom que me ligou, não achei que se importaria. Esqueci porque acabou, mas não do que havia. Ainda estou em débito contigo, muitas noites para colocar em dia. Acho que meus melhores poemas fiz em sua companhia. A gente era feliz, só eu que não sabia. Se tenho onde me agarrar por que não me agarraria? Se ela resolveu ficar por que eu me oporia? Sabemos como vão falar da gente aqui outra vez, mas para isso inventaram as cortinas. Se você casou e teve filhos, só não me mostre as fotografias. Vou acreditar em tudo o que disser, mesmo que seja mentira. Adoro essa música que começou a tocar, lembra os lugares que a gente ia. Não precisamos resolver tudo esta noite, apenas pedir uma pizza. Tenho uma garrafa daquele vinho, achei que você viria. Você faz aquela cara de quem têm seus pensamentos lidos. Daqui até minha cama o número de passos ainda é o mesmo. Foto: Ricardo/ ela: Érica.
domingo, 25 de janeiro de 2009
nem só de personagens vive um romance

Gostei que tivesse vindo, eu contei os dias desde que soube que você apareceria pelos lados de cá, até deixei de atender o telefone, inventei que fui viajar, não queria que nada nos atrapalhasse, no último instante eu pediria para você ficar, de um jeito que não tinha como recusar, estava tudo planejado, mas não tive coragem, ou melhor dizendo, não tive vontade; nos beijamos e fizemos amor, mas nos beijamos e fizemos amor já sabendo que era tarde, um raio pode até cair duas vezes no mesmo lugar, o que explica a fome em nossos corpos, as marcas que ganhei e aquelas que deixei em sua pele, mas da segunda vez que cai deixa de ser uma novidade, isso explica nossa falta de assunto, o meu desinteresse por suas aventuras pelo mundo e o seu olhar perdido enquanto eu tentava me apaixonar pelo que tinha de mudado em você depois de um ano distante. Você vai embora sem saber que existiram noites que eu achei que não suportaria e eu vou me despedir de você sem saber da carta que não terminou porque demorei no banho menos tempo que previra – eu só fui encontrar o que começou a rabiscar na manhã seguinte quando fui pôr para fora o lixo da cozinha. Mas finalmente posso voltar a respirar, o seu perfume já me embrulhava o estômago, acho que você derrubou um vidro no dia em que chegou, pelo menos encontrei serventia para as velas aromatizadas que ganhei da Clara. Têm cheiro bom de alfazema. Dizem que ajuda a harmonizar o ambiente trazendo energias positivas. Eu não acredito nessas besteiras, mas agradeço o presente. Acho que vou atender o telefone se ele chamar, convidar a Jane para ir ao cinema, ver a Letícia tocar, revelar as fotos da última viagem, se me perguntarem onde estive todo esse tempo direi que fui ver o mar. E que você nunca esteve lá. Foto: Ricardo/ ela: Flora.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
vieste na hora errada

*Vieste na hora exata/ com ares de festa e luas de prata... (de Ivan Lins e Vitor Martins)
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
aquele "F" sou eu

Ouvi dizer que você anda por aí, neste mesmo mundo que eu, não sei se perto, não sei se ocupado a esta hora do dia, a caminho de casa escolho as ruas que acho são a sua cara e conheci uma cidade que eu nem sabia que existia mas que me lembram suas histórias, e tenho lido os livros que você menciona, me identificado com cada personagem, chorado e me apaixonado e tem frases deles que não me saem da cabeça e eu queria muito usá-las numa conversa com você, é que às vezes é como se eu ainda estivesse em suas páginas, visitando lugares que eu nem sei dizer direito o nome ao motorista do táxi e tenho ligado na rádio e pedido as músicas que sei que você ouve e tenho usado um pseudônimo quando faço isso, Holly Golightly, você vai entender, e tenho cantado junto com você cada letra, assobiado cada melodia e tenho dançado com amigos que faço em festas e tenho me deitado com corpos que nem sei se com o seu se parecem, mas tenho feito amor com eles como se fizesse contigo, mas eles nem sabem porque fui tão selvagem, porque me entreguei daquele jeito, é algo que eu nem sei direito prever quando vai ocorrer quanto mais explicar sem dizer o seu nome, e tenho vestido roupas em que talvez você goste de me conhecer e tenho me despido para o espelho como se fosse para você e tenho gostado mais do que vejo quando acho que você me vê e tenho conhecido gente diferente, gente estranha, gente esquisita, gente que eu sei que você gostaria e temos falado alto e feito bagunça de noite e quem sabe isto acorde o seu vira-lata e você venha até a janela saber do que se trata e temos dirigido por avenidas na hora em que elas estão mais vazias e eu tenho encostado minha cabeça no ombro mais próximo como se fosse no seu que encostasse e tenho bebido nos mesmos bares que você freqüenta e tenho pedido o mesmo drinque trocando o rum por vodka como eu acho que você faria e descobri a mesa em que você se senta e a letra do seu primeiro nome feita com canivete na madeira e escrevi ao lado dela a primeira letra do meu mas ficou parecendo outra, por isso não estranhe aquele “F” ao lado do que escreveu – aquele “F” sou eu. Foto dela: Tay.
domingo, 4 de janeiro de 2009
a falta que faz
Depois que acaba você pensa se não era melhor que nunca tivesse acontecido. Fica a sensação de uma história incompleta a cada novo passo que se dá, é algo que só você sabe que carrega e pesa mas que precisa continuar sorrindo da mesma maneira como se não estivesse lá; você não sabe se se afasta o mais depressa ou se permite que no corpo os sentimentos todos doam até quem sabe se acalmarem – a questão é: existe alternativa para a falta de ar?
Não haverá outra chance igual a esta, numa vida igual a esta, nas mesmas condições ideiais de temperatura e pressão, porque apesar de ser ‘macaco velho’ quando o assunto é amor, você nunca sabe quando algo começa e porque começa, nem se sente capaz de voltar ao estado que era antes dela te tocar porque a partir de agora no seu corpo você convive não com a sensação de onde ela te tocou mas de onde ela não vai mais te tocar, é como um fantasma na sua pele, você quer e não quer exorcizar, quer e não sabe, se alguém souber não me diga, a dor é minha amiga, ela me lembra dela e conversa comigo sobre ela, só dói porque é repetitiva, não conta as novidades, só o que ela já sabe: o que tivemos, como éramos, como termina.
A gente aumenta o volume da tevê para pensar em outra coisa e se sente mal quando percebe que o conflito na faixa de Gaza parece fichinha diante do conflito dentro de você. Noites inteiras não foram suficientes para tudo o que você sentia e agora você acredita que se tivesse pelo menos mais duas horinhas ela sentiria tudo o que explode dentro de você, coisas que podia ter dito, gestos que poderia ter feito, idéias que passaram pela sua cabeça, daquelas que dão um giro de 180 graus na sua vida e na dela. O problema de não se definir mais o que é amor hoje em dia é que quando é amor você não sabe mais como dizer, só descobre quando é tarde demais para saber. Daquele corpo que ora lhe tocava por descuido ora lhe tocava com paixão apenas a falta que faz, o frio que antes eu não percebia, a solidão de que eu já não me lembrava mais. Foto: Ricardo/ dela: Stella.
Não haverá outra chance igual a esta, numa vida igual a esta, nas mesmas condições ideiais de temperatura e pressão, porque apesar de ser ‘macaco velho’ quando o assunto é amor, você nunca sabe quando algo começa e porque começa, nem se sente capaz de voltar ao estado que era antes dela te tocar porque a partir de agora no seu corpo você convive não com a sensação de onde ela te tocou mas de onde ela não vai mais te tocar, é como um fantasma na sua pele, você quer e não quer exorcizar, quer e não sabe, se alguém souber não me diga, a dor é minha amiga, ela me lembra dela e conversa comigo sobre ela, só dói porque é repetitiva, não conta as novidades, só o que ela já sabe: o que tivemos, como éramos, como termina.
A gente aumenta o volume da tevê para pensar em outra coisa e se sente mal quando percebe que o conflito na faixa de Gaza parece fichinha diante do conflito dentro de você. Noites inteiras não foram suficientes para tudo o que você sentia e agora você acredita que se tivesse pelo menos mais duas horinhas ela sentiria tudo o que explode dentro de você, coisas que podia ter dito, gestos que poderia ter feito, idéias que passaram pela sua cabeça, daquelas que dão um giro de 180 graus na sua vida e na dela. O problema de não se definir mais o que é amor hoje em dia é que quando é amor você não sabe mais como dizer, só descobre quando é tarde demais para saber. Daquele corpo que ora lhe tocava por descuido ora lhe tocava com paixão apenas a falta que faz, o frio que antes eu não percebia, a solidão de que eu já não me lembrava mais. Foto: Ricardo/ dela: Stella.
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