sábado, 15 de setembro de 2007

pelos cantos

Será que nos conhecemos ou formamos apenas sombras? Eu sei quem é você porque inventei-lhe o resto. Nossos corpos se tornaram grandes amigos mas nossas conversas nunca foram muito além disso. Sei onde você têm cócegas mas o que a faz rir ainda me é um grande mistério. Nos apaixonamos pela idéia que fazemos uns dos outros. Eu era os muitos livros que você não leu e você as muitas festas de que ouvi falar. Estranho que não sinta tanta falta assim de você e muito mais das frases que coloquei na sua boca.

O fim é um segundo. Você acorda e não sabe o que está fazendo. Reconheço que o beijo era bom, o cheiro e o sexo, mas às vezes tudo se resume a uma questão de falar e ser escutado. Para o jogo ser limpo não se precisa regras bem definidas mas jogadores que sejam honestos – fomos honestos até onde nos interessava. Eu roubei o que era bom de você e que me faltava e você pegou emprestado o que quis de mim dizendo que devolveria mas até agora nada: está tudo bem, fica pra você, afinal era só poesia mesmo.

Discordo de você: o gosto não fica ruim depois que acaba – é um conhecimento novo quero crer, quem sabe mais um verbete para a minha enciclopédia de dúvida e prazer. De que são feitas as minhas histórias senão daquilo que você esqueceu aqui e não voltou para buscar? Você tem até a próxima campanha do agasalho para vir pegar. Depois disso servirá para aquecer outra e pode ter certeza que aquecerá.
Foto: Ricardo Pereira/ modelo: Maíra.