sábado, 11 de março de 2017
quarto e sala
terça-feira, 22 de novembro de 2016
desculpas
domingo, 23 de outubro de 2016
você não precisa de mim
para helena m.
domingo, 26 de junho de 2016
o meu aprendizado
domingo, 7 de fevereiro de 2016
hoje é domingo
sábado, 31 de outubro de 2015
sinto que lhe devo
terça-feira, 15 de setembro de 2015
de noite
quinta-feira, 9 de julho de 2015
idas e voltas
quinta-feira, 2 de abril de 2015
para que lado olhava que não te via?
sábado, 20 de dezembro de 2014
retrospectiva
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
chega a notícia
quarta-feira, 9 de julho de 2014
entrelaçamos braços e pernas
domingo, 16 de março de 2014
sei partir, sei me retirar em silêncio
domingo, 13 de outubro de 2013
não guardo rancor, só amor
domingo, 15 de setembro de 2013
"te soltar mesmo querendo te prender"
domingo, 25 de agosto de 2013
tudo se transforma
domingo, 30 de junho de 2013
você veio
quinta-feira, 30 de maio de 2013
ela não queria se envolver
sábado, 30 de março de 2013
só pensando como foi bom
domingo, 17 de março de 2013
para começar numa outra cama
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
hoje eu queria te dizer isso
domingo, 20 de janeiro de 2013
tudo o que é sólido desmancha no ar
domingo, 23 de dezembro de 2012
apenas uma noite
domingo, 18 de novembro de 2012
de volta ao que já sabemos
sábado, 13 de outubro de 2012
ainda me perguntam de você
sábado, 15 de setembro de 2012
na noite em que ela fez 29 anos
domingo, 26 de agosto de 2012
ainda que não mais nos vejamos
domingo, 27 de maio de 2012
fique o tempo que quiser
sábado, 11 de fevereiro de 2012
sempre que ouvir chet baker

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
para guardar e ler
Quando ela disse ‘vinte’ eu mudei de assunto, não havia esperança alguma para nós, só havia hoje, aquela noite, o livro que me pediu emprestado, disse que podia levar, que não precisava devolver, era um presente, algo de mim que ela podia ter, para guardar e ler. Gosto de permanecer assim em alguém, como algo que ainda tem significado, mesmo que seja uma música que há muito se parou de escutar e que de repente começa a tocar do outro lado do bar – sei que ela samba, sei que no seu íntimo me tira para dançar. Às vezes me escreve, cartas que eu gostaria de ter escrito, com aquele seu jeito de contar que parece riobaldo, diz que muda para São Paulo, que passa umas noites no meu sofá, que fez uma tatuagem onde disse que faria, que trocou o direito pela dramaturgia, o silêncio pela vontade de gritar. Pede o meu número de telefone de novo, mas nunca que me liga da rodoviária dizendo que acabou de chegar, que trouxe consigo uma mala pequena, cheia de poemas que ela tentou, mas não conseguiu sufocar. A última notícia que tive dela foi que fugiu com o circo, o que eu aprovo com um sorriso, imagino ela com seu nome de trapezista fazendo piruetas no ar. Foto: Paula Repezza/ ela: Polly Di.sexta-feira, 2 de setembro de 2011
algo que você pudesse interpretar
Com quantas mulheres estive depois de você? Com quantas delas estive a ponto de lhe esquecer? Com quais delas queria acordar esta manhã? São perguntas que espalho pelo quarto, tentando entender aquele cenário, que a luz do sol, aos poucos, ajuda a esclarecer. Por onde andou todo esse tempo? Em quantas camas me esqueceu? Em quantas não conseguiu dormir? Você que é só esticar o braço, você que disse que não podia ficar, você que eu nem precisei convencer. Parece que nossos corpos retomaram uma velha conversa, como atores de volta ao mesmo palco para a mesma peça que é o amor como conhecemos, sem maiores explicações para dar. É como se tudo estivesse de volta no seu lugar, mesmo que pareça de pernas para o ar, esta minha vida que você insiste em (des)arrumar, com seu jeito todo próprio de decorar. Não sei o que dizer quando acordar, se tento lhe prender ou devo lhe soltar – você que já foi embora por aquela porta e que já decidiu por si própria retonar, mas eu queria deixar um gesto, um olhar, algo que você pudesse interpretar como sendo aqui desse lado esquerdo onde sua cabeça repousa terá sempre um lar. Foto dela: Mariza. domingo, 15 de maio de 2011
entre a gente
para tatianaVocê vai embora e eu fico sem cigarro. Queria que amor fosse só esticar o braço. Meu corpo é flexível, meu coração nem tanto, precisa aprender a viver sem você em cima, em baixo, de tudo o que é jeito que a gente inventou de fazer. Achei que não fosse importante, achei que não me arrependeria, não pesei direito o que sentia, pensei ‘um dia acaba como qualquer poesia’. Outros foram embora antes de você, outros que eu deixei, alguns de quem nem me lembro o nome, o que vieram fazer: se me diverti ou tive vontade de morrer. Sei que a porta se fechava e abria, a luz se apagava, o quarto escurecia, a gente se amava, a gente se despedia, dizia que se via e nunca mais se via, mas onde tinha de doer não doía, porque durava o tempo que tinha de ser. Mas sinto que entre a gente ainda não perdeu a validade, o que explica toda essa minha necessidade, ainda temos alguns dias antes do prazo vencer, algumas noites por assim dizer, vamos viver tudo o que há pra viver’*, tudo o que nos der vontade; te espero a hora que quiser aparecer, fico acordada até mais tarde, sonhando que te prendo entre as minhas côxas até quem sabe te convencer que não pode viver sem meu corpo em cima, em baixo, de tudo o que é jeito que a gente inventou de fazer. Foto dela: Mafer.
*(de Lulu Santos, Tempos Modernos)
quinta-feira, 17 de março de 2011
menor que liechtenstein
terça-feira, 8 de março de 2011
enquanto não conhecemos ninguém
A gente não volta, não exatamente, apenas sente falta e se pergunta por que não. Conheço tua cama, de que lado você dorme, como desperta de manhã, seu mau-humor nos primeiros minutos. Podemos ser só amigos, podemos ser mais do que isso, ninguém precisa saber que ainda nos vemos, que é só enquanto não conhecemos ninguém. Mas hoje eu não posso, amanhã até pode ser, então você tem um ataque de ciúmes, como aqueles que costumava ter, desliga, não quer mais saber. Minutos depois me liga de volta, diz que é uma louca, que não tem nada a ver, que está a minha espera, na hora em que eu quiser aparecer, mas não vestirá nada especial, mesmo que vestisse eu fingiria não perceber, tenho uma história para cada um de seus vestidos, para cada noite que despi você. Não precisa mais me mostrar o caminho, posso escrever um manual de como te enlouquecer, que parte de você prefere um carinho e onde posso morder. Mas nada será como antes, nem precisa ser, já tivemos amor o bastante, só queremos nos aquecer, ainda mais com esse friozinho que começou a fazer. Foto dela: Valeria.
domingo, 5 de dezembro de 2010
ainda gosto dela
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
eu não me arrependo de você
Nada do que você me disser vai mudar o que tivemos: as noites em que me fez feliz, as manhãs em que não quis me acordar, o seu beijo antes de partir, o seu beijo depois de chegar, o peso do seu corpo contra o meu, aquela vez sobre a mesa do jantar, só de lembrar minha pele arrepia e esse arrepio é mais forte do que eu, não tem como dizer que não aconteceu. Eu vou saber guardar, tenho uma gaveta para coisas assim, cheia de versos que esqueceram que escreveram para mim. Não vejo razão em discutir, aceito se diz que é o fim, só que parece que é você quem está tentando se convencer, mas se te faz bem pode falar, daqui a pouco saio para dançar, nem faz idéia do efeito que a música tem sobre mim. O que for seu pode levar, o que me deu não tem como voltar, faz parte da nossa história, fica vivo em algum lugar, pode ser que um dia bata de novo na minha porta e que eu até te deixe entrar, numa noite que de tão sozinho não importa com quem se está. Não me arrependo daquilo que faço, se fiz o que queria fazer, gostei de milhões de pessoas, também gostei de você, não será a primeira nem a última que eu saberei esquecer. Foto dela: Raluca.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
esta noite e quantas mais tivermos
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
microcosmo
Fingi que dormia, ela se movia pelo quarto sorrateira, devagar, não queria me acordar, pensava no que me diria além de ‘bom dia’, mal sabia como tinha vindo acabar naquele lugar. Lembrava-se de uma festa, da banda que tocava, de que ria e não conseguia parar, que ‘barba por fazer’ a enlouquecia, depois que me mordia, que meu corpo a prendia, que não queria se soltar – e de como tudo isso lhe parecia agora tão distante: sabia quem era a mulher que se vestia, mas não se reconhecia na mulher de antes, ainda que esta lhe parecesse bem mais interessante. Eu não tinha como ajudá-la, não a conhecia, embora ela não me fosse de toda estranha, talvez até já a tivesse trazido uma noite para cá, a música estava alta, não ouvia direito o que me dizia pouco antes de começar a me beijar. Ela me observava em pé ao lado da cama, pensava como de costas parecia-lhe com todos os homens com que já esteve, ainda mais quando não se lembrava de seus rostos, embora sua boca ainda guardasse o meu gosto. Tirou um pedaço de papel da bolsa, mas nada escreveu, conferiu se havia esquecido algo, mas nada esqueceu. Fechou a porta atrás de si e saiu, ainda vi quando seu táxi dobrou a esquina e sumiu, pensava que se a visse novamente não sei se a reconheceria e que, talvez, aquela noite se repetisse infinitamente entre a gente como algo me dizia já se repetiu. Foto dela: Ana Martins ‘na ponta dos pés’. terça-feira, 20 de julho de 2010
difícil ficar sem
A verdade é que a gente já se acostumou com o corpo um do outro. Isto de saber onde tocar, onde mergulhar, o que não precisa mais consentimento. Intimidade assim leva tempo, não se consegue da noite para o dia, tanto que quando ela me diz que está a caminho, minha pele já se arrepia. Combinamos que não seria sério, seria algo que não nos preocuparia, podemos ser só dois bons amigos, podemos ser bem mais do que isso, não sabemos quando nem como vai acontecer, mas depois que acontece, nos entreolhamos sem nada dizer – nos perguntando se é certo, se agimos errado, sabemos apenas que é bom, dificíl ficar sem. Estamos sempre retomando de onde paramos, enquanto outros passam por nós, com suas idéias de amor diferentes da nossa, que às vezes quase nos convencem. Ela diz que não pode ficar mas fica, não conseguimos nos desvencilhar simplesmente, o que acontece entre nós nunca se explica, sempre mudamos de assunto quando o assunto é a gente. Quando vê já passou da sua hora, veste-se depressa, precisa ir embora, não sabe quando volta, sabe que vai voltar, sente que o fará eternamente. A verdade é que a gente já se acostumou com o corpo um do outro. Difícil ficar sem. Foto dela: Ana Martins. segunda-feira, 17 de maio de 2010
o passado
Você já me perdeu e me encontrou mais de uma vez. A gente já se reconheceu e fez que nunca se viu. Eu já bati na sua porta e você fingiu que não tinha ninguém. Você ainda guarda os meus poemas porque lê-los, às vezes, lhe faz bem. Eu deito na minha cama esperando quem não vem. Você se despe no seu quarto imaginando para quem. Quando toca a nossa música, muda de estação e eu também. Esqueci seu livro preferido, mas depois eu me lembrei. E li ele inteiro novamente para descobrir por quê. Estaciona em frente do meu prédio como se viesse me ver. Pergunta o que deu errado como se já não tivesse tentado responder. Comprei um de seus quadros, mas dei um nome nada a ver. Pendurei na minha sala, mas isso nunca vai saber. Você é muito mais artista do que eu jamais vou ser. Reduzo-me à minha insignificância escrevendo versos para você. Peço que publiquem só depois que eu morrer. Até lá é como se não tivéssemos mais nada para dizer. Acha que estou apaixonado por toda mulher com quem me vê. Mais até do que estive, algum dia, por você. Mas o que era para ser seu já lhe foi dado, igual nenhuma vai ter. Quem fez parte do nosso passado, nunca vai deixar de fazer. Imagem: Mariana Anghileri e Gael Garcia Bernal em cena do filme “O Passado”(2007, Hector Babenco). terça-feira, 27 de abril de 2010
fazia tempo que eu não vinha aqui
Fazia tempo que eu não vinha aqui. Acho que pelo motivo errado, quando você cisma com algo não quer ouvir o outro lado, então a deixei falando sozinha e, pela mesma porta que entrei, saí. Não repare a bagunça, você diz. Uma taça esquecida sobre o aparelho de som: pergunto-me quanto teria bebido, que disco havia escutado até o fim, o que passava pela sua cabeça, que filme projetava no teto, será que apagou as luzes e se deixou ali? A cidade ainda é a mesma da sua janela, é o que observo, disse-lhe o nome de todas as ruas que podia se ver daqui, que caminho teria de fazer até a universidade, a estação de metrô mais perto – e até uma fita cassete com as músicas que deveria ouvir durante o trajeto, eu fiz. Você mudou o pano do sofá, a estante de lugar, tem um óleo sobre tela onde havia um cartaz de Fale com Ela, mas o cheiro ainda é o mesmo, dos seus incensos, das suas velas, que eu quase me convenço que foram acesos à minha espera. Eu sabia que me convidaria para subir, você que eu aceitaria, o que mais podemos fazer aqui se não colocarmos ‘o que sentimos’ em dia. Foto: Ricardo/ dela: Duda. quinta-feira, 25 de março de 2010
onde?
Andei nos procurando pelas ruas onde passamos, voltando de uma festa, indo para a nossa. Ríamos alto, não nos importava, tudo o que havia ao nosso redor se ali estava era por nós, para nós, era assim que eu me sentia, era assim que você me fazia sentir. Perguntei se nos viram nos bares onde íamos, descrevi a roupa que vestíamos na última noite em que saímos, se eu soubesse não tinha pedido para ir embora, levantaria e começaria a dançar. Você fez uma lista dos livros que eu deveria ter lido aos vinte anos, encontrei no bolso de um casaco, vibrei quando vi que era a sua letra, pensei que era um poema que havia me esquecido e, pensando bem, talvez seja: vou começar pelo caio fernando, quero recuperar o tempo perdido, leio alto como se estivesse me ouvindo, queria lhe contar tudo o que estou sentindo a cada página que termino, quem sabe escrevo uma carta e até ponho no correio, faço uma camiseta, reuno uns amigos e te convido, coloco cordas novas no violão e componho uma canção. De amor como seus bilhetes na geladeira. Eu ainda tenho esperanças no elevador, quando aperto o sete e ajeito o cabelo, antes quando abríamos a porta tudo parecia a nossa espera, mas encontro a casa exatamente como a deixei, tão diferente da bagunça que a gente era. Foto dela: Tay Gomes. domingo, 7 de março de 2010
depois que a luz acende
terça-feira, 2 de março de 2010
como alice no país das maravilhas
Conheci outra mulher depois que a luz se apagou, uma mulher que não estava lá antes, não com aqueles dentes. A noite durou exatamente o quanto ela me queria, enquanto isso o sol não vinha nem nascia o dia. Ela me contou seus segredos e me fez um de seus segredos, se me contassem sobre nós nem eu acreditaria, ficaria imaginando como e quando a teria conhecido, mesmo que fosse um minuto depois do ocorrido, com o gosto da sua boca ainda na minha, porque uma mulher como aquela ninguém diria que existia no corpo da guria que ao meu lado agora dormia, como se fosse Deus descansando de ser Deus no sétimo dia, com a sensação de dever cumprido percorrendo cada centímetro de sua pele macia. Se ela acordar perguntando onde está como Alice no país das maravilhas juro que não me surpreenderia, também não anotei a placa do caminhão, tive que me beliscar para saber se era de verdade, tive de procurar minha identidade entre nossas roupas espalhadas pelo chão. Quando amanhece ela se veste como se nem desconfiasse que outra mulher do seu corpo se apodera quando a luz se apaga, quando a bela vira fera. Foto dela: Quel. segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
ano novo, canções antigas
A gente se deu um tempo. Escolheu lugares estranhos, ruas por onde nunca caminhamos, as salas de cinema com os piores filmes passando, de outro jeito acabaríamos nos encontrando. E rimos mesmo assim das tolices que escutamos, com muitas dúvidas a respeito de nós próprios e do gênero humano, às vezes de uma mediocridade que assusta. Acho que o amor nos protegia, no nosso mundo não havia as tragédias que tenho lido nos jornais todos os dias, ir para a cama era como fugir para uma ilha, colocávamos uma música e ela nos envolvia como se fossemos personagens de um filme que só a gente alugava, a única cópia que existia. Foi como abandonar o cigarro que me fazia companhia, passar a me preocupar com a quantidade de calorias que comia, estudar administração em vez de escrever poesia, no lugar de fazer amor matricular-se numa academia. Deu para conhecer uma garota, mas eu ficava pensando onde você estava depois que ela dormia, quando a gente conversava me vinha a cabeça o que me responderia, não estava sendo justo com a guria, pedi desculpas, mas ela não entendeu patavina nem podia: ela entrou por uma porta por onde você ainda não saíra. Soube que você viajou para lugares que sempre me dizia, estava vendo seu album de fotografias: em cada foto que você aparecia eu imaginava de que lado estaria, a pose que faria. Foto: Ricardo/ dela: Quel.segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
o que 'ainda' sentimos
Acontece que a gente não joga tudo fora, sempre guarda alguma coisa, um pedaço de papel por menor que seja, o primeiro verso que me veio a cabeça. Fui te ver achando que não a reconheceria mais como se tivesse passado anos, mas me lembrei de cada segredo que seu corpo disse ao meu, é impossível não ver um filme passando toda vez que nossos olhos se encontram, nem se perguntar porque sua boca não toca mais a minha quando seus lábios se aproximam do meu rosto - ainda posso sentir o gosto. Cheguei mesmo a pensar que não, mas ainda podemos conversar durante horas: não esgotamos todos os assuntos; não é porque não dormimos mais juntos que não quero saber a sua opinião, não demora e estamos num canto isolados do restante da festa, imaginando o que estarão pensando, rimos daquilo, rimos e não rimos, não chegamos a uma conclusão definitiva a respeito do que 'ainda' sentimos - como se o que 'ainda' sentimos pudesse ser só uma embriaguez, uma música que ouvimos, um comichão. Confesso que só vim porque achei que viria, foi assim que me convenceram, se saísse com a V... com quem você acha que eu a ficaria comparando, ela não merece isso: é doidinha, me faz rir, até que está se esforçando. Estou tentando escrever sobre ela em cima daquilo que escrevi sobre você, mas é difícil cobrir todas as linhas, ainda não tem a mesma poesia - às vezes, interrompo o que estou fazendo e fico te lendo como só eu te via - pena que ninguém mais vai saber. Uma noite eu queria que sentássemos e conversássemos, não da vontade que temos de fazer porque a vontade que temos de fazer é a mesma vontade de fazer que todo mundo tem em noites como esta, mas sobre o que deixou em mim que eu queria saber se existe como devolver, já que não consigo mais 'tocar' ninguém sem lembrar que não 'toco' mais você. Foto: Ricardo/ dela: Carla.domingo, 1 de novembro de 2009
até mesmo onde nem está
Tenho te visto em todos os lugares. Dos mais comuns aos menos prováveis, às vezes, até mesmo onde nem está. Como se esperasse a melhor oportunidade, fosse me surpreender a qualquer instante. Se isso não é sinal de alguma coisa, eu não sei mais o que é. Chego a ter a impressão que de você existem milhares, todas vindo na minha direção, algumas mais firmes em seu propósito, outras me deixando para mais tarde, gostaria que fosse verdade e que cada uma me ocupasse todo o tempo, como já ocupa meus pensamentos – que enquanto uma de você se vestisse para ir a faculdade, outra ficasse o resto da manhã. Você passa por mim no trânsito, canta uma canção no rádio do carro, faz propaganda da Duloren nos out-doors espalhados pela cidade. Sinto seu perfume quando entro no elevador, acho que me segue se ouço passos no corredor, na secretária eletrônica quantas vezes me ligou, cada vez com uma voz diferente, a cada nova mensagem ficava mais urgente. Se houvessem tantos de mim quantas parecem haver de você, seríamos milhares de casais fazendo amor ao mesmo tempo enquanto outros de nós espiariam da janela de seus apartamentos. Foto dela: Érica Simone.sábado, 10 de outubro de 2009
duas mulheres
para francine, regina, carlaEu já estive aqui, isto é, já senti que era o fim, encontro-me no mesmo ponto de uma outra história, como se fosse um déja vu – não é assim que se diz? Só que desta vez sou eu quem se levanta da cama, quem não consegue dormir, é como se refizesse uma cena que ficou gravada só que na pele de outra personagem contra a qual antes eu me debatia: se é que me deram a chance de fazê-lo, faço o mesmo agora? – pergunto-me. Espero você acordar ou me visto devagar, um milhão de coisas passa pela minha cabeça: quem eu quis matar quando era eu no seu lugar, como eu quis morrer, meus amigos vão se lembrar, jurei que nunca mais deixaria acontecer. Mas você aconteceu – você que nada tinha a ver com o que aconteceu corre o risco de ser quem vai pagar, afinal. Se eu soubesse não tinha deixado que nos apresentassem, nem te olharia de cima abaixo como se quisesse saber o que me aguardava se eu me jogasse, como terminava aquela tatuagem que você tinha acima do púbis, minha boca salivava de curiosidade. Hoje eu acordei e seu corpo pesava sobre o meu, como se eu fosse sufocar, não tenho forças, não tenho mais como te carregar, eu sou assim mesmo – lembra como eu me impressionei com cada uma de suas tatuagens, uma mais linda que a outra, demorou para eu criar coragem, você me ajudou a escolher que desenho seria: uma borboleta que depois que pousasse nunca mais me deixasse. Pensei em fazer um café para nós, um carinho nos seus cabelos, dobrar suas roupas e guardar no armário, nada muito especial, nada que te faça perguntar se há algo errado, que eu precise fingir não ter escutado. Foto: Ricardo/ dela: Carla.
domingo, 4 de outubro de 2009
onde quer que esteja nesta noite
Acho que ninguém ficou no seu lugar, apenas troquei os lençóis, o cigarro pela goma de mascar. Estou vendo filmes num cinema completamente vazio, a essa hora do dia só você podia. Depois de algumas músicas já não quero mais dançar – e pensar que nenhuma noite terminava antes das seis. Não é difícil conhecer alguém e levá-la para casa, só esta semana foram três. Os nomes esqueci em algum lugar, no bolso de uma camisa, podem ter caído atrás do sofá. Não estou dizendo que exista muito mais do que isso, mas às vezes quando se roda durante um bom tempo por um mesmo caminho fica mais difícil de retornar. É verdade que não chegamos a nenhuma grande cidade, nenhuma em que quiséssemos morar, mas passamos ótimas noites – se me lembro bem – em alguns hotéis de beira de estrada, pensamos até em fazer um guia, anotamos nomes, fizemos pequenas cotações, tíramos mil fotografias, algumas não dá para publicar, não neste horário. Às vezes não faço força alguma, deixo-me levar como se fosse num carro cheio de grandes amigos e quando me vejo estou dizendo bobagens para um ouvido qualquer, algo mecânico e que tirei de um velho disco, apenas porque não terei a vida inteira e preciso aproveitar que ainda exista quem esteja alta o suficiente para achar meu papo atraente, sei que você age exatamente igual nesta noite – nesta noite onde quer que esteja. Onde quer que esteja nesta noite meu corpo a deseja. Quem foi embora? Quem ficou no seu lugar? Estou me fazendo perguntas antes dela acordar. Foto dela: Lady.sábado, 26 de setembro de 2009
chove
para alini numa manhã linda de solEstá chovendo, mas você disse que vinha assim mesmo, mas quando disse que vinha assim mesmo não estava chovendo ainda, fazia uma manhã linda de sol e para mim fazia uma manhã linda de sol porque você viria. Mas tudo acontece comigo, inclusive chover quando não deveria, por isso esse meu ar de que o mundo todo conspira contra, mas você disse que eu fico linda emburradinha e às vezes eu fecho a cara diante do espelho só para imaginar o que diria. Você está atrasado, mas você disse que talvez atrasaria, que tinha de passar num outro lugar antes de vir para cá, eu queria que você viesse correndo, se eu fosse você eu correria, não teria nada mais importante nesse dia, nesse e nos outros dias. Será que você sabe o que eu estou pensando nesse exato instante, se fosse no meu corpo eu saberia, minha pele toda arrepiaria, acho que você acaba de pensar o mesmo que eu porque me deu um calor na espinha. Estou lendo o livro que você disse que eu gostaria, já li mais da metade e não entendi porque, deixei umas partes grifadas que quero perguntar para você, será que sou diferente de como me vê? Às vezes me irrito de saber que o carro que acaba de dobrar a esquina não é o seu, outras vezes, estranhamente, fico feliz que não seja, é como se eu temesse aquilo que o meu corpo deseja, não quero que esse sentimento tome conta de mim, tampouco quero que desapareça. Foto dela: Queen Jane.




















